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O Mundo segundo Tio Dino

por Tio Dino

"Fiz sexo com a ironia e nasceu isso. Dei descarga nos valores, abracei o cinismo e tenho aquilo que toda mulher procura: sarna pra se coçar."



VERSÃO BRASILEIRA

Entenda, de uma vez por todas, porque nem sempre uma versão brasileira é uma boa ideia.


Tipos de riqueza não listados pela Forbes

1 – Isopor cheio e água do mar batendo na canela.

2 – Poder peidar e tirar meleca fazendo bolinha em um lugar que não há ninguém.

3 – 10 mil itens para ler e marcar tudo como “Lido”.

4 – Ouvir a frase do chefe “pode ser pra segunda”.

5 – Fotos de gente famosa pelada vazadas na net.

6 – Ouvir da mulher “Amor, tô com preguiça de sair hoje. Quer ir sozinho?”.

7 – Tirar a casca da pipoca do dente só com a língua.

8 – Vizinha gostosa que troca de roupa com a cortina aberta.

9 – 10 real encontrado no bolso da calça no dia seguinte.

10 – Sinal liberado do canal pornô.


Feio

Nasci de um engano. O médico jurava que estava tratando de um apêndice inflamado. Fui criado pela minha mãe e apenas reconhecido 15 anos mais tarde por falta de provas de que eu seria um ser vivo ainda não catalogado pela comunidade científica.

Até houve uma vez em que me chamaram de príncipe, em um teatrinho ocasional. Um pai chegou a dizer que se o príncipe era esse, imagina quando era sapo. O diretor da peça se apressou em acalmá-lo dizendo que se tratava de um teatro de vanguarda e, no lugar do príncipe, haviam descolado uma salamandra. “Uma evolução-reversa”, nas palavras dele.

No meu aniversário, diversas vezes me confundiram com a decoração da festa, que tinha como tema o filme Monstros S.A. Nas fotos de família, sempre em meu lugar era contratado um dublê.

A prostituta de minha primeira experiência sexual só aceitou fazer o trabalho se eu pagasse adicional de insalubridade, seguro contra perdas e danos e aposentadoria por invalidez. Digo que eu não perdi a virgindade. Foi ela quem fugiu de mim – inclusive, parece que está morando em Sorocaba e atende pelo nome de Iracema.

A morte já bateu uma vez à minha porta. Constrangida, disse que era engano.

Vivo de uma generosa pensão vitalícia de direitos de uso de imagem. George Lucas, ao saber de minha existência, ficou empolgado e pediu que o conceito visual dos seres da próxima trilogia “Guerra nas Estrelas” fossem baseados em mim.

Já tenho história. Não preciso de bullying.

Bônus track:

Você não é feio. Mas se colocarem uma moldura em volta da cara já pode ser chamado de arte abstrata.

Você não é feio. Só quando Deus te desenhou estava rascunhando no caderno enquanto falava com o Diabo no telefone.

Você não é feio. Só usaram o que restou da batida entre um Fusca, um Lada e um caminhão de produtos tóxicos pra construir você.

Você não é feio. Mas só ouve “que gato!” quando sobe no poste.

O marido dela não é feio. Ela só quis se familiarizar com o inferno antes de morrer.

Em casa de feio, Halloween é aniversário.

Você não é feio. Só acumulou no rosto o sofrimento de três gerações.

Você não é feio. Só está fantasiado assim pra ver se pega a Isabeli Fontana.

Você não é feia. Mas a sua chance de ser chamada de gostosa é trocando o nome pra Nutella.

Não sou feio. Foi um hacker que invadiu a minha mãe.

Você não é feio. Só que quando nasceu no lugar da certidão de nascimento tiveram de fazer uma errata.

Ela não é feia. Mas se a expressão “feia de doer” fosse de verdade era pra ela tá em coma.

Você não é feio. Só foi a cegonha que levou um tiro

Você não é feio. Só se parece com o Zé Ramalho cagando.

Você não é feio. É só o Photoshop, que a cada vez que você tenta retocar uma foto aparece com a tela “DESISTO”.

Você não é feio. É que quando Deus estava te esculpindo lembrou que tinha outra coisa pra fazer.

Ela não é feia. Só teve uma experiência de quase-morte.


Eu só queria ir pra Cachoeiro

O azar segue um padrão: vem sem avisar. Só consegui escrever esse texto agora, porque nas duas tentativas anteriores eu não passava do segundo parágrafo sem chorar.

Eu tinha algumas alternativas para passar a virada de ano. A primeira: um retiro espiritual – meus pecados ainda estavam frescos na memória do capeta, o que poderia contribuir para um desequilíbrio na harmonia Cristã. A segunda: Búzios – não tenho cara de Búzios. Tenho uma alma de Piscinão de Ramos aromatizando com o Tietê. O mais perto de Búzios que já fui foi numa consulta a um pai de santo. Terceira: Europa – sem chances. Continuarei por algum tempo conhecendo a Europa só de Google. Ou, no máximo, me aproximando de um filtro d’água. E o último: Espírito Santo – um convite muito estranho. Deve ser por isso que eu resolvi aceitar: sempre gostei de um desafio.

O destino era Marataízes, litoral sul capixaba, com uma parada em Cachoeiro de Itapemirim – lugar onde Roberto Carlos deixara saudades e uma perna. O fim de ano faz com que as companhias aéreas se digladiem por passageiros nos presenteando com preços absurdamente baratos. Mas achei que Vitória era muito longe e resolvi sair do Rio direto para Cachoeiro. De ônibus. A passagem para o inferno com escala no limbo acabara de ser comprada.

Se o diabo precisasse de coletivo, com certeza usaria os serviços da Viação Itapemirim: carros sem ar-condicionado para uma viagem de mais de 6 horas.

Ainda na rodoviária Novo Rio, já tinha uma ideia do que me esperava. Deveríamos sair por volta das 23h08min e só partimos realmente às 23h30, sabe-se lá por que. Mal saímos do portão e os primeiros problemas surgiram. O pessoal pensou que estava indo para um churrasco e desandou a comprar cerveja dos ambulantes que aproveitavam o engarrafamento para faturar uns trocados. Eu, sentado ao lado do banheiro na última poltrona, via o entra e sai de pessoas apertadas e sentia o cheiro de mijo irradiando uma felicidade desesperada.

Em Niterói o ônibus pifa.

- O que aconteceu motorista?
- Acho que o ônibus ficou com saudade de casa.
- Qual o problema?
- Arrebentou a correia do alternador.
- Não dá pra fazer nada?
- Dá. Esperar outro ônibus.

Depois de 1 hora e meia a espera de outro veículo que pudesse nos levar até o nosso destino, surge um ônibus saído diretamente do interior do Afeganistão ou de algum museu do início da era dos transportes coletivos. A grande diferença deste, além do cheiro de mofo, era o ar-condicionado, que impressionantemente funcionava (!).

E dá-lhe mais cerveja pra comemorar. Dava a impressão de que os passageiros nunca haviam viajado em um ônibus com banheiro e queriam aproveitar ao máximo a experiência abrindo de minuto em minuto esta parte desprivilegiada do veículo.

À uma hora de Mimoso do Sul o ônibus substituto quebra.

- É falta de ar.
- Porra, é a primeira vez que viajo num negócio que se parece com meu avô. Qualquer subida já cansa.
- Sem ar não tem freio. Não dá pra abrir o bagageiro. E a descarga não funciona.
- E qual é a notícia ruim?

Ficamos horas intermináveis a espera de alguma coisa que nos tirasse dali. E em nossos sonhos estavam motos, carroças, paus-de-arara ou bicicletas. Celular, rádio, walkie talkie, pombo correio, sinal de fumaça… nada funcionava. Estávamos presos a um Triângulo das Bermudas. Até o eco de nossos gritos era respondido com um “NÃO TEM NINGUÉMMMMM”.

Voltei para dentro do ônibus tentando me acalmar e abri um livro. Um moleque de uns treze anos abriu a porta do sanitário e falou alto para um senhor que se aproximava: “pai, a descarga não funciona?”, “Luiz, você fez cocô?”… Mentalizei profundo e disse: “puta que o pariu”. Saímos todos do coletivo infestado por uma fragrância de urubu em decomposição.

Sentíamo-nos andarilhos num deserto de asfalto, terra e poeira. Quando num misto de realidade e miragem, um ônibus da Itapemirim surgia no horizonte. Desceram dois mecânicos e um motorista. Uma habilidade tão grande para detectar o problema que só me leva a crer que aquilo seja mais frequente que as linhas que eles disponibilizam.

- A gente vai trocar de ônibus, moço?
- Nem adianta. Esse aqui não vai caber na rodoviária de Mimoso.

Seguimos viagem ao som de resoluções de Ano Novo, que incluíam escolher melhor as empresas com qual viajávamos, promessas de banho de sal grosso, orações a São Cristóvão e outros ruídos indecifráveis. Em Cachoeiro, muito próximo da estação, um gordinho simpático foi até minha poltrona e perguntou.

- Moço, você sabe se tem alguém no banheiro?
- Não sei. Acho que não.

E vomitou. Todo refrigerante e a coxinha que o faziam ter esse formato arredondado.

Quando vi uma garrafa de guaraná Dolly rolando até bater em meus pés, não me restava a menor dúvida: era a assinatura que faltava para este belo relato.

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E Marataízes? Peguei um sol de rachar por três horas e até hoje estou descascando. O resto do fim de semana foi de chuva. Água que não caía por lá havia cinco anos.

Nunca mais voltarei pra buscar 2011. Se quiser que venha sozinho, e de Viação Itapemirim!


Microcrônicas

Estive recentemente com Pesquisa, renomada analisadora de problemas comezinhos de nosso cotidiano. Alertou-me sobre os perigos de tentar levar uma vida extramente saudável: “Pode dar câncer” e o esmalte vermelho em mulheres de meia idade: “Mais propensas a um relacionamento sério”, diz Pesquisa.

Pesquisa abordou também alguns problemas urbanos interessantes como as bitucas de cigarro. A quantidade delas despejadas anualmente no chão de nossas metrópoles daria para alimentar a África inteira por 5 anos. Se o pessoal de lá comesse bitucas, evidentemente.

Alheio à nossa conversa didática estava Estudo, seu marido, que do outro lado da varanda contemplava um céu enegrecido.

Ergueu a mão e firmou o indicador para o grande cinza: “Vai chover”, apontou Estudo.

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As discussões não levam a nada porque não foram suficientes para render um soco. As agressividades das suas palavras é que direcionam meu punho contra a vossa face.

Chega de violência gratuita. Vamos capitalizar!

Uma pesquisa da Middlesex University, de Londres, revelou que 85% dos turistas brasileiros se preocupam com a violência no Rio de Janeiro. Os estrangeiros se preocupam menos: 61%.

O que me preocupa no Rio não é sair na rua. É conseguir voltar dela.

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Não existe uma prova classificatória para casamentos e a procriação de filhos. Embora houvesse, estaria sob a sentinela de um apêndice governamental como o MEC, que o subjugaria ao anencéfalo ENEM.

Qualquer babaca com alvará pode vir a ser um progenitor de sucesso e transmitir seus genes iluminados a uma pobre criança. Afinal, a cabeça que pensa não participa do processo.

Ninguém pede para nascer. Mas clama aos céus para ser chamado de idiota.

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O novo Ministério das Irregularidades cumpre bem o seu papel ao escolher especialista em propina para a Secretaria de Escândalos. O Gabinete da Subtração e Prejuízo ao Tesouro já deu seu parecer favorável à contratação de aviltadores de carreira.

O subsecretário da Agência Regulamentadora de Fomento à Fraudes foi enfático em seu desacordo de eliminar o Plano Nacional de Usurpação do Erário da pauta da Câmara.

José Sarney vê um Brasil mais claro, democrático e torpe com essas medidas.

Isso e aquilo outro você encontra mais na Fan-Page Tio Dino.


Um oferecimento

com Claudecir Pire.


O filho perfeito

Meu filho terá todas as benesses: receber a luz e ser amamentado. Depois disso, quero que se vire. Não no sentido trocadilhesco da frase, mas no sentido da vida: sempre para frente.

Será guiado, em seus primeiros anos, por quem o queira em bons caminhos. Terá, neste tempo, o que sempre quis: alguém que o proteja. Receberá os brinquedos que valham a pena e espero que faça tantos amigos quanto aplicativos que baixar para seu iPhone.

Quando adolescente, quero que descubra o mundo, mas não pelo Google. Ele precisará muito mais de realidade que Internet. Pelo menos para atravessar a rua.

Quero que use o Twitter de forma saudável, preferindo levar mais a sério estudos, trabalho e as contas, que um mero tweet de piada. Se resolver fazer um blog, que o faça bem e que ganhe o prestígio e o retorno por méritos, não por um projeto atrelado a alguma mamata governamental.

Embora eu prefira Kiss, poderá curtir a banda maquiada e colorida que quiser. Contando que saiba o que é o Amazonas. E que existe, sim, civilização por lá.

Sua adolescência será tradicional. Descobrirá putas e encobrirá outras. Jurará amor eterno. Realizará algumas cagadas, irá se f*der, mas, espero, sempre com camisinha.

Saberá a hora de começar um porre da mesma forma que saberá como parar. E esperamos que a cada viagem dessa, volte.

Quando for para a faculdade, quero que seja maduro, mas não tanto. A sociedade e as diretrizes os querem responsáveis e esperançosos em uma profissão aos 18. Deveriam deixá-los ao menos enlouquecer sem remorso durante uma festa de tetas e vistosas bucetas bunda a fora.
Ao se formar, o quero íntegro. Não mala. Se tem uma coisa de que não precisamos é de malas, muito menos sem bagagem.

Não o quero em cima do muro para qualquer assunto. O mundo precisa de pacificadores, mas não precisa de bundões. Estes, as revistas especializadas já cuidam.

Se escolher ser solteiro, que sua escolha o sustente. Se escolher ser casado, que sua escolha sustente a todos. Na idade adulta, só o que peço dele é consideração. São dessas coisas que velhos gostam. Aliás, são coisas como essas que fazem velhos descansar em paz. Muito mais que uma aposentadoria.

Enquanto isso não acontece com ele, vou tentando comigo.


O que espero do Rock in Rio

Primeiro, que “Rock” no nome pudesse fazer sentido. A cada evento, a palavra ficar mais parecida com uma faixa de pedestre: meramente ilustrativa e não muito respeitada.

Sou um fervoroso defensor de que, se uma coisa tem nome, ela precisa ter uma conexão com esse nome. Num exemplo equivocado, é o mesmo que você ir ao Crepe do Gilson e só ter coxinha.

Faço parte de uma geração que via a imagem do roqueiro carregada de significado. As roupas rasgadas, os cabelos ruins, tatuagens mal feitas e hits grudentos. O que vemos nos palcos de hoje são modelos de São Paulo Fashion Week depois da enchente. Gritando pelo resgate.

O Rock in Rio é mais ou menos isso. Enquanto você espera pelo crepe, eles vão te empurrando um monte de coxinha. Sem recheio algum.

Eu lia e ouvia falar dos pedidos em cada camarim e sempre imaginei como seria comigo. Como seriam os meus pedidos.

Bem, eu quero:

Paula Fernandes e Joss Stone, de lingerie.

Um Pterodáctilo, só pra depois de embriagado tentar falar o nome dele.

Discos do Justin Bieber, Luan Santana, Restart, uma caixa de fósforos e álcool.

Um saleiro que não fique entupido.

100 toalhas brancas com “SUA LINDA” bordadas para entregar às fãs.

Embalagens em que o “rasgue aqui” funcione.

Muita comida light e cerveja sem álcool, que é pra jogar fora e falar “vamo parar com essa putaria”.

Um Pogobol, mulheres de patins, um Pense-Bem, o Sérgio Mallandro e… opa, isso está parecendo o Prêmio Multishow.

A paz mundial.

***

Por enquanto é isso. O que espero do show da vida é mais retorno e menos microfonia.


Novas teorias

Há pouco mais de um mês no Rio de Janeiro, deparei-me com uma situação corriqueira já observada em outras grandes cidades – mas potencializada pela observação mais contundente. São os labradores obesos de apartamento. Um problema endêmico que merece atenção.

Por outro lado, verifiquei também um outro fenômeno – decorrente dos possíveis ou não, donos desses animais.

Depois do falso magro e do falso gordo, agora há um terceiro termo a ser incorporado nos estudos de comportamento: o falso saudável. Ele corre, faz exercícios, come saladinha e no final do dia enche a cara de cerveja a bordo de um fabuloso sanduíche recheado de infarto.

Falso saudável. Taí. Há muito tempo eu queria inventar uma desculpa embasada para mim mesmo.

5 Dicas Para se Tornar Um Falso Saudável

1 – Tenha frutas em casa. O suficiente para esconder o pedaço de bacon a ser utilizado depois da partida das visitas.

2 – Correr na praia e no parque é um sinal de uma pessoa preocupada com seu bem-estar. Faça isso levando em conta um local com um número representativo de pessoas. Afinal, ser saudável apenas para si mesmo não tá com nada, as outras pessoas precisam ver seu esforço. Use camisa cinza. O suor aparece mais.

3 – Academia é o templo do corpo e o altar dos órgãos genitais. Matricule-se e frequente horários de pico da mulherada. Quando convidar alguma pra sair, lembre-se sempre de começar com “que tal bebermos um suco de tomate com fibras e compostos orgânicos, hein?”. Aí depois você pode meter uma dose de vodca sem ela perceber.

4 – Pedalar com uma criança (mesmo emprestada, ex: sobrinho) é um ótimo canalizador de boas vibrações. Mostra que você é preocupado com a saúde e a fim de constituir família. Vá ao bar só depois de entregar a criança em mãos responsáveis.

5 – Se você tiver grana, a escolha de esportes pouco praticados e de elite, como squash, pólo aquático e rúgbi darão um ar de aristocracia patife ao seu “falso-saudável” jeito de ser. Sempre depois rolam picanhas suculentas e uísques com idade para serem pais das filhas de seus amigos. Se não tiver dinheiro, uma boa alternativa é o futevôlei, que, além de acessível, é praticado por subcelebridades e artistas de diferentes naipes. Além de você parecer preocupado com a forma, também parecerá preocupado com a roda social em que vive.


Steve Jobs e o pecado capital

Para quem estava acessando a internet de um PC e só conseguiu ler a notícia agora, Steve Jobs anunciou a sua saída do comando da Apple. E, não duvido, logo, logo do mundo. Uma decisão até esperada, levando em conta seu quadro de saúde cada vez mais impreciso e delicado. Jobs está, por assim dizer, só a capa do iPhone.

Alguns livros babam na maçã do criador da marca mais significativa da área tecnológica. Frisam sua habilidade na transformação de pedra em papel, de projeto maníaco em ícone de uma geração. Há também relatos pouco afáveis da sua pouca paciência com subordinados, truculência com decisões e alguns casos estranhos de espionagem industrial, com indícios de subtração de patente.

Uma coisa, em especial, me faz admirar Jobs e não é a capacidade de se parecer cada dia mais fino que seus produtos. É a de acreditar em ideias.

Foi uma dessas apostas que levantaram a Apple depois de cair não tão madura assim. E foi também um desses anseios visionários que criaram uma das mais fabulosas empresas de sonhos que os olhos tiveram a chance de admirar, a Pixar. O investimento em talento deu vida a uma ideia que poderia morrer na burocracia do tempo e do medo.

Não tenho nenhum produto Apple, nem morro de amores por eles. Mas gosto de quem acredita em talentos. Mesmo ainda que seja um escroto, mal-amado, sacana. No mundo dos negócios, quanto menos amigos, mais chances de negociações serem lucrativas.

Se bem que esta falta de amigos pode ser um problema se um dia você precisar, sei lá, de um transplante de fígado. Não é mesmo?