À distância
Mendigos são ruins com higiene, mas muito perspicazes com as palavras. Principalmente quando pensam fora da caixa. Topei com um desses. Tradicional na sua pouca preocupação com as roupas. Uma barba enorme que escondia uma face abandonada, muitas vezes, por vontade própria. Rugas que eram rachaduras em pleno sertão da alma.
Ele me falou sobre amor sem sequer eu ter perguntado qualquer coisa: “de todas as drogas que já experimentei, amar é a mais fodida. Se for pra morrer drogado, que não seja de amor. Que seja de crack, cocaína… É muito mais barato”. Concordei, querendo entender naquela esfinge a origem do enigma. O devoro do seu decifra-me, me era claro: eu estava diante de um faminto. Naquele instante, de fome.
Saí ao valor de uma moeda e torcendo para não me oferecer camisa do Che Guevara, anel de coco ou CD de alguma banda bonita da cidade. Fiquei pensando no assunto, de uma forma mais incisiva do que eu fazia costumeiramente.
Amor à distância dá mais certo com porcos-espinhos e girafas. Já o platônico, funciona. De alguma forma absurda, disparatada, mas funciona. Ele torna pessoas indecifráveis a olho nu em seres perfeitos. Inatingíveis, mas palpáveis. Um ser completo. Alguém que valha pensar na hora da punheta.
A paixão tem uma coisa diferente dos outros sentimentos: ela não tem origem nem destino certos. O que a torna lógica é não ter qualquer compromisso com o óbvio, com a exatidão. Um eterno exercício em que, quando você acha que encontrou uma ligeira resposta, a própria pergunta já se encarrega de lhe dar o próximo corno.
Estive pensando nessas coisas há um tempo, quando lá, me apaixonei pela caixa do supermercado. Ela parecia estar no mesmo filme todos os dias da minha vida, no mesmo take, tomada e edições. Perfeita.
Seu crachá foi quem me apresentou a ela. Desde então conversamos sem ela imaginar. Comento do dia sem ela saber. Volto ao supermercado sem ela notar.
Ah, descobri que estou apaixonado também pela Paula Fernandes, a voz mais linda e feminina que já ouvi, eliminando qualquer boato de que ela seria um suposto filho não reconhecido da Roberta Miranda.
Já que tanto ela quanto a caixa do supermercado não fazem ideia de que as amo, acho que também não encontrarão razão para ficarem bravas.
É pra isso que serve o amor platônico. Pode não ter retorno, mas a gente ama sem medo.













