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O Mundo segundo Tio Dino

por Tio Dino

"Fiz sexo com a ironia e nasceu isso. Dei descarga nos valores, abracei o cinismo e tenho aquilo que toda mulher procura: sarna pra se coçar."



A internet tinha tudo pra dar certo

*No princípio, em Boelter Hall, na Universidade da Califórnia, Los Angeles, criou Deus a Internet. E a Internet era inabitável, incógnita e vazia; havia trevas e uma tela verde frente à face de um óculos fundo-de-garrafa. Os espíritos de um novo ambiente de comunicação se moviam ao largo dos circuitos integrados.

E disse Deus: haja transferência; e houve transferência. E viu Deus que era boa a transferência; e fez a separação entre o que era Off-line e o que era On-line.

Chamou à transferência de Rede Mundial de Computadores; e às trevas, Conexão Inválida. E ficou no primeiro dia 24 horas conectado. Jogando Counter Strike possivelmente com o capeta.

E disse Deus: haja expansão desse serviço! E que haja a separação entre rede interna e rede externa. E fez-se a expansão, a separação e a aglutinação de arquivos em um espaço fora dali. Chamou a essa expansão nuvem de tags, e assim foi, com a conexão indo e vindo, o quarto dia. Isso porque no terceiro o técnico de informática não fora encontrado, e quando apareceu, mandou formatar.

Disse então Deus: agora vai. E criou os ambientes para as trocas de arquivo, para a produção de conteúdo, postagem de fotos, compartilhamento de vídeos e, principalmente, a disseminação da nova linguística feita a quatro patas: a internética.

Disse Deus: bom, agora façamos o usuário à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os textos de literatura, de ciência, sociedade civil, lógica e sobre todo o político que se move e rasteja sobre a terra.

E criou o usuário à sua imagem. Homem e mulher, tão idênticos em sabedoria e tolice, que só se preocupou em deixar um campo para a informação do sexo na hora do cadastro.

Os abençoou, e disse-lhes: criai e modificai todo o conteúdo da Internet a sua maneira. Eis que vos tenho dado Blog, Youtube, Orkut, Facebook, Foursquare, Twitter e o caralho a quatro. Que isto lhes sirva para alimentar o ego, a amizade, a interação, bons links e, se pá, a boa comunicação.

E Deus sentenciou: todos aproveita. Foi aí que fodeu tudo.

Os comentaristas de blog foram os primeiros desvios da criação. Confundiram sistematicamente democracia com liberdade para chamar o autor de filho de puta. Tudo em um dialeto muito próximo ao aramaico free style. O “first” foi, por assim dizer, a legítima primeira praga.

A ironia perdeu a batalha no Paraíso. E travestido do mal, surgiu o Troll. A serpente que habita o mundo cibernético e que tem às mãos a maçã que não necessariamente é um Apple. Encontrou no meio virtual a base perfeita para a zoeira, a provocação e ver o Reino dos Céus pegar fogo.

Disseminado o mal da linguagem, o Orkut trouxe a dúvida e o pecado. Os verões nunca mais foram os mesmos com aqueles álbuns salientes da prima Verônica e seu vestido tomara-que-me-coma.

Sábio de sua derrota, Deus compilou todos os erros possíveis da Criação nesta rede social.

A linguagem se diversificou e uma nova raça surgiu: os Orks, recheados de Kkks e tudo o que um cérebro avesso à escrita comporta. Sua comunicação rudimentar consistia basicamente em adivinhar frases. Analfabetos que juntam letras criaram o coraçãozinho com a mão, a frase com até cinco sentidos e a falta de senso de ridículo sobre uma laje. E, não bastasse, compartilharam parte disso no Youtube. Quando abriram os comentários houve dor e ranger de teclados.

O Facebook, como uma tentativa de gambiarra divina, tentou impor alguma lógica à criação, trazendo aos limiares uma nova raça: a descolada. O mesmo mal começou a assolar esse espaço. Foram-se as os coraçõezinhos feitos com as mãos, vieram mochileiros com fotos em que seguram a Torre de Pisa. Foram-se os “naums” e os “corrãos”, ficaram os convites para jogar CityVille.

O troco de Satanás veio em 140 caracteres. O Twitter.

A velocidade do pensamento tal qual uma ejaculação precoce. Deus entrou em desespero e começou a dar os primeiros blocks.

O pensamento mais curto que a própria frase. A tentativa desesperada de criar o próximo meme, como se as interações humanas só fossem na base do código. A decepção se abateu no divino. O unfollow do Criador foi anunciado. E as criaturas bradaram com o discurso chulo já pronto:

Dar unfollow e a bunda é coisa que não se anuncia.

E no vale das sombras dos que tem menos de mil seguidores ouviram-se lamentos e formas esquisitas de risadas. Feitas por quem batem com a cabeça no teclado ao menor sinal de interpretação de texto.

Disse-lhes o Senhor: pode formatar. O técnico, até o fim dos tempos, deve aparecer. Fica, vai ter Juízo Final.


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*este texto foi originalmente produzido para o painel Yo Hablo Internetz, que rolou no último glorioso youPIX Festival.


Dissecando frases de internet

A Internet diminuiu as distâncias e aumentou significativamente as intrigas. O ambiente virtual é uma poderosa arma para esse tipo de estreitamento, como também é um celeiro de novos talentos com arquivos generosos de citações da Clarice Lispector.

Também há as “bios” de diferentes redes sociais, que trazem à tona tudo o que há de mais ou menos na literatura atual. Já estava mais do que na hora de dissecar alguns desses desaforos:

“A sua inveja é o RT do meu sucesso”

Típica frase de para-choque de caminhão perfeitamente adaptada ao formato 2.0. Fora do virtual, é muito utilizada como adesivo em Chevettes e Saveiros rebaixados com símbolo do Inmetro (um estilo “passou na vistoria”). E também como símbolo de reafirmação social.

“Em busca de novos desafios”

Desempregado.

“Sozinha sim, solteira nunca”.

Debruçada sobre as fotos digitalizadas do último passeio na cachoeira do interior do Mato Grosso, a solteira da Internet chora e relembra até os trocadilhos que o amado fazia sobre ela nua e o nome “mato grosso”. Seu desespero para encontrar alguém é tão grande quanto o tempo que ela gasta apertando F5 para ver se ele mandou algum e-mail de arrependimento.

“Fulano (a), amor eterno”.

Pautado pela razão e avesso a qualquer miséria de sensibilidade, dá para dizer sem pestanejar: amor eterno só existe em subnick de MSN.

“Falar de mim é fácil, difícil é ser eu”.

Dificuldades para compor um pensamento, elaborar uma frase e redigir um texto? Nem quero imaginar o quanto.

“Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”.

Esse aforismo é utilizado por casais que tiveram alguma rusga, indícios de corno ou, pela 99ª, algum deles vai dar mais uma chance para o outro largar da cachaça.

“Você me faz tão bem”.

Uma das razões para esta frase estar na “bio” de alguém: enquanto o ex se remói pensando que ele (a) já reencontrou um novo amor, sossegue: essa homenagem é ao Rivotril.