Tivesse criado apenas carros para a Ferrari, o italiano Sergio Pininfarina, que morreu no começo de julho, aos 85 anos, já poderia ser considerado um gênio. Ele começou a trabalhar no Studio Pininfarina, em Cambiano, nos arredores de Turim, em 1950, logo depois de se formar em engenharia. Dezesseis anos mais tarde, com a morte do pai, Sergio se tornou o comandante em chefe da empresa e a transformou no mais badalado estúdio de desenvolvimento de carros do planeta.

Passaram pelo seu crivo todos os automóveis de série de Maranello, das F40, F50 e Enzo aos clássicos Testarossa e 365GTB4 “Daytona”, e também novidades como a FF, a primeira Ferrari com quatro portas. Foi Sergio quem convenceu o comendador Enzo Ferrari a fazer o primeiro automóvel com motor central, a Ferrari Dino 206 GT, em 1966. Em fevereiro deste ano, ainda na ativa, ele coordenou a construção da F12berlinetta, feita de alumínio, com motor V12 e 740 cavalos. É de longe a mais extrema entre todas as máquinas de série de Maranello: acelera de 0 a 100 quilômetros por hora em 3,1 segundos e chega a 340 quilômetros por hora de velocidade.

Só que, além das Ferrari, Sergio Pininfarina levou seu estilo para muitas outras marcas. Criou máquinas espetaculares como a Giulietta Spider e a Duetto para a Alfa Romeo; fez a exuberante Maserati Quattroporte (a qual possibilitou o renascimento da marca italiana, em 2003), o elegante Fiat 124 Sport Spider e a revolucionária Lancia Beta. Ele produziu ainda modelos para as japonesas Honda e Mitsubishi, a sueca Volvo, a francesa Peugeot e a coreana Daewoo, entre outras.

Mais do que traços elegantes, a grande sacada de Sergio foi apostar na tecnologia. Foi um dos primeiros a usar computadores para o design (uma revolução em 1967) e túneis de vento para aperfeiçoar a aerodinâmica (o primeiro foi inaugurado em 1972).

Sergio Pininfarina mudou a história dos automóveis e fará muita falta em um mundo em que eles passarão por enorme transformação. Um de seus últimos trabalhos foi o veículo elétrico Blue Car, que indica caminhos para o futuro da mobilidade. “O bom design não é um privilégio de máquinas esportivas e caras. Precisa ser democratizado para todos os carros”, contou-me Pininfarina na última vez em que o entrevistei, no Salão de Genebra deste ano.

 FERRARI ENZO, 2002

Pininfarina já havia desenhado supemáquinas para a Ferrari, como a F40 (478 cavalos, de  1987) e a F50 (520 cavalos, de  1995), quando recebeu a missão de fazer a mais avançada máquina do começo dos anos 2000. A resposta foi um carro com formas esculpidas em fibra de carbono, com motor V12 de 650 cavalos, capaz de levá-la a uma velocidade máxima de 350 quilômetros por hora, mas ao mesmo tempo fácil de dirigir com a troca de marchas feita com a ajuda de borboletas no volante e com a direção hidráulica. Apenas 400 unidades foram produzidas. Custavam 660 000 dólares. Em bom estado, uma Enzo é cotada pelo dobro do preço.

FERRARI DINO 246 GT, 1969

Homenageando Alfredo “Dino”, o filho de Enzo Ferrari, o 246 rompeu com a tradição dos V12 ao oferecer um motor V6, desenvolvido para a Fórmula 2. Foi considerado tão revolucionário para Maranello que nem ostenta o cavallino rampante. Pininfarina criou suas linhas baseado no protótipo Dino Competizione. Com carroceria de aço e partes de poliéster, traz dois capôs na traseira, um para o motor e outro que serve como porta-malas.

FERRARI F12BERLINETA, 2012

Em Maranello, onde fica a linha de montagem das Ferrari, costuma-se dizer que a mais perfeita delas é sempre a última. No caso do cupê F12berlinetta, apresentado neste ano durante o Salão de Genebra, qualquer elogio não é exagero. Ele tem 740 cavalos, é capaz de arrancar de 0 a 100 quilômetros por hora em 3,1 segundos e cravar 340 quilômetros por horade velocidade máxima. Oferece emoções extremas e muita tecnologia, com chassi feito com 12 tipos de liga leve de alumínio. Para arrematar, a imensa grade frontal e as linhas insinuantes, esculpidas por horas no túnel de vento, dão estilo de sobra a este carro.

FERRARI TESTAROSSA, 1984

Com suas linhas retas e suas enormes entradas de ar laterais para ajudar a refrigerar o motor 12 cilindros,  a Testarossa é um dos ícones máximos entre as Ferrari. Apresentada no Teatro Lido de Paris, sua carroceria era construída pela Pininfarina na linha de montagem de Griugliasco. O nome vem da tradição ferrarista de pintar de vermelho os cabeçotes do  motor (testarrossa quer dizer, literalmente, “cabeça vermelha” em italiano). O desta fera tinha 12 cilindros e 390 cavalos. Sua velocidade máxima era de 290 quilômetros por hora.

 

OUTRAS OBRAS-PRIMAS

Além das Ferrari, Pininfarina deixou sua marca em carros elétricos, esportivos e belos protótipos

MASERATI QUATTROPORTE, 2003

A Maserati precisava de um carro elegante, mas de linhas esportivas, para recuperar sua imagem. A resposta veio com o projeto assinado pela Pininfarina. Batizado como Quattroporte, o sedã foi um sucesso e vendeu 15 mil unidades. Coube ao estúdio italiano reestilizar discretamente suas linhas, com 393 cavalos na versão de base, e 424 cavalos na S.

MITSUBISHI PININ, 1997

No final dos anos 1990, a Mitsubishi decidiu contruir um utilitário esportivo para conquistar o mercado europeu: em vez de criá-lo no Japão, decidiu contratar a Pininfarina. Desenhado nas versões 1.8 e 2.0, ambas com 16 válvulas, o carro foi tão bem concebido que resistiu ao tempo. No Brasil, ele é conhecido como TR4.

BLUE CAR, 2011

Duas décadas depois de fazer um protótipo movido a baterias para a Fiat, Sergio emplacou um dos primeiros automóveis elétricos da atual safra. O Blue Car é um compacto com 3,65 metros de comprimento, equipado com uma base de íon de lítio sólido e autonomia de 250 quilômetros.

ALFA GIULIA SPIDER, 1966

O conversível, com seus faróis bem redondos, seu capô alongado e suas linhas elegantes, tornou-se um clássico. Rodava com quatro motores de 104 a 132 cavalos. Em 2010, o mestre  propôs uma atualização no protótipo 2uettottanta, com estilo moderno, faróis de LED e 232 cavalos.

LANCIA BETA MONTECARLO TURBO, 1975

Com seu longo capô e sua traseira truncada, o carro foi construído sob encomenda para a italiana Lancia. Lançado em 1975, o Beta fez um enorme sucesso no mundo dos ralis. Com 122 cavalos na versão de série, o carro já impressionava. Com três vezes mais potência no motor, na versão para corrida tornou-se bicampeão mundial em provas de resistência no começo dos anos 1980.

O PROTÓTIPO: CITROEN OSÉE, 2001


Pininfarina coordenou a produção de protótipos exuberantes, como o Osée, revelado em 2001. Era um esportivo com portas em estilo asa de gaivota, equipado com motor V6 de 194 cavalos e com linhas inspiradas em um ícone francês, o Matra Bagheera. O Osée foi eleito um dos mais belos carros-conceito daquele ano. Mas, como sua fabricação era considerada complexa demais, nunca foi produzido em série.

Osée: eleito o mais belo carro-conceito de 2001. Abaixo, os sketches do designer para o interior

Matéria publicada na Revista PLAYBOY de agosto de 2012.