Corra, McFly, corra!
Na estreia do GT Classics, prova que reúne verdadeiras relíquias do automobilismo mundial, pilotamos um legítimo DeLorean 1981 no autódromo de Interlagos

Interlagos, final da tarde de sábado. Na pista, as Mercedes Benz C 250 CGI ainda aceleram nas últimas voltas da primeira prova do Mercedes-Benz Grand Challenge. A disputa integra o fim de semana dedicado ao automobilismo de luxo que continuaria no domingo com mais uma etapa do Itaipava GT Brasil, campeonato que reúne superesportivos de alto desempenho como Ferrari F485, Lamborghini Gallardo, Corvette Z06R, Aston Martin Vantage, Audi R8 LMS, Ginetta G50 e Ford GT. Para quem gosta de velocidade, é uma tentação. Mas não estou aqui para falar dessas máquinas. Não agora. Meu objetivo é outro: conhecer os carros clássicos que pela primeira vez irão participar do GT Classics, uma prova aberta a colecionadores que proporciona a gente comum colocar sua estimada relíquia (desde que fabricada antes de 1986) para comer o sagrado asfalto do autódromo paulistano.
Longe dos multicoloridos boxes das equipes de grife e do vaivém de garotas de longas pernas, grandes seios e cabelos esvoaçantes, uma solitária tenda indica o estacionamento que abriga os “clássicos”. Ali, umas duas dezenas de aficionados ouvem atentamente o briefing da organização. Esses “pilotos” desembolsaram R$ 450 (com direto a uma credencial para o camarote VIP para todo o final de semana) ou R$ 550 (com duas credenciais) pelo direito de colocar o seu carro na pista. Como há veículos de marcas e anos de fabricação muito distintos, a corrida é de regularidade. Assim, antes da prova, cada participante deverá escolher pelo seu tempo de volta – entre 2min30s e 3min. Serão válidos dois terços das voltas cumpridas pelo participante (mínimo de 6 voltas). Para cada segundo atrasado ou adiantado em relação ao tempo escolhido, o piloto será penalizado com 1 ponto. O vencedor será que menos acumular pontos durante a prova, considerando a média de pontos perdidos das voltas válidas para classificação.
No início, acho o regulamento meio sem graça, mas quando observo com calma os 25 veículos alinhados, entendo perfeitamente as regras. Estamos numa verdadeira galeria a céu aberto. Em perfeito estado de conversação e brilhando graças ao carinho que só um homem é capaz de dedicar à sua amada, emparelham-se um Mustang Bullitt Fastback 1967 (o mesmo utilizado pelo ator Steve McQueen no filme Bullitt), uma a Ferrari 308 GTS (aquela pilotada por Tom Selleck em Magnum), um Chevrolet Corvette Stingray 1975, um Ford Hot Rod 1933, um Chevrolet Impala 1967, um Dodge Charger 1972, um Dodge Dart 1970, um Ford Ranchero GT 1971, um Detomaso Pantera 1972, três Ford Mustang (1965, 1966 e 1967), um Porsche 911 1969, um Lamborghini Urraco 1973, um Ford GT40 1965, um Chevrolet Camaro 1968… Enfim, apenas carros possantes, originais e, o melhor, em perfeitas condições de entrar na pista. Mas, dentre todos esses ícones do automobilismo mundial, apenas um fez meu coração disparar: um legítimo DeLorean DMC-12 1981. Isso mesmo, você leu corretamente. Na minha frente estava um carro igualzinho ao usado pelo jovem Marty McFly (Michael J. Fox) e pelo amalucado Doutor Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd) para viajar no tempo em De Volta para o Futuro. Wow!
À convite da organização, posso escolher dentre três veículos para dar seis voltas na pista. Decidido, dispenso os 400 cavalos do Detomaso Pantera e rejeito o motorzão V8 do Mustang 67. Só tenho olhos para o DeLorean e suas portas que se abrem como asas de gaivota. “Ok, se é isso que você quer, tudo bem…”, me diz um dos organizadores. Noto um certo desapontamento na sua voz, mas não arredo o pé. Ferrari, Corvette, Mustang, Porsche, enfim, esses qualquer um pode dirigir. Já um DeLorean…. E não é só por conta do filme. A história da marca e do seu criador também me motiva a pilotá-lo. Fundada em 1980 pelo ex-executivo da GM John DeLorean (1925-2002), a DeLorean Motor Company produziu seus carros utilizando aço inox e um design arrojado para a época na Irlanda do Norte entre 1981 e 1982. Sem conseguir atender à demanda e com os sócios em debandada, a empresa logo entrou em crise. À beira da falência, DeLorean passou a traficar cocaína da Colômbia para salvar a companhia. Descoberto pelo FBI, acabou preso, levando a montadora a fechar as portas em 1983. É ou não uma excelente história?
Mas voltemos a Interlagos. Com o capacete na mão, aciono a maçaneta e observo a porta subir lenta e silenciosamente. E então tenho minha primeira surpresa. Obrigado pela segurança a usar o capacete, mal consigo me acomodar no banco. Quando baixo a porta, o teto esmaga a minha cabeça. Depois de duas tentativas frustradas, percebo que a solução é reclinar o banco ao máximo. Isso feito, a porta fecha, mas fico quase na horizontal. Ainda que mal enxergue o retrovisor, não reclamo. Afinal, McFly não reclamou. Ao acionar a ignição _segunda surpresa_ não recebo aquela esperada resposta do motor. O rugido é leve, quanse manso se comparado ao intimidador ronco do Mustang 67ao lado. Ignoro. Vou em frente, solto o freio de mão _que fica no lado esquerdo do motorista_ e engato a primeira. Avanço uns poucos metros e percebo que não terei espaço suficiente para virar à direita e alcançar a saída do estacionamento. Tento engatar a marcha-à-ré e nada. Outra vez, e mais uma e nada acontece. O carro só avança. Pior, não tem ninguém por perto que saiba onde fica a ré! A solução para tirar o DeLorean dali quase me mata de vergonha e me faz desistir: quatro pessoas gentilmente se oferecem para empurrar até que eu consiga alinhar o veículo e finalmente deixar o estacionamento. Como se vê, comecei bem…
Na pista, entretanto, o papo é outro. Enquanto o Porsche, o Pantera, o Corvette e o Mustang me deixam comento poeira, conduzo o DeLorean na ponta dos dedos. É a nossa primeira vez e precisamos nos conhecer melhor antes de irmos aos finalmentes. A primeira sensação é que o carro é pesado (1 230 kg), um pouco duro de pilotar, mas extremamente estável nas curvas. Nas duas primeiras voltas, evito pisar muito. Na terceira, começo a acelerar mais e mais nas retas. Meu objetivo, se você viu os filmes, já sabe: é cravar 88 mph (141 km/h) e viajar no tempo, por que não? Determinado, perco o medo e afundo o pé no retão. Em vão. Os 140 cavalos do motor DMC 2.8 V6 conseguem empurrar o ponteiro do velocímetro a no máximo a 70 mph (112 km/h). Insisto até a sexta e última volta, mas dali ele não passa. Paciência. No fim, fico longe dos 215 km/h alcançados pelo Chevrolet Corvette Stingray 1975 e mais ainda dos 270 km/h cravados por um Ford GT e um Dodge Viper no GT Brasil.

Ao final da sexta volta, volto calmamente ao estacionamento esticando ao máximo aquele momento ao volante do DeLorean. Quando chego à minha vaga, paro (de frente, claro) e me embanano um pouco na hora de sair, chegando a bater a cabeça no teto. No entanto, não consigo conter a animação. A sensação é ótima. Posso não ter quebrado a barreira do tempo de Doc Brown, mas me diverti muito. O sentimento, percebo, é compartilhado por todos ao redor. Ninguém aprece estar ali unicamente para vencer. O objetivo é outro: esbaldar-se com seu carro do coração numa pista profissional.
No domingo, com o autódromo quase lotado, a prova foi para valer. Pilotando um Alfa Romeo TI4 1985, Rodrigo Daprá sagrou-se campeão, seguido de Carlos Otávio de Souza com seu Ford 1932 (isso mesmo!) e Eric Freitas a bordo de um Porsche 911 Targa 1974. E o DeLorean? Bem, infelizmente nosso carro favorito não completou a corrida oficial. Talvez desgastado pelo esforço ao qual foi submetido no dia anterior ou, mais provável, ciente de sua aura mística, optou por retirar-se discretamente, mantendo intacto o título de verdadeira e única “máquina no tempo”.
*O jornalista Luiz Rivoiro participou dos testes do GT Classics a convite da San Diego Motorsports, organizadora do evento.
**A próxima edição do GT Classics está marcada para os dias 17 e 18 de dezembro no mesmo autódromo de Interlagos, em São Paulo (SP), durante a última etapa da temporada 2011 do Itaipava GT Brasil. Mais informações em www.sdmotorsports.com.br









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