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Em La Piel que Habito, novo filme de Pedro Almodóvar apresentado no último Festival de Cannes, você interpreta um sádico cirurgião plástico. Qual é sua relação com médicos do tipo? Algum já o torturou com injeções de Botox?

Não… Minha relação com eles é muito clara. Não tenho nada contra as pessoas que decidem retocar sua imagem, mas não vou fazer isso. Acredito que minha identidade e minha alma estão ligadas ao que vejo pela manhã no espelho. E isso precisa de um amadurecimento natural.

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Você não trabalhava com Almodóvar desde 1990, quando filmaram Ata-me. O que ele lhe disse quando vocês se encontraram no set?
Foi muito bonito. Ele me viu, me deu um beijo, pôs os braços no meu ombro, virou-se para a equipe e disse: “Aqui estamos! De novo!” Eu me lembro do nosso primeiro encontro. Eu tinha 20 e poucos anos e fazia teatro na Espanha. Estava em um bar com uns amigos quando apareceu um cara que eu não conhecia e sentou na nossa mesa. Conversamos, e o achei muito divertido. Quando ele estava saindo, olhou pra mim (eu tinha bigode e cabelos compridos na época) e disse: “Você tem uma cara muito romântica. Deveria fazer filmes”. Quando ele se foi, perguntei quem era aquele sujeito e me responderam: “É Pedro Almodóvar. Fez um filme chamado Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas de Montón, mas provavelmente não vai fazer mais nenhum”. Profetas! [risos]

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Cannes é famosa pelas inúmeras festas que rolam durante o festival. Como saber qual é a certa?
É impossível saber. Às vezes você está na festa mais famosa e chique do festival, mas está mais entediado do que um tronco! Talvez estivesse se divertindo muito mais se tivesse apostado na festinha da esquina. Acho que nas boas festas sempre há um pouco da consciência de que vamos morrer e que por isso temos de nos divertir, dançar e ficar loucos. Mas Cannes, para mim, não se trata mais de festas, mas de uma oportunidade de ver quais diretores estão rompendo com as regras e fazendo coisas boas. Neste ano não tive grandes noitadas, mas comemorei meu aniversário de 15 anos de casamento por lá.

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Por falar em casamento, sua mulher, a atriz Melanie Griffith, não fica com ciúme por você trabalhar com algumas das atrizes mais estonteantes do mundo?
Não, porque ela já foi uma delas! [risos] Ela não é ciumenta porque já foi uma das atrizes mais belas de Hollywood e ainda por cima se casou comigo.

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Depois de atuar no filme Ata-me, o que você prefere: amarrar ou ser amarrado?
[risos] Ah, isso depende da noite!

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Bem, quando Melanie interpretou a Lulu no filme Totalmente Selvagem, ficava fenomenal usando uma peruca Chanel preta e um par de algemas. Você não pede a ela que retome essa personagem em casa?
Ah, sim! São loucuras de momento. Por que não? Somos livres em relação à nossa sexualidade e às vezes fazemos brincadeiras assim. Brincar é preciso!

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Você fotografou mulheres nuas para a exposição Secretos sobre Negro, em cartaz no Rio. Você tem um “método Banderas” para fazê-las tirar a roupa para você?
Quem dera! [risos] Não, porque a mesma coisa que pode levar uma mulher a tirar a roupa para mim pode fazer com que ela me dê um tabefe! [risos] Mas eu gosto muito do corpo feminino, e fotografá-lo foi uma experiência fantástica. A luz em relação à pele nua, as curvas… Tenho de reconhecer que gostei muito.

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Você toparia fotografar um ensaio para a PLAYBOY?
Eu nunca havia pensado nisso antes, mas acho que sim. É uma revista magnífica para a qual já trabalharam alguns dos gênios da fotografia. Não sou um fotógrafo profissional, mas sou um verdadeiro apaixonado pelo tema.

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Além de atuar, dirigir e fotografar, faz alguns anos que você se dedica à produção de vinhos e perfumes. O que é mais difícil conseguir: um bom vinho ou um bom perfume?
São coisas muito diferentes e ambas complicadas. Eu conheço mais os processos do mundo do vinho. Para fazer meus perfumes, converso sobre  conceitos com as pessoas que os fazem, como sensualidade e naturalidade, e eles traduzem essas coisas abstratas em um perfume. Mas o cheiro do vinho também é algo de que eu gosto muito. Mas não usaria uma gotinha de vinho atrás da orelha [risos].

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Seu novo perfume, The Secret, parece atrair as mulheres na mesma medida em que repele os homens. É esse o “segredo”?
Não, não! Na verdade vários homens já vieram me perguntar que perfume eu estava usando. Acho que para um perfume afastar alguém ou tem de cheirar muito mal ou ser usado em excesso. Nada pior do que entrar em um elevador e topar com uma pessoa que tomou banho de perfume.

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Você trabalhou com Woody Allen recentemente em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos. Ele é um cara engraçado?
Ele pode ser. Mas Woody é muito tímido, não é do tipo piadista. É um cara lógico, e dá para perceber que ele fez análise durante muitos anos. Seu humor vem desse pensamento lógico, da ironia, e não das piadas.

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Qual foi a coisa mais louca que uma fã já fez para se aproximar de você?
Uma vez tive um fã perseguidor em Los Angeles que se transformou em algo meio perigoso Eu o encontrava em todos os lugares: ia ao cinema, e na saída ele estava lá; saía para jantar, e ele também estava lá. Fui ficando assustado. Pensava: “Como esse cara sabe aonde eu vou?” Chegou ao ponto em que tive de chamar a polícia para que ele parasse de ir atrás de mim.

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Qual foi seu melhor momento como ator até hoje?
Acho que talvez os seis filmes que fiz com Almodóvar. E o teatro. Para mim meu momento mais feliz como ator nos Estados Unidos não foi em frente a uma câmera, mas nos palcos da Broadway.

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E o pior?
Não vou citar nomes, mas acho que foi um filme em que se investiu muito, não só dinheiro, mas também coração, trabalho e no final… não funcionou.

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Você é amigo de algum crítico de cinema? Ou melhor, você acha possível ser amigo de algum crítico de cinema?
Sim, é possível! Sou amigo de críticos que já me esculacharam! E que me elogiaram quando acharam que eu estava bem. Muitas vezes não estou de acordo com a crítica, mas é isso mesmo, cinema é uma coisa subjetiva. [O diretor americano] Stanley Kubrick, por exemplo, nunca estreou um filme com uma boa crítica! Se você for ver os jornais da época em que ele estreou Barry Lindon [1975], que é um dos meus filmes favoritos, há um texto que começava assim: “É o fim de Stanley Kubrick” [risos].

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Você já cantou e dançou em vários filmes e musicais. Sinceramente, você acha que canta bem?
Não! Eu não sou um profissional. Canto quando há uma função dramática, quando não estou só cantando, e sim interpretando o que estou dizendo. Mas nunca tentei ter uma carreira como cantor – apesar de já terem me oferecido, nunca aceitei.

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Você foi escolhido para interpretar o Zorro e depois, quase na sequência, o Gato de Botas em Shrek. Seria coincidência ou em virtude de sua habilidade com a espada?
[risos] Acho que o Gato de Botas me deu duas coisas: a primeira foi a possibilidade de rir de mim mesmo, inclusive de rir por ter feito alguns personagens como o Zorro. E a segunda foi a possibilidade de fazer um personagem usando só a minha voz. E isso levando em conta que cheguei aos Estados Unidos sem saber falar inglês…

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E qual foi a maior gafe que você cometeu nessa época?
Uma vez me perguntaram em uma entrevista na televisão qual era minha comida favorita e eu respondi: “Francis Ford Coppola e Martin Scorsese” [risos].

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É verdade que, no início de sua carreira, Tom Hanks o aconselhou a nunca perder seu sotaque espanhol quando falasse inglês?
É. Quando trabalhamos juntos em Filadélfia (1993), ele me sugeriu que eu não perdesse o sotaque porque era uma característica minha como ator, assim como ter um nariz largo ou olhos grandes, e as pessoas iriam aceitá-la.

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Você seguiu o conselho à risca. Seria porque as mulheres adoram um sotaque espanhol?
Não sei, eu era um bicho raro ali. O sotaque que se escutava por lá era de mexicanos falando inglês, que é bastante diferente do de espanhóis. Mas, se as mulheres acham sexy, você é que pode me dizer! [risos]