1 Seu nome real é Declan MacManus. Quem o chama assim?

As pessoas da minha família. Mas é um nome só para os mais chegados. Não gosto quando estranhos me chamam assim. Parece que eles estão querendo mostrar que têm intimidade comigo, que sabem alguma coisa secreta a meu respeito. Nem respondo.

 

2 Você volta ao Brasil em abril depois dos shows de 2005, Do que se lembra da primeira vinda? Jogou futebol, tomou caipirinha, foi ao samba?

A primeira vez que fui ao Brasil foi como turista, acho que em 1980. Passamos uma noite no Rio. Ainda fui como convidado da Mingus Jazz Band para um festival que se chamava Free Jazz Festival nos anos 1990. Eu não bebo mais álcool, parei há uns 15 anos, então não experimentei caipirinha, mas sei do que se trata. E lembro de ter caminhado em São Paulo e ido a galerias de arte. Mas sempre temos pouco tempo livre, estamos focados no trabalho.

 3 Eu li que você teria vindo com Diana Krall em uma das ocasiões em que ela se apresentou aqui na condição de marido. É verdade?

As pessoas devem tê-la visto com alguém muito parecido comigo porque infelizmente não pude ir nas vezes em que ela esteve aí. Até acontece de a gente viajar junto, mas é raro.

 

4 Sua mulher é talentosa, bonita e viaja muito. Você tem ciúme?

Não, ciúme nunca teve um papel no nosso amor. É um impulso destrutivo.

 

5 No show em São Paulo em 2005 havia um bando de garotas de 20 e poucos anos hipnotizadas na primeira fila olhando seus sapatos brilhantes. Qual é o segredo para aos 56 anos ter garotas babando na plateia?

[Risos.] Eu não sei. Só posso garantir que não faço nada para que isso aconteça. Só vou lá e canto; não tento hipnotizar ninguém, juro. A sério: acho que elas estavam interessadas na música. Ou são grandes fãs de sapatos [risos].

 

6 Você esteve no Brasil e na Argentina nessa turnê. Onde viu as mulheres mais bonitas?

Essa é uma pergunta bem difícil de responder. E perigosa também, não? Viajei um pouco na vida por causa da música, e há lugares maravilhosos e outros que obviamente não vou l istar aqui onde você só faz o show e vai embora. Não é definitivamente o caso nem do Brasil nem da Argentina.

 

7 Você trabalhou como operador de computadores nos anos 1970 antes de virar músico profissional. Nunca pensou que poderia ter aberto uma empresa e virado um dos homens mais ricos do mundo hoje?

Não havia a menor chance de isso acontecer. O que rolou é que eu percebi muito cedo que as pessoas se impressionam com computadores. Eu não fazia nada no trabalho, passava o dia todo compondo canções. Na época, começo dos anos 1970, ninguém sabia operar aquelas máquinas, e eu era tratado como um mágico por isso. Não tinha interesse naquilo, então não havia como me tornar um Bill Gates. Quando resolveram realmente me ensinar como programar os computadores pedi demissão e virei um popstar.

 

8 E enquanto popstar, no passado, você teve seus momentos estúpidos de destruir quarto de hotel ou exigir centenas de toalhas brancas?

Com certeza já fiz coisas idiotas na vida. Em um momento em que não sabia o que fazer de minha carreira, por exemplo, exigi que contratassem uma orquestra de 80 pessoas para fazer um show. Mas não acho que tenha feito particularmente essas coisas que você listou.

 

9 O fato de rir da própria cara participando de seriados como 30 Rock e Two and a Half Men e desenhos como Os Simpsons também é uma maneira de controlar o ego?

Nunca pensei dessa forma. Participei desses programas porque eles são divertidos. Adoro 30 Rock, dividi a cena com Harry Dean Stanton e Sean Penn em Two and a Half Men e fiquei só um pouco mais amarelo nos Simpsons do que sou na vida real [risos].

 

10 Não se preocupou se os fãs poderiam achar meio ridículo?

Pelo conrário. Eu já fui levado a sério demais especialmente em alguns momentos do passado. Hoje posso ter o prazer de fazer coisas engraçadas.

11 Suas parcerias mais lembradas são com Burt Bacharach e com Tony Bennett. Você é um cara velho?

Nunca me preocupei em pensar quantos anos tenho quando penso em música, somente se gosto do que estou fazendo. Achei incrível ter sido convidado, por exemplo, para compor com Paul McCartney. Seria absolutamente estúpido não querer saber o que acontece quando um cara como ele chama você para trabalhar. Tudo isso não tem a ver com idade, mas com a música em si.

12 Mas você se informa sobre o que rola na música hoje?

Estou ciente, mas não sinto que preciso conhecer tudo em primeira mão. Espero que as coisas cheguem em mim. Por exemplo, eu estava em um programa de TV outro dia com o pessoal do Black Keys e gostei do jeito como um dos caras tocava guitarra. Estava curtindo aquele momento, aquela canção que eles estavam tocando, até o jeito como ele segura a guitarra. Eu presto muita atenção ao jeito como as pessoas empunham suas guitarras.

13 Você e Paul McCartney parecem ser bem amigos. Dá para ser amigo de um mito como ele?

Eu não saberia descrever, mas não somos tão próximos assim. A maior parte do tempo que passamos juntos falamos de trabalho. Mas sou muito grato por nossa amizade. Ele sempre foi muito generoso comigo, me deu apoio em momentos complicados da minha vida no passado, o que não é uma coisa tão comum entre pessoas bem-sucedidas.

 

14 Falando em amigos famosos, qual é a sua principal memória de quando você conviveu com Chet Baker?

Quando me sentei ao lado dele no Ronnie Scott’s [tradicional clube de jazz de Nova York] uma noite, quando estávamos gravando Shipbuilding juntos. Sentamos, bebemos alguma coisa e ficamos falando sobre música. Ele era um homem muito quieto, e eu não tinha nenhum conhecimento sobre o outro lado da vida dele, meu interesse era a música. E ele entendeu isso. Ele era espetacular.

15 No começo você era associado ao chamado “London Pub Rock”. Vocês ficavam mesmo nos pubs tomando boas cervejas britânicas?

Quando eu era adolescente, pub era o lugar onde os homens velhos iam para morrer. [Risos.] Nunca me pareceu um lugar divertido, nunca gostei desse rótulo “pub rock”. Eu estava atrás de onde a música estava, e ela estava basicamente nos pubs. Não era aonde eu gostava de ir, mas onde estava a música.

 

16 Qual era o seu drink preferido nessa época?

Algum tempo depois eu me tornei um grande fã de gim.

 

17 Puro ou em dry martínis?

Dos dois jeitos. Tudo dependia de quão rápido eu queria ficar bêbado. Costumava fazer ótimos dry martínis.

 

18Você está no Rock’n’Roll Hall of Fame e tem um diploma de doutor em música pela Universidade de Liverpool. O jovem raivoso dos anos 1970 que você foi não fica decepcionado com o aristocrata da música pop que você se tornou?

Raiva era só um rótulo que me puseram. As pessoas acreditavam que podiam definir o meu trabalho dessa forma.

Eles não tinham muita imaginação na hora de me descrever, e isso não mudou muito. Continuo não vendo nenhuma imaginação em quem escreve sobre música. Nunca li uma única palavra que tenha me feito mudar de ideia sobre o que faço. Nunca li uma palavra que mudasse a maneira como me sinto a respeito da música. O importante é saber o que você está se propondo a fazer e se você consegue ou não fazê-lo. E as pessoas que escrevem sobre música geralmente fazem parte do segundo grupo, dos que não conseguem fazer música, ou seja, não fazem ideia sobre o que estão escrevendo.

 

19 Algum arrependimento ao olhar para o que já produziu?

Não. O máximo que penso é que algumas coisas que faziam sentido na época hoje eu faria diferente. Fiz muitos discos e não sei se haverá outros mais. Não sinto que exista estrutura mais para vender discos. Eu toco; é isso que faço para viver. Já atuei, mas não sou ator; gravei discos, mas não sei se eles ainda vão existir; escrevia canções, não sei se ainda vou escrevê-las.

 

20 Pode ser que você nunca mais faça uma música na vida?

Não faço ideia. Se a inspiração vier, sim, mas não tenho a obrigação de compor por nenhuma razão. Quando não estou compondo sempre tenho a impressão de que nunca mais vou fazer uma música. As pessoas têm essa ilusão de que escrevo canções o tempo inteiro, e não é verdade.Não tenho o desejo de escrever novas músicas agora, e, se me preocupar com isso, aí é que a inspiração não vem mesmo, não é?