Guilherme Mendonça é Guizado. Munido de seu trompete e sua banda, faz um som que define como “hipnótico”, mesclando o jazz ao rock e bases eletrônicas. Com dois discos na bagagem, Guizado também colabora com artistas que vão de Criolo e Nação Zumbi a Elza Soares. Neste mês, ele une suas experimentações à performance da cantora Cibelle, em São Paulo. O trompetista conversou com a PLAYBOY sobre suas referências e parcerias.

1. Você faz referências a Miles Davis e, em uma entrevista, disse que Electric Ladyland, do Jimi Hendrix, foi fundamental para traçar o modo como você faz sua música. Qual dos dois foi mais importante musicalmente para você?
Estou sempre aprendendo algo com eles. Com Miles Davis venho aprendendo muito, seu estilo de tocar, seu enfoque musical, sua personalidade… Uma das fases que mais me interessa é os anos 1970, que é quando ele começa a eletrificar seu som e se aproximar do rock. O interessante disso é que, nessa época, Miles andava muito ligado em Jimi Hendrix. Miles começou a usar pedais de guitarra no trompete como o Wah-wah que foi um pedal usado pelo Hendrix. Até a forma de se vestir de Hendrix influenciou muito Miles, que sempre foi ligado em moda. Já no caso de Jimi Hendrix, além de toda essa história dos pedais e tudo, uma coisa que me impressionou foi que ele trouxe ao rock muito da energia e inventividade do jazz, pois em suas performances sempre houve muito espaço para a forma livre de tocar. Isso me abriu muitas portas, mostrando que a improvisação não é um conceito fechado no jazz e, com isso, ele levou esse estilo mais livre de tocar para o grande público.

2. Uma das características mais marcantes do seu primeiro CD, Punx, de 2008, é a sinestesia. Em Calavera, de 2010, que é mais pop e com letras, em vez de só instrumental, acha que conseguiu manter esse clima?
Sem dúvida, o clima dos dois discos são um pouco diferentes. No Punx, existem mais solos, mais improvisação, é daí que vem essa sensação de sinestesia. Já no Calavera procurei usar o trompete de uma forma mais orquestral, com menos solos e mais arranjos escritos e pensados. No entanto, a produção do disco continua densa, com várias camadas de sintetizadores e sons eletrônicos, o que confere ao som uma atmosfera bastante hipnótica, que acredito que é uma das características do meu trabalho. A diferença é que o Punx é mais agressivo e denso e o Calavera vem mais por um caminho melódico, mas ninguém melhor do que os leitores e ouvintes para tirarem suas próprias conclusões.

3. Você tem sua própria banda, mas colabora com uma série de artistas e agora vai fazer um show com a cantora brasileira radicada na Inglaterra Cibelle. De que maneira essa promiscuidade musical (no bom sentido!) ajuda sua forma de fazer música?
É muito bom poder colaborar com artistas com os quais me identifico musicalmente, assim aprendo mais rápido. Isso me ajuda a enxergar a produção e a composição de uma forma que sozinho levaria mais tempo para perceber. Hoje mesmo, trabalhando em meu computador as músicas que tocaremos com a Cibelle, pude sacar coisas muito interessantes em seus arranjos. O trabalho dela tem uma produção muito elaborada, com requintes de timbres, e está sendo um aprendizado muito produtivo mesclar nossos estilos, de modo que a nossa parceria faça algum sentido e mostre que, de fato, houve uma colaboração mútua. Para isso é preciso entender o trabalho do outro e também encontrar uma forma de imprimir a minha marca ali na música.

4. Acha que o Brasil tem público fiel e considerável de música instrumental?
Sem dúvida. No nosso caso, por exemplo, estamos trazendo algo novo. Muitos dos que gostam do nosso trabalho já carregam consigo uma boa dos de informação e cultura. Mas existem aqueles que não estavam habituados a ouvir musica instrumental e fico feliz por estar fazendo a minha parte em levar a esse público esse tipo de música.

5. Tocando em pequenas festas e lugares menores, onde se tem mais contato com o público, trompetistas conseguem pegar muita mulher?
O que acontece com a mulherada que aparece nos shows é que, geralmente, antes e durante as apresentações fico sempre muito concentrado. É claro que percebo as pessoas que estão em volta, posso perceber a energia e o calor que elas estão retribuindo com a música, isso é fundamental para um bom show. Claro que já curti bastante toda essa vibração e de ficar exposto, mas hoje em dia eu dou mais valor a ficar na companhia de bons amigos relaxando.

*Guizado e Cibelle se apresentam em São Paulo, dia 28/01, na Choperia do SESC Pompéia.