É o velho ditado: estar no lugar certo e na hora certa. Foi assim que o The Damned construiu a sua carreira de mais de 35 anos. Começou ao lado de The Clash, Sex Pistols e tantas outras bandas que juntas provocaram a primeira grande onda do punk inglês em 1977. Sid Vicious quase se tornou vocalista do grupo, mas se atrasou para o teste e perdeu o lugar para Dave Vanian. Ainda em 1977, a banda fez a célebre turnê com o T. Rex, um dos principais nomes do glam rock, no mesmo ano em que Marc Bolan morreu em um acidente de carro.

O conhecido affair entre o reggae e o punk fez com que Bob Marley citasse o Damned entre os nomes de peso que estão na festa de “Punky Reggae Party”.  Numa estranha troca de integrantes, um ainda desconhecido Lemmy Kilmister, hoje do Motörhead, tocou baixo na banda durante um curto período. E, acredite se quiser, o grupo já teve até um disco produzido por um dos integrantes do Pink Floyd. Certamente, os integrantes do Damned estavam nos momentos e lugares certos e, mais do que isso, cercado pelas pessoas certas. Nesta semana eles estarão no Brasil para se apresentar em São Paulo. Entrevistamos Captain Sensible, por e-mail, membro da formação original e um dos integrantes mais queridos pelos fãs da banda.

1. Sempre que alguém fala do início do punk na Inglaterra, é como se ele certamente fosse dar certo e se tratasse apenas de uma questão de tempo para que explodisse. Mas para você, que estava lá, qual era o sentimento das pessoas envolvidas na cena no período anterior à explosão desse movimento?

Foram tempos difíceis… A “tribo” punk, por volta de umas cem pessoas, tinha uma aparência diferente e todo mundo nos odiava. Eu aprendi rapidamente a me virar em brigas. E se isso não funcionasse, eu me tornava bem talentoso para correr. Isso também foi bem útil para escapar dos coletores de tickets das estações ferroviárias. Não tínhamos um tostão, estávamos esfomeados e não conseguíamos pagar os tickets. Nós daríamos uma entrevista apenas para que a pessoa nos pagasse um café e nos desse algo para comer.

Eu dormia no quarto de Brian James [primeiro guitarrista do Damned]… Nós ensaiávamos na cozinha dele de dia e à noite íamos assistir alguma banda. Em vez de ficarmos com sede por causa do dinheiro escasso, nós roubávamos as bebidas de outras pessoas – o que não era tão popular.

Foram tempos delicados, mas era muito emocionante. Nos divertíamos com as expressões chocadas que o nosso estilo esfarrapado e nossa atitude provocavam nos rostos das pessoas. Eu achava que era o fim da civilização ou algo do tipo – uma visão que era apregoada pelos jornais.  O The Damned fazia um som diferente, mas intenso, rápido e descompromissado… Não apenas das bandas de prog rock ou das que enchiam estádios, mas também de bandas como Stranglers, Clash e Pistols. Nós achávamos que eles eram muito devagares!

2. Bob Marley citou o The Damned na música “Punky Reggae Party”, na qual ele descreve uma festa onde a banda estaria acompanhada de The Clash, The Jam, Wailers e de outros nomes de peso. De onde surgiu essa mistura entre punk e reggae?

Na época, casas “normais” não contratavam bandas punk, mas havia menos preconceitos em clubes frequentados por negros e gays. É por isso que muitas bandas punk tocam reggae também.  Existia um cruzamento, uma compreensão entre essas duas culturas. A coisa rebelde, talvez. Eu me lembro de encontrar alguns integrantes da banda de Bob Marley na época. Eles estavam interessados no que estava acontecendo.

3. Sid Vicious [baixista do Sex Pistols morto em 1979] quase se tornou vocalista do The Damned, mas faltou ao teste e perdeu o lugar para Dave Vanian [líder da banda até hoje]. O que você lembra deste ícone do punk?

Sid Vicious era uma piada… Não era um gênio, mas poderia ser divertido por 5 minutos – até se acabar. E depois, por alguma razão, achou que era um cara durão. Infelizmente para ele, Sid era muito magro e consequentemente se via sendo expulso de shows, acabando machucado na calçada depois de ter brigado com a pessoa errada. Acho que lhe deram esse nome com uma pitada de ironia. Talvez foi o seu “colega” [Johnny] Rotten que lhe chamou assim.

4. Como foi a turnê com o T. Rex em 1977?

Eu nunca vou me esquecer das duas bandas tocando “Get it On” em Porstmouth… Foi incrivelmente divertido. Marc Bolan [vocalista do T. Rex morto em 1977] tinha superado a fase arrogante de superstar quando fizemos a turnê com ele. Tivemos sorte. Ele foi bacana e relativamente humilde. Tinha tempo de conversar e não se escondia nos camarins. Ele estava atendo à revolução musical que estava acontecendo e tornou seus shows mais vivos e elétricos todos os dias. Ele nunca se deixaria ofuscar pela banda de aberturas.

É engraçado que os fãs deles e os nossos se davam bem e uma ideia que nunca daria certo no papel, se tornou um casamento perfeito no paraíso do rock ‘n’ roll – para onde Bolan iria pouco tempo depois dos nossos shows.

5. O The Damned convidou Syd Barrett [ex-líder do Pink Floyd] para produzir o segundo disco da banda, mas ele acabou não fazendo este trabalho e foi substituído por Nick Mason [baterista do Pink Floyd]. Por que vocês, membros de uma banda punk, escolheram caras de uma banda progressiva para produzir um disco?

Para uma banda punk que não tinha nada a ver com o Pink Floyd – que estava tocando em grandes estádios na época – poderia parecer insanidade, mas o genial ex-líder Syd Barrett [que saiu do Pink Floyd em 1968] era quem queríamos que produzisse um híbrido punk-psicodélico para o nosso segundo disco. É claro que ele nunca apareceu e o projeto ficou arquivado até Machine Gun Ettiquette, nosso terceiro álbum, que tem alguns momentos épicos que com certeza Syd iria gostar.

Nick Mason foi um sujeito legal, mas não tínhamos as mesmas ideias, para ser sincero. Não me importaria se Music For Pleasure [segundo disco do The Damned, produzido por Mason] ganhasse um remix de alguém que entenda um pouco mais de música de garagem;

6. Você tem uma frase famosa na qual diz que o The Damned “se comunica de verdade” com a plateia e que “as pessoas sabem que podem conversar conosco e jogar cerveja em nós, nos comprar uma bebida e cuspir em nós”. Isso é verdade?

Eu sempre sinto o public como uma parte essencial de qualquer show. Eu quero vê-los e escutá-los. Eu quero saber o que eles têm para dizer, mesmo que seja algo rude contra mim. O público do The Damned nunca teve medo de dizer o que pensa. E o que eles me dizem nem sempre é amigável, mas boa sorte para eles. Eu tenho senso de humor.