Longe das letras que o fizeram famoso, Luis Fernando Verissimo gosta de eventualmente buscar refúgio em uma das suas distrações favoritas: a música. O jazz, mas especificamente, lhe encantou quando ele ainda era adolescente, na época em que foi morar nos Estados Unidos. Não era para menos. Ele se mudou para a terra do Tio Sam exatamente no início dos anos 1950, um dos períodos mais férteis da história do jazz. Lá assistiu artistas do porte de Miles Davis e Louis Armstrong, e decidiu que iria aprender algum instrumento apenas o suficiente para “poder brincar de jazzista”. Atualmente, ele se diverte na Jazz 6, que com apenas cinco integrantes – o sexto saiu após o terceiro disco – se tornou “o menor sexteto do mundo”. Neste sábado, dia 21, o grupo se apresenta no aniversário de cinco anos do bar Verissimo, feito em homenagem ao escritor, em São Paulo. Falamos com ele sobre timidez no palco, improviso e literatura, e da vontade contida de dar mais espaço à música em sua vida.

1. Como você conheceu o jazz?
Foi quando fui morar com meus pais nos Estados Unidos, em Washington, eu tinha aí 16 para 17 anos. Resolvi que já que eu estava indo para a terra do jazz, ia aprender a tocar um instrumento. A minha ideia era só aprender a tocar o bastante para poder brincar de jazzista, não tinha nenhuma ideia de ser músico profissional nem nada. É o que eu faço até hoje: brincar de músico.

2. Você chegou a ver alguém se apresentando lá?
Olha, eu vi muita gente boa. Vi o Charlie Parker, uma coisa que eu sempre conto. Vi o Charlie Parker ao vivo. É engraçado porque na época eu não dava muita importância para o jazz mais moderno, só fui perceber que eu tinha visto o Charlie Parker depois. Era ele e o Dizzy Gillespie. Também vi o próprio Miles Davis, o Louis Armstrong…

3. Houve alguma chance de você ter se tornado um músico e não um escritor?
Não. Eu nunca pretendi ser músico profissional. Hoje, talvez, se eu pudesse escolher, eu escolheria ser músico, porque é o que me dá mais prazer, mais do que escrever.

4. Escrever se tornou algo burocrático na sua vida?
É… Quando a gente lê o que escreveu, às vezes tem prazer, acha que fez uma coisa bem feita e tal. É como diz o Zuenir Ventura que diz que a gente não gosta de escrever, gosta de ter escrito. Gosta de ler o que escreveu e achar que está bom. Mas o jazz sempre foi um passatempo para mim.

5. Como lidar com a timidez na apresentação?
Olha, a gente está ali fazendo parte de um grupo, não está se destacando demais, e eu meio que me escondo atrás do instrumento. [Risos.]

6. Já passou por alguma situação embaraçosa enquanto se apresentava?
Não, além de errar algumas notas [risos]. Uma vez, estava com a banda que eu tocava com os irmãos Caruso – o Paulo e o Chico Caruso. Nós fomos nos apresentar em Brasília e eu consegui cair do palco. Quebrei o joelho. Cai abraçado com o sax. Eu fui para o hospital, mas o show continuou.

7. A apresentação é para comemorar os cinco anos do bar Verissimo. Como ele surgiu?
A ideia foi de um gaúcho que mora em São Paulo que quis fazer uma homenagem para mim. Ele não me conhecia, era leitor. Me consultou, eu disse que tudo bem, agradeci a homenagem e parece que está se mantendo muito bem. Tem um bom cardápio, uma boa frequência. Nós já tocamos algumas vezes lá. Inclusive, na inauguração nós tocamos.

8. O jazz tem uma relação íntima com a literatura, principalmente a literatura beat. Você vê alguma relação entre as coisas que você escreve e o jazz?
Não, acho que não. Eu já tentei fazer aí um paralelo, dizer que a crônica é um pouco como uma apresentação de jazz, que a gente expõe um tema, faz variações em torno dele e volta para o tema no fim. Mas ficou uma comparação um pouco forçada, eu acho que não. Não se sustenta.

9. Existe muito de improviso na sua literatura?
Eu acho que sim, às vezes sim. A gente sabe o que quer escrever, mas só vai começar a escrever mesmo quando está escrevendo. Não é uma coisa “pré-pensada”. Nesse sentido tem alguma coisa a ver com a improvisação do jazz.

*Luis Fernando Verissimo toca com a Jazz 6 no dia 21 de julho às 21h30 no bar Verissimo (Rua Flórida, 1488 – ingressos a R$ 30). Reservas pelo telefone (11) 5506-6748. Saiba mais no site da casa.