Procurando o ponto de conexão entre Brasil e Jamaica, o produtor Eduardo Bidlovski, o BiD, se lançou em um projeto ousado que mescla as raízes da música brasileira com o ritmo que tornou a Jamaica mais do que uma ilha verde no mapa. Juntando nomes como Karina Buhr, Dominguinhos, Lúcio Maia, Luiz Melodia e Chico César a grandes nomes do reggae como Luciano, Sizzla Kalonji, Kymani Marley e The Heptones; “Bambas Dois – Brasil-Jamaicavai dos tambores de Niyabinghi ao xote.

1) Como surgiu a ideia do projeto e quais foram os caminhos para fazê-lo dar certo? Qual foi a maior dificuldade?
A ideia veio em um barquinho, em Negril [praia a Oeste da Jamaica], em fevereiro de 2010. Coloquei um CD de produção minha, o ultimo do Chico Cesar, “Francisco Forró y Frevo” no CD-player e o condutor do barco começou a cantar no estilo dancehall jamaicano em cima do xote da música.
Ali me deu um estalo e a vontade de fazer um disco que misturasse as duas culturas, ambas filhas da mãe África. Voltei para o Brasil e comecei a compor com meu parceiro Fernando Nunes e, em setembro, as bases já estavam todas gravadas. Foi aí que retornei para a Jamaica para gravar com os cantores.
A maior dificuldade foi bancar todos os custos. Fui fazendo empréstimos daqui, dali, e me endividei até o pescoço, mas muito confiante da força do projeto. Foi depois de pronto que apresentei o disco e imagens captadas para a Natura e eles entraram de parceiro patrocinando a empreitada. Depois a Universal Music entrou na parada pra distribuir o disco e eles realizaram meu sonho de fabricar o CD-Book de 88 páginas, em edição especial.

2) Qual visão os jamaicanos têm da música brasileira, o que eles conhecem, quais são as nossas referências por lá?
Não conhecem nada do Brasil, somente alguns jogadores de futebol como Ronaldo e Ronaldinho. Tudo que rola por lá é a música deles, do Caribe e dos Estados Unidos. Rap tipo Lil Wayne é bem popular, além da onda dancehall, com artistas como Mavado e Vibz Cartel.

3) O que você ouviu na Jamaica que o mundo ouvirá em breve? Eles ainda criam bons talentos musicais na sombra de Bob Marley?
O Bambas Dois [risos] Não vi nada de muito novo sendo feito por lá. Só música descartável. A música tradicional jamaicana segue forte como a bossa nova no Brasil, que nunca cansamos. Bob Marley é como Pelé, dificílimo de aparecer outro.
O empresário do Sizzla (falecido há duas semanas) quando acompanhou a gravaçção de “Only Jah Love” trouxe um jovem cantor, o Jesse Royal, e o apresentou como “The Next One”. E que ele não cobraria pela participação do Jesse e que ouvíssemos ele cantando.
Não sei se ele vai arrebentar no futuro, mas a música que ele gravou com a Karina Buhr, “World Cry“, deixa todo mundo arrepiado ao ouvir.

4) Sizzla é apontado como um dos músicos mais produtivos e também mais controversos da Jamaica, sendo acusado de homofobia e incitação à violência, tendo inclusive problemas para tocar na Europa por causa disso. Como foi a escolha dele para o line up e como foi trabalhar com uma personalidade assim?
O Sizzla está entre os três maiores nomes da música Jamaicana e é muito conhecido pelo seu trabalho incansável de criação onde lança quatro, cinco discos por ano.
Trabalhar com o Sizzla era um sonho para mim e para o Gustah [coprodutor do Bambas Dois] que acabou virando realidade.
Chegou marrudão no estúdio com clima meio Mano Brown há alguns anos atrás. Serviu um banquete de ital food (comida vegetariana rastafári) para uns dez amigos dele e toda nossa equipe.
Após o almoço, ao ouvir a base que ia cantar, o clima foi mudando. Balançando a cabeça sem parar e feliz da vida, tivemos uma ótima sessão de estúdio. Em maio de 2011 ainda trouxemos ele para o show do Festival Natura Nós.

5) Com esse projeto, você conseguiu descobrir qual é o ponto que conecta Brasil à Jamaica?
Sem duvida a África, mãe dos dois, e também a forma que fomos colonizados por europeus, que acabaram com as culturas dos indígenas.
Também a música forte de cada país e como ecoaram pelo mundo, como a bossa nova e o reggae. E, claro, nos dois países, a absurda e desumana escravidão, onde os dois países sofreram muito e colhem as consequências até os dias de hoje.

*Assista ao clipe de Only Jah Love, com Sizzla Kalonji

**Uma edição especial de 2 mil cópias do disco trazem junto um livreto contando a história do reggae e da música nordestina, em forma de xilogravuras de cordel.

***No site do projeto é possível ouvir e baixar algumas músicas. No canal oficial do Youtube, é possível assistir aos programas que foram lançados durante a produção do disco.