Em novembro passado, a equipe de O Incrível Hulk esteve no Rio de Janeiro para filmar algumas sequencias da produção na favela Tavares Bastos. Usar qualquer uma das 513 favelas cariocas (censo do IBGE de 2000) como cenário para um blockbuster seria uma atitude insana e arriscada. Mas a equipe de filmagem não estava preocupada com a guerra entre traficantes e policiais que toma conta da cidade cartão-postal. Afinal, eles estavam na Tavares Bastos.

Localizada no Catete, a Tavares Bastos é a única das favelas cariocas onde um policial pode andar fardado — e desarmado! — sem o risco de levar um tiro. Motivo? Em vez de ser controlada por uma das inúmeras facções do tráfico, a favela tem no seu topo um quartel do Batalhão de Operações Especiais, o Bope. São 400 homens vestidos de preto. Todos armados até os dentes.

Mas quem, de fato, dá as cartas na favela é Arnaldo Vargas. Major Arnaldo Vargas. Aos 51 anos, cabelos grisalhos, rosto cheio de vincos, ele é o representante da tropa de elite junto àquela comunidade. É uma espécie de síndico do lugar e, como todo síndico, age como dono do pedaço. Não se iluda: o verdadeiro Hulk da favela não é Edward Norton, é o major Vargas.

Sob a égide da caveira cravada por uma faca (símbolo do Bope), Vargas dita, há oito anos, as regras informais da favela — entre elas, a proibição de motos nas vielas e dos bailes funk. Também resolve problemas entre vizinhos, e, frequentemente, impõe a ordem no lugar com mais autoridade que a associação de moradores. O resultado disso é que a ilha de tranquilidade comandada pelo major virou uma espécie de “favela cenográfica”, a menina dos olhos dos produtores de cinema. Além de emprestar seus becos e barracos para as filmagens de O Incrível Hulk, também serviu de cenário para Tropa de Elite, foi pano de fundo para a novela Vidas Opostas, da Record, virou documentário da BBC apresentado pelo ex-produtor dos Beatles, George Martin, e emoldurou clipes de Snoop Dogg e Black Eyed Peas. Em suma, um sucesso.

Mas nem sempre foi assim. Segundo a Prefeitura do Rio de Janeiro, a ocupação do morro da Nova Cintra por barracos aconteceu a partir de 1931. A favela recebeu o nome Tavares Bastos por ser uma continuação da rua Tavares Bastos, que começa no Catete. Na outra face do morro fica o elegante bairro de Laranjeiras, onde está o Conjunto Residencial do Parque Guinle, construído por César Guinle a partir de 1948 com projetos de Lucio Costa e dos irmãos MMM Roberto, e o Palácio das Laranjeiras, residência oficial do governador do estado. “O prédio no alto do morro que hoje serve ao Bope era o projeto de um clube que atenderia aos morador e do residencial, mas que por algum motivo foi abandonado por César Guinle nos anos 50”, conta o arquiteto Roberto Cattan, estudioso da relação entre a família Guinle e a arquitetura do Rio de Janeiro.

O crime organizado tomou conta da Tavares Bastos no final dos anos 80. Quando o Comando Vermelho dominava o local, já nos anos 90, a construção abandonada no alto do morro servia como centro para embalagem e venda d e drogas. Em agosto de 2000 o Bope subiu o morro para fazer a “ocupação”. Isto é, arrancar os traficantes a bala. Depois da incursão, que durou quatro meses, o Bope tomou o prédio inacabado, finalizou a construção e instalou a li o seu quartel. Hoje, a favela — com seus 7 mil moradores — conta até com um bed & breakfast tipicamente britânico, o The Maze. Seu dono, o artista plástico inglês Bob Nadkarni, mora ali há 25 anos e promove shows de jazz às sextas-feiras. O funk, uma preferência unânime em outras favelas, não tem vez no pedaço. O major Vargas não gosta desse tipo de música.

Dois momentos exemplificam bem o ambíguo comportamento do major. O primeiro deles é quando o ronco de um motor anuncia que uma motocicleta vem subindo a viela principal da favela. Vargas interrompe suas andanças, se posta no meio do caminho com as pernas um pouco afastadas uma da outra, estufa o peito e cruza os braços. A passagem não tem mais de 1,20 m de largura e o motociclista tem duas opções: ou pára ou o atropela. Ele pára.

“Desliga a moto”, ordena o major.

“Sim, senhor.”

“Você mora aqui?”

“Moro, sim, senhor.”

“E não sabe que não deve andar com a moto ligada pela viela?”

“Não, senhor.”

O major puxa a chave da ignição.

“Pois agora já sabe. Desça com a moto desligada. Vou ficar com a chave. Você pode se apresentar amanhã no batalhão para buscá-la.”

“Mas isto aqui é uma rua, e…”

Vargas o interrompe: “Você vai ficar ponderando comigo, meu amigo?”.

“Não, senhor.”

“Ótimo”, diz o major virando as costas e encerrando a conversa.

O segundo momento é quando, poucos metros adiante, ele encontra dona Ruth, uma simpática senhora de vestido azul, na porta de casa, com um bebê no colo. Acima da porta, uma placa escrita à mão:

EXPLICA

DORA

Ensino FUNDAMEN

TAL

Manhã e tarde

“Dona Ruth, como vai? Mas que meninão lindo!”, diz o major, pegando o bebê.

“Tá tudo bem, major. Tudo na mesma.”

“Será que a senhora não gostaria de uma estante para guardar melhor este monte de livro que tem aí para as crianças?”

“Nossa, seria ótimo.”

“Tenho uma sobrando no batalhão. Mande uns meninos buscarem lá amanhã depois das oito da manhã.”

“Muito obrigada, major! Vou mandar sim.”

“Que meninão lindo, vai ser Fluminense!”, diz, devolvendo a criança.

Na palma da mão esquerda, anota com caneta Bic azul: “estante”.

Vargas entrou na PM do Rio de Janeiro aos 24 anos e sempre foi policial de rua. De trocar tiros. Hoje, é o mais velho integrante do Bope a fazer operações de intervenção — apesar de não atuar mais com tanta frequência, já que alcançou posição. de escolher a maioria delas. “No Rio toda favela tem muita arma de guerra. Nunca usei uma pistola. Só uso meu fuzil, que é um 7,62 mm.”

Há 16 anos nas operações especiais, Vargas admite ter matado uma quantidade considerável de pessoas. Recusa-se, porém, a dizer quantas. “Eu não me recordo o número. São muitos anos de confrontos. Mas ninguém gosta de matar, de recolher o corpo de alguém que tomou um tiro de fuzil no peito e cujos órgãos internos ficaram no chão. Você já tentou pegar um coração na mão? É horrível, escorregadio. Salta dos dedos quando você tenta agarrar firme.”

Assim como o Hulk e seu alter ego Bruce Banner, o major Vargas também tem uma identidade secreta. No apartamento que usa para dormir no Rio de Janeiro (ele trabalha de segunda a quinta-feira no Bope e passa os fins de semana com a esposa na casa que construiu na Região dos Lagos) usa nome falso e crachá de um laboratório fictício. Para os vizinhos, com os quais evita conversar, é um reservado comerciante de produtos farmacêuticos. “Acho que até desconfiam de quem eu sou, pois a Tavares Bastos tem aparecido bastante na mídia, mas não dou papo.” De fato, a tal identidade secreta parece um pouco inútil, já que o rosto do major está muito bem impresso n esta reportagem que você lê. Questionado sobre isso, ele parece não se importar nem um pouco.

Hoje, o major diz ter uma razoável vida financeira. No Bope, ele recebe um salário mensal “na casa dos 9 mil reais”. Entre suas posses, orgulha- se, principalmente, da casa que construiu em um terreno de 900 metros quadrados na Região dos Lagos, a 60 metros da praia. Dependendo da localização, um terreno desse tamanho pode custar desde algumas dezenas de milhares até 1 milhão de reais. Vargas não diz a localização exata da casa. Dentro do quartel, o major também costuma emprestar dinheiro a juros baixíssimos aos soldados, generosidade que lhe rendeu o apelido de Pai no batalhão. Quando encontra algum soldado no Bope, é comum que este peça a “bênção” ao major.

Vargas deveria ter se aposentado há três anos, mas, a pedido do seu comandante, continua firme cuidando do “condomínio” Tavares Bastos. Entre seus afazeres está o de manter uma boa relação com a burocracia municipal. No caso, o subprefeito Marcelo Maywald, da subprefeitura Zona Sul 2. É para lá que o major se dirige, em sua surrada caminhonete Blazer do Bope, numa quinta-feira pela manhã.

“Marcelo, estão construindo no meio da rua lá na Tavares Bastos”, diz Vargas ao político.

“Isso não pode.”

“Eles sabem que, quando asfaltarem a rua, vão ganhar indenização para saírem de lá.”

“Temos de botar abaixo antes. Uma retroescavadeira dá jeito?”

“Dá sim.”

“O chato é que a gente faz um esforço pra comunidade, asfalta a rua, vem outro e bota faixa, distribui santinho… Você sabe do que estou falando.”

“Pois é, Marcelo. Você tem de aparecer mais na comunidade se quiser ser lembrado. A Tavares Bastos está tendo cada vez mais visibilidade e já tem gente se dando conta disso. Pode ser importante nas eleições. Aparece por lá.” Na saída da subprefeitura, ele ajeita a boina preta em seu cabelo agrisalhado e comenta sobre seu desempenho na reunião. “Qual é o seu artista predileto?”Digo Al Pacino. “Pois ele não é melhor que eu, meu amigo.”

Depois da reunião na subprefeitura, Vargas volta ao morro e vai até a casa da dona Fátima, uma senhora que se recusa a devolver a caixa d’água que tomou do vizinho que mora na laje de cima. Em poucos minutos de conversa, ele a convence de que seria melhor devolver a caixa d’água e continua sua caminhada pelo morro, deixando dona Fátima de cara fechada no portão. Ao alcançar a parte de cima da favela, a mais pobre da Tavares Bastos, ele encontra um senhor maltrapilho, com uma pena transpassada no cabelo, os olhos vermelhos de birita. Vargas pergunta sobre a pena.

“Sou índio”, responde o homem com a voz encharcada de pinga.

“Que índio o quê?! Você é um marinheiro!”

“Humpf.”

“Não tem vontade de voltar aos mares? De navegar por aí?”

“Prefiro ficar bebendo.”

Vargas fica visivelmente incomodado com o encontro. “Ele era militar. Da Marinha”, conta. “O meu único medo é o de um dia acabar maluco também.”

A tarde começa a cair na baía de Guanabara e o major Vargas ainda tem tempo para um café no The Maze antes de voltar a ser o farmacêutico de pouco papo lá embaixo, no asfalto. Afinal, no dia seguinte, numa reunião logo pela manhã, o comandante do Bope lhe dará a notícia de que o batalhão vai ocupar as favelas cariocas para dar segurança às obras do PAC. Vargas logo voltará a trocar tiros.

MORRO QUE TEM VEZ A produção cinematográfica na favela já tem quase 80 anos

O Incrível Hulk pode ter sido a maior produção realizada na Tavares Bastos, mas o cinema é feito naquele pedaço do Rio de Janeiro há tempos. Em 1929, um italiano chamado Paulo Benedetti fez uma das primeiras experiências do cinema sonoro em terras cariocas na rua Tavares Bastos, gravando quatro músicas do grupo Bando de Tangarás. O escritor Ruy Castro conta que Carmem Miranda também frequentava o “estúdio” da Benedetti Film no começo da carreira, antes de Hollywood. “Carmen tornou-se habituée durante as filmagens de Barro Humano (1929) na Tavares Bastos.”

O estúdio da Benedetti Film inaugurou a relação do cinema com a Tavares Bastos. Entre os astros das primeiras produções, Noel Rosa e Carmem Miranda