Semanas atrás, a atriz Bárbara Paz, de 35 anos, fazia compras num supermercado no Rio de Janeiro quando foi surpreendida por uma simpática mocinha. “Finalmente estamos conhecendo o teu trabalho, porque a gente só tinha te visto na Casa dos Artistas”, disse a jovem. Bárbara riu. Outro dia, no aeroporto Santos Dumont, também no Rio, a atriz contabilizou, antes do embarque, mais de 20 poses para a câmera fotográfica de celulares de fãs. Mas Bárbara Paz só sentiu que “a parada estava ganha”, como ela própria definiria, quando um sujeito lhe recomendou que não bebesse tanto assim. Não porque ela seja uma bebedora notória, mas sim porque, como Renata, a alcoólatra da novela Viver a Vida, do horário nobre da Rede Globo, Bárbara convence tanto que há quem chegue a confundir a artista com sua obra.

Embora seja dona de uma carreira consolidada no teatro paulistano e tenha participado de três novelas no SBT, somente agora Bárbara Paz ganha reconhecimento nacional em seu ofício. Em 2001, ela ficou famosa ao participar – e vencer – o primeiro reality show de confinamento da TV brasileira, a Casa dos Artistas, no SBT. Na época, a gaúcha da minúscula cidade de Campo Bom, que tem hoje 58 mil habitantes, conquistou a simpatia do público ao expor seus dramas pessoais. Órfã de pai aos 6 anos e de mãe aos 17, Bárbara mudou-se para São Paulo para ganhar a vida como modelo, mas teve seus planos frustrados depois de sofrer um acidente de carro, em 1991, que lhe deixou uma imensa cicatriz no rosto. Na época do reality show do SBT, Bárbara escondia-se por trás dos imensos cabelos revoltos, do olhar inseguro e assustado e das roupas de gosto duvidoso, qual uma adolescente transgressora.

Hoje, quase nove anos depois da estreia na Casa dos Artistas, Bárbara Paz é uma mulher tão diferente que é de duvidar que seja a mesma pessoa. Veste-se com elegância e fala com eloquência. A transformação é resultado de uma imersão pessoal que incluiu, dentre outras coisas, um trabalho árduo no teatro que lhe permitiu ganhar o respeito de figuras como Paulo Autran, Juca de Oliveira e Bibi Ferreira. Mas não só isso. Criada no interior, Bárbara cresceu ligeiramente solta, aprendendo sobre a vida por conta própria. “Cresci sem nada de cultura. Minha vida foi em hospitais, ao lado de minha mãe, que sempre fazia hemodiálise. Nunca leram um livro para mim. Nunca aprendi idiomas. Fui ao cinema pela primeira vez com 15 anos. Não penteavam meu cabelo. Não tinha referência de como devia me vestir”, diz. Ciente de suas deficiências, Bárbara resolveu, então, correr atrás do prejuízo – leu bons livros, viu filmes clássicos e se cercou de gente que tinha algo a lhe ensinar. Em pouco tempo adquiriu uma cultura literária e cinematográfica que permite a ela, por exemplo, discorrer sobre Albert Camus e aventurar-se em experiências como a direção de curta-metragens alternativos.

Desde a estreia de Viver a Vida, a Renata interpretada por Bárbara Paz tem crescido de tal maneira na novela a ponto de ofuscar o papel de Helena, a protagonista que Manoel Carlos escreveu especialmente para a atriz Taís Araújo. A atuação verossímil de Bárbara também diminuiu as luzes sobre o desempenho de Alinne Moraes, que curiosamente interpreta uma modelo que vê a carreira encerrar-se após um acidente de carro. A imprensa especializada, inclusive, tem dado conta de uma tremenda ciumeira no elenco de Viver a Vida por causa do aumento das cenas de Bárbara – que ela não nega, mas evita dar detalhes.

A tarefa de entrevistar Bárbara Paz foi entregue à editora Adriana Negreiros, que chegou ao local do encontro, uma badalada livraria de São Paulo, com um exemplar da PLAYBOY de setembro de 2007 nas mãos – é a edição que traz o ensaio da atriz, assinado pelo fotógrafo Marcio Scavone. Um dos editores da revista, apaixonado pela atriz, pediu à jornalista que conseguisse um autógrafo de Bárbara. Um tanto constrangida, a entrevistadora engatou uma conversa que, imaginou, criaria uma situação favorável para seu pedido.

O comentário unânime entre os rapazes da PLAYBOY é que você tem peitos incríveis.
[Envaidecida] São naturais.

E você tem consciência do fascínio exercido pelos seus peitos?
Eu sempre gostei deles. Porque, na verdade, eu não tinha peito até os 15 anos. Então eu fazia muitos exercícios para criar peitos. E, quando eles cresceram, é óbvio que eu fiquei fascinada. Então eu sempre tive muito carinho pelos meus peitos, sempre achei que eram interessantes e naturais. Mas eles eram muito maiores.

Ah, é?
É. Até na PLAYBOY eles estavam maiores. Mas com a idade eles vão diminuindo, você emagrece. E com meu personagem da novela eu emagreci bastante. O único problema de emagrecer é o peito [dá um tapa na mesa], ele vai emagrecer junto! Estão menores. Mas continuam naturais. Sou toda natural.

Por falar na PLAYBOY, durante o ensaio no Teatro Oficina [em São Paulo], você deu um presente e tanto a um moço que foi até lá para entregar flores para uma foto. Atendeu o rapaz completamente nua. Como foi isso?
[Risos] Eu nunca tive nenhum pudor, sempre fui muito livre. O corpo pra mim não é só um objeto sexual. Eu sou do teatro, sou da coxia. Eu tô sempre nua. Desde criança sou assim. Então nesse dia eu nem me liguei que tava pelada, juro! E aí ele levou um susto.

E você disse: “Não repare nos meus trajes”.
É, eu falei isso [risos]. Porque ele ficou meio assim…

No ensaio há outra foto em que você está no meio do palco, nua diante de uma plateia. E em outra está no meio da rua.
A da rua fui eu que quis. Eu queria muito fazer na rua.

Bárbara, você poderia autografar este exemplar para um colega meu? É que, enfim, ele gosta bastante de você.
[Ela escreve na foto da plateia e desata a rir]. Viajei!

Deixa eu ver: “Fulano [como o editor é casado, convém não citar seu nome], na minha plateia, quero você na primeira fila”.
Agora pede pra ele o que você quiser [risos].

Não tem um componente exibicionista nessas suas atitudes e na escolha das fotos?
Não, não tem nada de exibicionista. É mais a coisa da liberdade, de ser livre. Eu acho que sou mais voyeur do que exibicionista. [Silêncio.] Tô aqui me lembrando do dia em que eu queria ir pra rua…

O pessoal da produção conta que deu um trabalhão, rolou um medo de todo mundo ser preso.
E eu dizia: “Se a gente for preso, continua fotografando [risos]”. Eu acho que a sensualidade está no espontâneo, no natural. Tanto que não botei muitas roupas, não quis espartilho.

Você disse que sempre ficou nua, que é da coxia. Nos bastidores do teatro tem muita putaria?
Eu não passei pelo Zé Celso [José Celso Martinez Corrêa, diretor do Teatro Oficina, famoso, dentre outras coisas, pela alta voltagem erótica de suas peças]. E não foi por falta de convite, mas porque eu não tive coragem. Ainda. [Risos.] Eu adoro o Zé, tanto que fiz parte do ensaio no Teatro Oficina, mas sou um pouco careta nesse sentido. Eu trabalhei com o Tapa, um grupo muito tradicional, um grupo de estudos. Então ali no grupo você sempre vai ter a putaria de um lado e cabe a você entrar ou não no jogo. No Antunes Filho, por exemplo, lá rolavam muitas coisas, porque ele reprimia muito os atores.

Como assim?
Ele não deixava ninguém se envolver com ninguém do grupo. Se ele soubesse que uma atriz estava namorando, mandava embora. Você ficava lá de 10 da manhã às 10 da noite, e ele reprimia tanto, não pode isso, não pode aquilo, que as pessoas acabam se soltando, querem enlouquecer uma hora.

Rolava que tipo de putaria?
Tinha de tudo, festas, drogas e rock’and’roll. Festas escondidas, claro. À noite todo mundo precisava se libertar. A maioria das mulheres namorava outras mulheres. Mas eu acho que aquilo era um método. Todo mundo queria fazer as cenas mais picantes [risos]. Eu acho ele um grande diretor. As pessoas descobrem sua liberdade de expressão. Mas eu acho que a minha geração é outra, muito mais inteligente e consciente.

Consciente do quê?
No sentido de saber a que essa putaria vai levar. Eu acho que muitas coisas mudaram depois da aids. Eu amo o Zé Celso, mas se você vai ver uma coisa que tem muita putaria, que tem sexo exacerbado, acho que perde um pouco a credibilidade. Para a minha geração o sexo é muito mais consciente. Você pode fazer de tudo, mas muito mais consciente.

Você nunca participou das sacanagens?

Só observei, sou uma ótima voyeur. Adoro observar ao meu redor.

Inclusive o vizinho pela janela?
Se vejo na janela algo interessante que mexa com a minha sexualidade, por que não? A janela estava aberta! Se me interessar, vou observar. Do contrário, fecho a cortina – porque entre as minhas quatro paredes sem dúvida terá algo melhor.

Você já transou com mulheres?
Não. O preconceito não mora em mim. Sou muito livre, mas nunca me apaixonei por uma mulher. Poderia. Mulher é muito interessante. Mas ainda não aconteceu.

Você já foi assediada por mulheres?

Bastante. Amor não tem sexo nem idade, mas eu ainda gosto do falo. Eu ainda busco o tradicional na minha vida.

Isso é curioso, Bárbara, porque você tem essa coisa da mulher selvagem. Um editor da PLAYBOY disse que, ao olhar para você, já pensa…
[Interrompendo] Que eu sou boa de cama [risos]. Essa coisa do que as pessoas acham de mim é engraçada. Eu fui fazer um workshop com o Antonio Abujamra [diretor de teatro e ator], isso eram 9 horas da manhã. De repente ele apontou pra mim e disse: “Ela. Ela exala sexo”. Mas ele falou de uma maneira que me deixou muito constrangida. Ele nem deve se lembrar disso. Talvez tenha sido a maneira como eu estava vestida, não sei, mas fiquei me questionando muito. E não voltei mais ao workshop. Eu falei: “Vai que ele me ataca…” [Risos.]

Sinto dizer, mas entre os homens a impressão é a de que você realmente exala sexo.
Pois é, é engraçado porque… Porque na verdade é óbvio que eu gosto de sexo. E eu tenho cara de quem gosta. [Risos.] Talvez por isso eu tenha essa imagem, porque tá na cara! Eu tenho esse lado, mas isso fica só entre quatro paredes, para quem estiver comigo. Eu sou muito sexual. Não é sensual, é sexual. É diferente.

Sensual é mais óbvio e sexual é mais, vamos dizer, animalesco?
Eu tô falando da impressão que as pessoas têm de mim. Olha, o sexo é muito importante na minha vida. Eu não sou uma pessoa que deleta isso e deixa passar. A grande diferença é que gosto com uma pessoa só. E aí podemos desvendar tudo. Eu sou uma mulher que gosta de despertar o desconhecido num homem. Eu tenho mesmo essa pegada sexual, eu sou assim, como o Abujamra disse [risos]. Mas poucas pessoas sabem o que realmente me interessa e não me importo com o que os outros falam. O Marcelo Rubens Paiva [escritor, autor, dentre outros livros, de Feliz Ano Velho] fala que precisa ficar me defendendo em mesa de bar.

Ele te defende do quê?

Todo mundo acha que eu sou uma perdida, que saio com todo mundo. Eu falei: “Pergunta com quantos eu já dormi. Quero ver o que vão te falar”. Ele diz: “Eu sei, você é mulher de um homem só”.

Mulher de um homem só?
Eu sou exclusiva e quero exclusividade. Mas já perdoei traição. Uma vez só. Porque eu acho que o ser humano tem direito a uma segunda chance. Eu sou fiel. Pra esse ser humano eu vou ser totalmente exclusiva em tudo, e aí com ele eu sou totalmente liberta. Eu sou do tipo “mulher louca” para um homem só. Me queira. Mas me queira inteira e só a mim. Pra que vai buscar algo fora se tá bom? Mas eu conheço muitas mulheres que são casadas e saem com outras pessoas. Aí eu consigo entender Guy de Maupassant, Marquês de Sade. Eu tenho fascínio por eles como literatura. Mas na prática não. Eu chego a ser careta. Eu acho que a mulher estragou um pouco o feminino. O homem tá um pouco cansado desse tipo de mulher.

Quando você fala “esse tipo de mulher”, refere-se a quê?
A mulheres que vão para a cama na mesma noite.

Você não vai?
Fui uma vez, pra nunca mais. Pra mim não é saudável.

E por quê?
Porque eu me senti péssima, sabia que ia ser só aquela noite. E pra que só sexo? Eu sou diferente das outras mulheres e às vezes acho que tô errada.

Muitas mulheres, ao ler essa afirmação, poderão te acusar de machista.
Isso é uma questão minha. E eu não sou machista. Não digo só por irem para a cama na primeira noite, mas por estarem muito disponíveis. O homem precisa do mistério, da conquista. Agora, eu sou a favor da liberdade, pelo amor de Deus. Cada um faz o que quiser. Eu me sinto passada, envelhecida no meu tempo.

E homens que vão para a cama na mesma noite?
São raros os que não querem levar a mulher para a cama no primeiro encontro. O homem quer saciar o desejo. Pode ser que estejam somente em busca disso e, quando a mulher não cede, aí talvez desperte a curiosidade.

Muitos caras já chegaram pra você com mão-boba, achando que você estava facinha, facinha?
Muitas vezes. E eu detesto homem galinha. Adoro homem inteligente, acho que a sedução está na inteligência e no bom humor. Esse é o que me leva. Tem de ter sabedoria. Isso me tira o chão. Por isso não me interessam os menininhos jovens, o rock’n’roll. Esse lado já passou, não me interessa. Eu quero ensinamento. Sempre digo para as minhas amigas: menino de bermuda, tênis e meia abaixada, ai! Não suporto! [Risos.]

Isso, então, já explicaria o seu relacionamento com Hector Babenco [cineasta de 61 anos]?
[Irritada.] Eu não suporto isso. Se eu tivesse 40 e ele, 70, tudo bem. Agora, porque eu tô com 30 e poucos… As pessoas são muito preconceituosas. As pessoas ficam apavoradas, apavoradas no sentido “Mas como você consegue?” E eu lá vou explicar como é que acontece? Amor não tem sexo, cor nem idade. Olha, eu sou completamente apaixonada pelo homem com quem estou. Infelizmente, embora estejamos no século 21, muitas pessoas não conseguem entender.


Eu já imaginava que esse assunto iria te tirar do sério.

Me tira do sério porque eu não falo da minha relação. Ele é um profissional extremamente respeitado e, no momento em que estou falando, estou invadindo a vida dele. Então não vou falar dessa história. O que posso dizer é que estou extremamente feliz. Eu gosto de coisas interessantes, que mexam com o meu subterrâneo. Gosto do que vai além do normal, do que vai além do óbvio. Eu acho, por exemplo, que, quando a mulher fica mais madura, mais sensual ela se torna.

Por quê?
Porque não tem a pose, a máscara, o biótipo. Porque isso tudo é muito óbvio, principalmente a mulher brasileira. A mulher brasileira que não é só bunda é muito mais bonita. Quando eu visto uma roupa curta, me sinto meio mal. Eu me sinto muito mais sensual com uma camisa do que quando estou mostrando o corpo. Mas eu já me vesti bastante com roupas ousadas e não me sentia bem, sabia que era só aquilo, que já estava tudo à mostra. Eu acho muito mais bonito, por exemplo, uma mulher sem maquiagem. Eu não posso, por causa da minha cicatriz, mas se eu pudesse…

Não parece que você está usando muita maquiagem.
Eu ainda uso, mas é bem pouco. Antes era como uma máscara, eu usava bastante. Era o meu remédio. Eu exagerava. Hoje gosto de pintar meus olhos e só. Mas a cicatriz melhorou muito, a dermatologia me ajudou.

Uma pessoa que se dedique a ler as matérias publicadas a seu respeito percebe que as narrativas sobre suas tragédias pessoais – inclusive o acidente de carro que deixou a cicatriz em seu rosto – são bastante destacadas. Não parece que sua vida se resume à tragédia?
Pois é, isso é um problema. Porque quem lê acha que eu insisto em falar sobre isso, mas não é verdade. Eu sempre peço que a gente não foque só na minha história pessoal, porque eu tenho uma carreira. Não é que eu esteja negando a minha história, mas parece que eu tô querendo me fazer através dessa história. E nem acho minha história tão trágica, há coisas muito piores. Por exemplo, meu pai morreu de cirrose.

O que é um prato cheio para escrever a respeito, pois seu personagem na novela bebe muito.
Mas acontece que meu pai morreu quando eu tinha 6 anos. Ele é uma história que contaram pra mim, porque eu não me lembro dele. Eu não tenho essa experiência de pai, muito pelo contrário. Eu tenho falta. Eu não me lembro de nada. Sei que ele morreu de cirrose, que era político. Aí escrevem na matéria: “Uma vida movida ao alcoolismo”. Com detalhes que nem eu sei, sabe?

Após o acidente que te deixou a cicatriz no rosto, você passou dois anos reclusa, mergulhada em depressão profunda. O que fez nesse período?
Fui pra faculdade de jornalismo. Para mim era incompreensível o que tinha acontecido com meu rosto. Eu usava microporo para esconder a cicatriz. Então comecei a estudar mais, a conhecer um mundo que eu não conhecia. Um mundo muito melhor, aliás. Mas no segundo ano da faculdade descobri que não conseguia escrever sobre os outros, só sobre mim. E aí me descobri escritora e saí da faculdade. Essa depressão foi muito mais de alimentar um lado meu que ia além da beleza. Eu achava que era a beleza que ia me sustentar. A depressão teve um lado positivo. E eu sou uma pessoa meio depressiva. [Risos.]

Você saiu do interior do Rio Grande do Sul para trabalhar em São Paulo como modelo. Veio com uma mão na frente e outra atrás?
Sim. Vim de ônibus, sozinha, com duas malas. Não tinha mais o que fazer lá. Tinha perdido meu pai, minha mãe, morava sozinha numa casa. E, quando cheguei em São Paulo, eu chorei muito. Estava muito triste. Tinha acabado de perder minha mãe, tinha dois meses que isso tinha acontecido. Mas eu sempre soube que vinha embora.

Por quê?
Desde que nasci esperei minha mãe morrer. Eu vivia na iminência da morte. Eu dormia abraçada com ela porque podia acordar e ela não estar mais ali. Um dia ela não estava mais, e eu me vi sozinha.

Você sentiu muita solidão quando chegou a São Paulo?
Bastante. Principalmente no primeiro ano. Porque aqui em São Paulo as pessoas pensam muito em trabalho. Hoje eu tenho uma família de amigos, mas demorou. E, para uma menina de 17 anos, uma adolescente querendo atenção, colo, foi bem difícil.

Quando chegou a São Paulo, sozinha, sem ninguém a quem dar satisfação, você aprontou muito?
Eu saí muito na noite, curti muito. Por um lado, por raiva. Eu queria viver tudo intensamente.

Você usou drogas?
Eu sempre estive presente no mundo das drogas, mas tinha de ter responsabilidade. Eu precisava sobreviver, às vezes tinha de acordar às 6 da manhã. Eu poderia me perder, porque uma pessoa sozinha, numa cidade grande, com tantas coisas abertas… Mas eu tinha consciência de que queria ser uma pessoa melhor. Sou muito insegura, nunca acho que as coisas estão boas o suficiente na minha vida. Como eu não tive referência de pai, mãe, eu me eduquei, eu me ensinei. Agora eu corro atrás do prejuízo.

Além da tragédia, há outra marca forte em sua vida, que é a passagem pela Casa dos Artistas. Embora em São Paulo você seja reconhecida como uma figura cult, atriz de teatro renomada, no resto do país você é a moça que veio do SBT. Ou seja, Cult e brega ao mesmo tempo. O que mais se aproxima da verdade?
Eu sou mais do lado alternativo, sempre fui assim a vida inteira. Se eu fui pro lado mais popular – nem digo brega, digo popular –, das novelas mexicanas, do reality show, foi tentando sobreviver. No começo da carreira eu só estava preocupada em sobreviver. Quando estava lá no popular, eu dizia: “Gente, tô numa estrada que não é a minha, mas sei que é só uma fase, sei que preciso passar por aqui”. O que eu não sabia é que seria um carimbo tão forte. Eu não tinha essa noção.

Você foi a vencedora do primeiro reality show de confinamento da televisão brasileira. Sente-se a precursora do que viria na sequência, Big Brother e afins?
Claro! Eu fui a primeira que venceu. Ninguém sabia o que era isso. Ninguém conhecia o formato, e foi 59% de ibope no dia em que eu ganhei. Eu nunca assisti a um reality show, na verdade estou sempre trabalhando e poucas vezes vejo televisão.

Alexandre Frota disse à PLAYBOY que, na época da Casa dos Artistas, você não tinha dinheiro para pagar o aluguel. Era tão ferrada de grana assim?

Não, não era assim. Eu estava trabalhando, tinha um carro, sempre fazia um comercial ou outro. Mas é claro que agora estou bem melhor.

Por que você não fez a PLAYBOY logo que saiu da Casa dos Artistas, em 2001?
Primeiro porque levei um susto. Eu não imaginava que ia ficar tão conhecida, que teria tanta popularidade. Fiquei desnorteada, fui fazer novela mexicana. Como eu nunca tinha feito novela antes, exagerei demais em cena.

O que aconteceu?
Eu sou dramática e exagerei demais. Foi um overacting que eu não queria. Tanto que, depois da novela, fui fazer teatro, voltei para a minha estrada alternativa, fiz sete peças em três anos. Mas não fiz a PLAYBOY porque estava muito perdida. E as pessoas não entendiam, porque sempre fui muito liberal com meu corpo.

E o que te fez, em 2007, mudar de ideia?
Eu tinha acabado de voltar de Nova York – tinha ido lá para estudar –, e o meu agente me perguntou por e-mail: “Bárbara, você quer fazer agora?” Eu falei: “Quero. Primeiro porque quero guardar uma grana. E segundo porque estou me sentindo bem, estou mais madura”. E topei.

Existe um certo estremecimento na televisão com os BBBs que, depois de sair do programa, tentam trabalho como ator nas novelas. Você sente isso?
Sinto, claro. Hoje em dia os que entram no reality show querem notoriedade. No meu caso, eu entrei na Casa dos Artistas pelo dinheiro. Mas pessoas que têm algo a dizer vão ficar. Pode demorar. A estrada pode ser longa, como foi a minha. Demorou nove anos para eu entrar na Globo. Mas, se tem algo a dizer, se é uma pessoa capaz, vai ficar.

A revista VEJA publicou recentemente um perfil a seu respeito em que diz que a Globo finalmente a perdoou pelo seu passado de SBT. Você de fato sofria do “complexo de SBT”?
Não tenha dúvida de que havia esse pré-conceito. Eu tinha muita cara de SBT, mas não tinha noção disso. Fui sondada várias vezes para fazer novela e nunca chegava no gol. Batia na trave.

Isso te chateava?
Não, eu acho que aconteceu na hora certa. Eu fui sondada para fazer O Clone. Era um personagem do mundo das drogas. Não deu certo. Demorou nove anos, mas chegou a hora. Teve preconceito? Teve. Mas eu respeito totalmente essa espera da Globo. Eu sabia que ia chegar o momento e enquanto isso fui trabalhando. É óbvio que você quer fazer uma novela da Globo. Para uma atriz, a Globo é uma vitrine.

Curioso que você interpreta uma alcoólatra e, noutra vez em que foi sondada para trabalhar na Globo, deveria interpretar uma drogada. Você tem cara de drogada?
De junkie. [Risos.] Sempre no papel de sofredora, de louca. Eu ia fazer no teatro As Meninas, da Lígia Fagundes Teles, adaptado pela Maria Adelaide Amaral, e era o papel da drogada. Acho que faço bem esse papel. Deve ter o physique du rôle, né? Se tá dando certo, por que não? Eu sei que não sou perfeita, tenho consciência disso.

Como assim?
Na televisão tem muita gente bonita. Eu fico impressionada com a beleza. É muita gente bonita! Porque eu sou uma pessoa mais pra esquisita. Não sou uma mulher perfeita, sou uma mulher interessante.

Esquisita como?
Eu uso a palavra esquisita, mas não é essa a palavra. O fato é que eu tenho uma cara mais junkie do que realmente eu sou. Então eu posso usar isso nos personagens, e uso bem. Tenho uma loucura dentro de mim que consigo controlar na minha vida, mas que uso nos personagens. Tem uma carga dramática dentro de mim que posso usar pra isso.

Você é uma figura dramática num ambiente em que as aparências são muito importantes.
Muito, muito.

Isso não te causa um estranhamento?
Mas é aí que você se diferencia. Eu acho que a televisão está precisando disso, de pessoas normais e reais. Não só de pessoas lindas. O público busca a identificação. Então, quanto menos eu estiver maquiada na TV – maquiagem no sentido de máscaras –, mais eu vou chegar ao público. Eu tenho de ser normal. Porque na TV tem muita beleza. Pode até confundir sua cabeça, você fica totalmente transtornada.

Você fica?

Eu fico! Ainda bem que eu to fazendo análise, porque é muita gente bonita. É muita perfeição, e você já não sabe mais… Você perde um pouco o senso, os teus padrões… Como é que eu vou te dizer? A tua autoestima pode baixar, porque você contracena com pessoas belíssimas. Só que cada um é cada um. A novela é isso, um conjunto de personagens, e tem de ter pessoas lindas, pessoas normais, pessoas feias, pessoas gordas… Mas isso balança bastante, viu?

Te balançou?

Nossa! Eu fico impressionada com a beleza das mulheres lá na Rede Globo. É um absurdo como ali tem mulher bonita.

Quem?
Várias. Não é uma só. Mas você tem de ver também que às vezes a beleza acaba em cinco minutos. Ou menos de cinco [risos]. Tem pessoas que eu vi a primeira vez e achei lindas, e dois dias depois a beleza foi pro lixo.

Você vivia entre as atrizes paulistas, aquelas moças pálidas, e agora trabalha no Rio, no Projac, com uma gente bronzeada e sarada. Não se sente um peixe fora d’água?
Eu sempre me sinto. Não é por causa do Rio de Janeiro.

E na Globo?
Você sabe que não? Eu tive uma recepção muito boa. No começo eu pensava como ia ser recebida, por vir de outra emissora, mas todo mundo, da menina do café até a maquiagem, todo mundo me deu boas-vindas. As pessoas me diziam que sabiam que um dia eu iria pra lá. Comecei a gravar em julho e não me sinto nada encabulada. Tô no meu ambiente. Na televisão se espera muito e, enquanto isso, se conversa muito. Você é pago pra esperar também. E eu também preencho meu tempo com livros e DVDs. Já li três livros em três meses.

Quais?
Tenho Algo a te Dizer, de Hanif Kureishi, Desonra, de J.M. Coetzee, e agora estou relendo O Estrangeiro, de Camus, que li quando era muito nova. Também estou terminando de ler Após o Anoitecer, de Haruki Murakami. Eu ocupo meu tempo, porque senão dá um vazio muito grande.

Por que você acha que a Renata, sua personagem, tem aparecido cada vez mais na trama?
Na primeira leitura, o Manoel Carlos [autor da novela] falou: “Se eu não tô gostando, eu mato. E, se eu tô gostando, ele vai crescer”. E a Renata está se desenvolvendo porque essa doença que ela tem, a drunkorexia, é muito forte na sociedade. Eu não sabia, mas tenho amigas, pessoas muito próximas, que sofrem sem saber. E, também, o Manoel Carlos está gostando do meu trabalho, tá vendo que eu posso render. Ele é meu padrinho porque foi quem acreditou em mim quando muita gente não acreditava.

Mas ele te diz isso?
Olha, o que eu recebo de elogios dele… Ele disse que nunca teve receios de que eu era uma puta atriz. Porra, você ouvir isso… Eu acho que virei uma página. Agora é trabalhar muito. Poderiam não me dar essa chance, mas me deram, e agora eu não posso errar. É claro que existe uma carga muito forte nisso de não poder errar. Só tenho uma cena por capítulo, tenho de dar tudo de mim. É minha entrada na Rede Globo, meu Deus do céu. Pra muita gente é meu primeiro trabalho. Então vou agarrar essa chance que me foi dada com unhas e dentes.

O crescimento de seu papel não provoca ciumeira entre os outros atores?
Talvez sim, mas não de maneira consciente. Tem mais gente a meu favor do que contra, então eu vou muito mais pelas pessoas que estão torcendo por mim. Eu deleto as pessoas que estão com ciúme. Se ficar pensando nisso, vou ser sugada.

Tem muita gente deslumbrada na Globo?
Muita. Muita gente mesmo. Dá pra entender, são meninas, é gente muito jovem. Mas você não tem de entrar no jogo, não tem de se afetar. E sabe que nessa novela o núcleo é muito bom? Tem a Natália do Vale, a Lília Cabral, o Zé Mayer, a própria Taís Araújo. Todo mundo está interessado em fazer um bom trabalho.

E o José Mayer, hein? Ele não vai te pegar na novela?
Eu falei isso pra ele: “Olha que você tá querendo pegar a Renatinha também. Fala a verdade, você é o maior garanhão”. E ele disse: “Chega de problemas pra cima de mim” [risos]. Não sei…

Mas, se a Renata der mole, ele tá pegando.
Tá pegando! Eu chamo ele de “tio” o tempo todo. E ele diz: “Que tio!” Ai, Zé Mayer… Ele é um amor de pessoa. É um homem bonito, interessante, é o galã da televisão. É histórico! Tem horas que eu olho pra ele e digo: “Puxa, é o Zé Mayer!”