A atriz Christiane Torloni estava quase duas horas atrasada. Mas quando despontou, toda de branco, pedalando sua bicicleta pela calçada da Praia da Barra da Tijuca, qualquer traço de irritação do repórter se desfez. Linda, ela pediu uma água de coco e sentou-se num quiosque de frente para o mar, disponível para a conversa. Não queria ser fotografada. Impossível, argumentou o repórter, privar o leitor de imagem tão bela. Ela cedeu. A tarde caiu, Torloni tirou os óculos escuros, e o bate-papo continuou no restaurante Nativo, no outro lado da rua. Aos 52 anos, La Torloni mantém um charme irresistível. Estrela da novela das 8 da Rede Globo, Caminho das Índias, a atriz combina um passado instigante com um presente consagrador. Nos anos 1980, ela dividiu palanque com importantes figuras políticas durante o período de abertura e acabou conhecida como musa das Diretas ao mesmo tempo que estrelou ensaios pra lá de ousados na PLAYBOY (1983 e 1984) e construiu uma carreira de sucesso entre peças de teatro, filmes e novelas. Foi a entrevistada da edição de março de 1984 da PLAYBOY, mesmo ano em que foi eleita Mulher do Ano pela revista. Hoje, 26 anos depois do primeiro ensaio, continua uma mulher estonteante e é uma das divas da televisão brasileira. Na política, segue erguendo bandeiras. Sua preocupação agora é com a defesa da Amazônia.

Christiane nasceu em São Paulo, filha de atores de teatro, e mudou-se com a família para Ipanema quando tinha 1 ano. Aos 19, fez sua primeira novela: Duas Vidas (1976), de Janete Clair. Logo depois, casou-se com o diretor Dennis Carvalho, com quem teve dois filhos gêmeos. Em seguida foi a vez do psiquiatra-celebridade Eduardo Mascarenhas, depois o artista plástico Luiz Pizarro, e há quase 15 anos ela está casada com o diretor de televisão Ignácio Coqueiro, apesar de não dividirem o mesmo teto. No cinema, Christiane participou de produções emblemáticas dos anos 1980, como O Beijo no Asfalto (1981), Eros, o Deus do Amor (1981), Rio Babilônia (1982) e Águia na Cabeça (1984). Na TV, esteve em novelas de sucesso da mesma época, como A Gata Comeu (1985), Selva de Pedra (1986) e Kananga do Japão (1989).

Em 1991, a atriz interrompeu a carreira por causa da morte de um dos filhos, então com 11 anos, num acidente com o carro que ela manobrava. Mudou-se para Portugal, onde viveu por três anos. Na volta, retomou a carreira na TV com a minissérie Amazônia – De Galvez a Chico Mendes (2007) e com novelas, como Torre de Babel (1998), Mulheres Apaixonadas (2003), América (2005) e, agora, Caminho das Índias (2009). Na conversa com o repórter Felipe Zylbersztajn, Christiane se mostrou muito segura, sem rodeios nas respostas. Pontuando suas falas com muitos risos e ocasionais gargalhadas, foi sempre direto ao ponto. “Sou uma pessoa assim mesmo. Ágil e rápida. Gosto bastante de bicicleta por isso também. Eu poderia ter vindo com o meu carro, que é de corrida [uma BMW]. Mas prefiro a sensação física da liberdade, sentir o vento no rosto. Fora que pedalar é politicamente correto, pois não polui o ar.”

Isso é que é consciência ambiental! Você é do tipo que xinga as pessoas que jogam lixo no chão?
Não. Não posso mais me expor desse jeito. As pessoas estão armadas hoje em dia. Quando era mais nova, eu parava o carro até quando via casal brigando na rua. Mas deixei de fazer isso. É perigoso. Hoje, se a pessoa vai embora, eu vou lá, recolho a lata e jogo no lixo. [Risos.]

Essa preocupação política com o meio ambiente, explícita no manifesto “Amazônia para Sempre”, começou quando você fez a série Amazônia – De Galvez a Chico Mendes?
Sim. Quando fomos gravar no Acre, no segundo semestre, a coisa pegou. Era a época das queimadas, e até as 3 da tarde tinha uma espécie de fog, só que era fumaça de coisa queimando, tem cheiro. No caminho para o local de gravação, que ficava a uma hora e meia de Rio Branco, você ia vendo fazenda, fazenda, fazenda, fazenda, gado, gado, gado e a fumaça. É um horror. É Auschwitz. Eu e Victor [Fasano, ator] visitamos um seringal, e foi uma experiência linda, pois tinha um primo do Chico Mendes que andou conosco por lá. O Victor é ambientalista há anos e entende muito disso, então ficava perguntando pro sujeito: “Aquilo ali é tal coisa, né?” E o cara meio desconfiado com aquilo. Pouco depois, nós entramos no seringal e, quando olhei, estavam os dois abraçados. Foi tão bonito… A gente saiu de lá mudado. Na mesma noite, a gente esteve com o Juca [de Oliveira, ator] e não dava pra saber quem chorava mais. O Juca já queria escrever um manifesto desde a época em que gravou a série Mad Maria [2005]. Aí falamos: “Então vamos fazer!”.

Você já leu o perfil falso do Fasano no Twitter?
Não. Será que ele sabe que isso existe? [Risos.] Não tenho tempo para gastar com Twitter.

E para assistir a novelas?
A gente tem de assistir, né? É importante. Você não precisa seguir as tramas… Mas não tenho o hábito de ver televisão. Depois de uma hora, começo a ficar indócil, entendeu? Eu vejo televisão hoje em dia de uma maneira um pouco perversa, no sentido daquele que faz. Um olhar clínico.

E como esse seu olhar percebe a teledramaturgia brasileira de hoje?
Acho que a teledramaturgia brasileira é como uma mina. De vez em quando aparece um diamante do João Coragem. A Favorita [2008] é uma novela assim. Qual é seu segredo? É uma novela que volta para um padrão em que você tem apenas 30 atores, como nas novelas da Ivani Ribeiro. É trabalho feito em cima dos atores, muito difícil, em que se trabalha feito um estivador, mas que devolve ao espectador um olhar muito cirúrgico. Não sei quantos atores temos em Caminho das Índias, mas às vezes as pessoas comparam essa novela com O Clone [2001]. Eu não acho comparável, pois Caminho são duas novelas numa só, com cinco frentes de gravação. Acho que a gente ficou melhor na teledramaturgia, mais ousado. Mas é claro que acontecem acidentes de percurso.

Pode nomear um desses acidentes?
Ah, Os Mutantes [TV Record] é um acidente, não é? E, por incrível que pareça, dá Ibope. Eu nunca fiz nada infantojuvenil porque implico com isso. Nem na novela das 6 eu achava que estava fazendo uma coisa infanto-juvenil. Não subestimo a capacidade nem a inteligência do espectador brasileiro. Ele sabe julgar. E, quando não gosta, a cabeça do ator já está a prêmio ali, ó.

Em termos de atores, você se lembra de algum “diamante” que tenha surgido nos últimos tempos?
Nunca vi um lugar pra surgirem tantos atores e jogadores de futebol como no Brasil! É inacreditável. A menina que fez a Emília no Sítio do Pica-Pau Amarelo, Isabelle Drummond. Ela vai bem. Gosto de olhar quando tem essa idade, de menos de 10 anos. O Bruno Gagliasso [ator que interpreta o filho esquizofrênico de Torloni em Caminho das Índias] está fazendo um trabalho de alto risco, né? Você tem olhado o que ele tem feito? Uma representação totalmente artaudiana. O corpo a serviço de tudo. Ele está se estraçalhando em cena. De vez em quando ele sai que… Só chorando junto, entendeu? Ele sai tão machucado, e é tão bonito esse salto sem rede. Eu já falei pra ele: “Trate de botar uma rede que você precisa sobreviver a este e a outros personagens”. O risco de vida que se corre em cena, as pessoas não têm ideia do que é. Por isso que tem gente que infarta, que tem AVC…

Os reality shows estão tomando espaço das novelas, dos atores?
Eu não tenho uma visão tão corporativista da coisa, não. A gente sempre é despertado em algum lugar. Você não vê a Grazi [Massafera]? Ela é interessante. Teve uma passagem pelo Caldeirão do Huck e foi muito bem. Você vê claramente que ela poderia escolher ficar numa área de show e está caminhando para o lado de atriz. A única restrição que eu faço aos reality é o horário em que eles vão ao ar. Isso eu acho complicado.

Em que sentido?
É muito cedo. E você tem Capitu, Hoje é Dia de Maria, Amazônia perto da meia-noite. Morro de pena. Numa televisão aberta! Você está dando uma informação histórica à qual essas pessoas não teriam acesso! Mas o ser humano é voyeurista mesmo.

Em Caminho das Índias, você interpreta Melissa, uma dondoca sempre preocupada com a aparência, com um filho que sofre de esquizofrenia. Como foi montar esse personagem? Tem alguma relação com a vida real?
Tenho essa simpatia pela loucura há mais de 20 anos. Eu li toda a obra do [Antonin] Artaud [dramaturgo francês, 1896-1948], que ajuda muito o ator a se entender. É um ícone para mim, um mentor. Conheci o trabalho da Nise da Silveira [psiquiatra brasileira, 1906- 1999] por intermédio da Pina Bausch [dançarina e coreógrafa alemã, 1940-2009]. A minha história com esse tema deu os primeiros sinais em América, quando fiz a cleptomaníaca Haydée. E já fui casada com um psiquiatra [Eduardo Mascarenhas]. Devo gostar de loucura, né?

Quem é o melhor autor de novelas da atualidade?
Ah, eu estaria cometendo uma injustiça se citasse apenas um. Esse menino, [João] Emanuel [Carneiro], que escreveu A Favorita, mandou muito bem. E tem os clássicos, né? A Glória [Perez], o Maneco [Manoel Carlos], o Silvio [de Abreu], o Walcyr [Carrasco], o Gilberto Braga…

Qual é a grande qualidade de Glória Perez como autora?
A coerência. Os personagens dela não enlouquecem no meio da trama. Apesar de você estar numa obra aberta, eles têm um fio condutor, você pode confiar naquilo. Esse é o grande problema da obra aberta, né? Você recebe um personagem do qual sabe pouco, começa a conhecê-lo, e de repente o cara surta?!? Isso é uma sensação muito desconfortável para um ator. Se isso for um truque de dramaturgia, ok, bárbaro. Mas, se for uma incoerência do autor, você fica sem saber no que confiar. O ator, quando está enganado sobre um personagem, está enganando o público também. E, no fim das contas, o que aparece para o público é o ator.

Falando em obra aberta, em Torre de Babel [1998], você interpretou uma lésbica que no meio da trama acabou morta…
[Interrompendo.] Explodida!

Mas a morte da sua personagem foi adiantada?
Não. Foi no timing, inclusive porque eu já tinha assumido um outro compromisso profissional. O que eu acho que não tinha sido previsto era a morte das duas mulheres. A minha personagem tinha de sair de cena para abrir caminho para a outra.


A reação do público de rejeitar o casal de lésbicas te impressionou de alguma forma?
Eu achei ótimo! Criar polêmica é importante. É muito ruim quando você faz um trabalho e não acontece nada. Tem alguma coisa errada.

Mas você imaginou que seria tão forte?
Com certeza. Você está falando de uma novela que tem 11 anos. O homossexualismo masculino na teledramaturgia é um pouco farsesco. Faz parte da nossa cultura. Sempre vai ter aquele veado soltando pena… Isso o público absorve normalmente e até acha graça. Agora, vai mexer com mulher! É muito complicado. O homem tem muito medo do homossexualismo feminino. O masculino ele simplesmente desabona. Eu achei o fato de o Jean [Wyllys] ter ganhado o Big Brother em 2005 um avanço. O reality tem esse valor, você abre um debate sobre coisas que as pessoas não teriam muita coragem de falar de modo geral. Esse menino trouxe um conteúdo tão bonito, ético, de princípios tão claros. Para mim foi uma grande surpresa. A sociedade precisa se apoiar num instrumento para poder se mostrar, se entender. É muito importante.

Você já havia interpretado uma lésbica antes, no filme Ariella [1980], em que contracenou com Nicole Puzzi.
Mas é uma outra mídia. No cinema você compra um ingresso. A grande discussão de Torre de Babel é que nós recebemos uma grande quantidade de mensagens de famílias dizendo: “Meu filho deve – ou não – assistir isso”. É muito complicado você botar no horário nobre cenas que possam de alguma maneira constranger uma família. É por isso que acho cedo os horários em que passam os reality, que têm cenas constrangedoras para uma criança de 10 anos que estará acordada a essa hora. Acho forte.

Mas na novela pode?
Novela é ficção. E existe um controle muito claro. E tem de ter! É uma concessão, televisão aberta.

Ainda sobre Ariella, você ficou chateada…
[Interrompendo.] Ah, mas isso já faz parte de outra encarnação, sabia? Tem coisas que já estão tão antigas… [Mudando de assunto.] Você gostaria de tomar alguma coisa? O chope daqui é bem tirado, hein? [Christiane chama a garçonete e pede o champanhe mais seco da casa para ela.] Prosecco me dá uma dor de cabeça infernal…

A mim também. Você se incomoda em falar da época do Ariella?
Não. Eu só não vejo interesse nisso. Você manda muito pouco no cinema. É a mídia em que você tem menos poder sobre o produto final. No Ariella, houve takes que foram inseridos no meio das minhas cenas. Mas eu acho que isso acontece muito na carreira. Você não tem agente de atores no Brasil. Não existe essa estrutura.

Takes de sexo explícito?
Exatamente. Isso deu uma confusão do tamanho de um bonde na época. Eu tenho pai e mãe, né? Mas ali a barra era muito pesada. Para mim foi uma sinalização. Como tinha pessoas amigas envolvidas no filme, eu tive de ficar quieta. Foi muito ruim.

Você trabalhou também com o diretor Walter Hugo Khouri, que era célebre por filmar cenas quentes.
Aí é que está a diferença! O Walter Hugo Khouri [1929- 2003] era um homem incrível, cara.

Como ele era no set?
Um lorde! O Walter era um daqueles homens que você dizia assim: “Obrigado por ter me escolhido para eu fazer parte de uma obra sua”. Ele escolhia uma atriz, e ela era a diva dele. Tudo era para você. Eu olhava a luz e pensava: “Nunca mais ninguém vai me fotografar desse jeito”. São homens que não nascem mais. Pergunte ao Tarcísio Meira sobre quando a gente filmou Eu [1987], no litoral de São Paulo. Era espetacular, cara. A casa onde a gente filmava, veio um chef cozinhar para nós, o elenco era bárbaro, as músicas eram maravilhosas, os textos… O ambiente era maravilhoso. A gente está falando de uma coisa chamada star system, que está acabando. É uma pena.

Como ele fazia para deixar as atrizes à vontade nas cenas eróticas?
Cuidando, dirigindo. Aquilo não é para ser de verdade. É como uma coreografia. As cenas de sexo não são cenas de verdade. Para serem bem atuadas, têm de ser bem coreografadas! Ou fica feio. Na vida real, pressupõe-se que a cena não está sendo filmada. Aos olhos da paixão, a luz é a melhor. O amor fotografa a coisa de outra maneira. Na ficção não. Tem de ter um fotógrafo maravilhoso, uma luz genial, um diretor que fale: “Não pode botar a mão aí que vai ficar feio, ordinário”. Essa gentileza que muda a coisa de uma categoria para a outra. Depois do Ariella, você pode observar que talvez eu tenha feito cenas sem nenhum tipo de inserção até mais fortes! Eu já fiz Águia na Cabeça [1984], que é um filme forte, e Rio Babilônia [1982]! Você acha que, se eu tivesse problema em ser erótica, teria posado duas vezes para a PLAYBOY?

Vamos falar sobre a PLAYBOY, então!
Ah, mas temos de falar disso, né? [Risos.]

O que significava posar nua no começo dos anos 1980? Havia uma postura libertária, anticensura, com essa atitude?
Para mim não tem essa conexão. E olha que eu sou uma pessoa politizada pra burro! Sempre fui. Mas o nu tem um outro caminho para mim. Um caminho de revelação. Acho que tem a ver com a maternidade também. O primeiro ensaio, que nem era de nu artístico, foi com a fotógrafa Marisa Alvarez Lima, que é um ensaio lindo para a revista Status. Era 1979, e eu tinha tido as crianças havia dois meses. As fotos são renascentistas. Estou sempre com uns lenços, só aparece um pouco de seio.

E com o Luiz Tripolli, que fotografou você na PLAYBOY?
Eu e o Tripolli, a gente teve um encontro excepcional. Eu já tinha visto as fotos dele antes. Lembro que eu estava dançando na boate Hippopotamus e tinha um sujeito me olhando havia muito tempo. O Daniel [Más, jornalista, 1943-1989] veio falar comigo que ia me apresentar a uma pessoa que queria me fotografar. Era o Tripolli. Ele já estava me fotografando, vendo o que ia acontecer. A partir dali fizemos um trabalho que eu acho que culmina com o ensaio em preto e branco, de 1984.

Ah, o célebre ensaio em preto em branco.
Quando a PLAYBOY me convidou, eu disse: “Ih, Luiz, agora eu acho que já passou da época, não dá mais. Mas tinha o Mário de Andrade [ex-diretor de redação da PLAYBOY], que era bárbaro. Isso faz a diferença! As pessoas certas, na hora certa, no lugar certo. Se você olhar, naquele tempo, aí, sim, estamos saindo da ditadura, começando um processo de abertura… Quando eu fotografei pela primeira vez, na Status, eu tinha 22 anos. Depois fui me vendo cada vez mais nessa situação da abertura política que você está falando, e isso não era, de maneira nenhuma, contraditório com o meu caminho, com a minha pesquisa, de saber o que fazer com o meu corpo. O Luiz, para mim, é um grande artista. Esse encontro está dentro de uma estrutura muito interessante para o Brasil. E o Mário está ali. O Mário comprava umas ideias inacreditáveis.

O ensaio saiu em um formato bem diferente. Era preto e branco e vinha num livro muito bonito.
Eu só fiz o livro porque o Mário falou assim: “Eu já sei que você vai nos pedir uma coisa que é para não fazer”. Eu disse: “Vou. Um ensaio em preto e branco”. Aí a gente arrebentou, pois foi a última vez que eu posei. É uma idade de ouro [27 anos], um corpo de ouro, sabe? Era tudo tão perfeito que a gente fotografou em preto e branco e acabou. O Tripolli era um parceiro. Pegava os negativos, uma tesoura e me chamava. [Ela simula que está cortando algo.] Zuuuft! Sobrava apenas um. Ninguém via o resto.

Aquele ensaio é ousado até para os padrões atuais da revista. Foi para arrebentar mesmo?
Ah, foi.

Você já previa o resultado final?
Sim. Não é como um filme em que você pode estar exposta a uma coisa que não sabe o que vai acontecer. As fotos são como pinturas. Tem uma das fotos em que eu estou com um cigarro… Se você olhar, a cinza está perfeita [veja na pág. 78]. Eu fiquei parada naquela posição o tempo de carburar o cigarro inteiro! Quanto tempo demora um cigarro? Fazer um trabalho desse é de enorme responsabilidade. Eu acho todos bonitos, mas o último trabalho é indiscutível.

É uma coisa meio punk. Como foi escolhido esse tema?
É a época de Blade Runner [1982]. O tema estava no ar. O ensaio é muito teatral, tem uma violência naquela estética, uma agressividade. Você vê os figurinos que a Maria [Maya, atriz que interpreta a filha “com estilo alternativo” de Christiane em Caminho das Índias] usa na novela, com as meias rasgadas… Eu fiz isso há 25 anos! O Luiz tem uma coisa engraçada que é assim: você ficava três horas se arrumando. Aí ele ia lá para ver e dizia “Pode lavar a cara, o cabelo, e vamos começar tudo de novo”. Tinha uma coisa de “vai ser desse jeito”. Você sabia que estava entrando numa aventura de 12 horas de trabalho e que ia sair uma coisa única. Isso tem a ver com o teatro. Posso entrar tranquilamente pela noite. Um bom vinho, uma boa mesa, boa música, e a coisa vai andando. Mas com muito controle e consciência.

E hoje?
Eu não sei se gosto do que é fotografado hoje em dia. Gosto de algumas coisas, dificilmente de um ensaio inteiro. Não é nem da PLAYBOY particularmente. Acho que tem um escracho, que é uma palavra chula. Mas a coisa em si é chula também. A gente entrou num “hortifrúti” sexual muito estranho. O ensaio que fiz é difícil para quem vê. Não acho que seja um ensaio que o cara tem um drive sexual imediato. Não tem! A proposta ali não era aquela. [Risos.] Você fica meio assim quando vê, entendeu? E acho que nem todo mundo que viu gostou. Agora, chulo ele não era. A minha trajetória com o Luiz tem a ver com o perigo. A coisa chula não é perigosa, é ordinária. Você olha, consome e vai-se embora. A coisa artisticamente perigosa muda você. Muda o seu olhar. A ideia é essa. A nudez para mim vira ideológica quando, no último ensaio que faço pra PLAYBOY, vem a barganha. E então digo que quero fazer o entrevistão [em março de 1984], que era um espaço masculino. Aquilo é muito interessante. No mesmo trabalho, você tem aquele ensaio em preto e branco e o entrevistão comigo.

Nessa entrevista de 1984 você disse que, a cada campanha política, fazia uma matéria nua “só para sacanear o filho da puta” [que seriam os conservadores que falavam que não era possível posar nua e fazer política ao mesmo tempo]. Como era isso?
Você responde às rédeas que tentam colocar em você. No livro da PLAYBOY, eu digo: “Eu quero tudo”. É isso. Eu quero a minha liberdade. Sou eu que pago pela minha vida. Uma mulher que paga suas contas, escolhe o que diz, o que faz com o corpo dela, com quem ela dorme. Nós temos atrizes jovens, e de vez em quando eu ouço uns comentários do tipo: “Ah, fulana de tal come todo mundo”. E eu digo: “Pode! Está pagando”. Está pagando! Dorme com quem ela quiser, e aí? Os homens passaram milhares de anos sendo os comedores; quando as mulheres começaram a ser, aí vem a tarja moralista: “vadia”. Opa! Vamos com cuidado.

Apesar de já ser uma atriz que, como disse, pagava suas contas, você perdeu a virgindade tarde, aos 20 anos, com o diretor Dennis Carvalho, com quem acabou se casando. Você, apesar de tudo, tinha uma postura conservadora em relação ao sexo?
Não é um conto de fadas? [Gargalha.]


Você procurou um conto de fadas?
Não. Acho que deve ter a ver com algum tipo de romantismo, né? Quer coisa mais romântica do que essa? Seu primeiro homem ser seu marido, o pai dos seus filhos… Talvez eu tenha essa alma do século 14 no século 21. Faz parte. É uma escolha pessoal e intransferível. Não teve sociedade nenhuma nem cartilha nenhuma, ninguém que tenha me empurrado para coisa alguma. O que não deixa de ser o meu estilo. Uma história do século 20, né?

Até porque, depois de Dennis Carvalho, você se casou com seu terapeuta, Eduardo Mascarenhas, um cara com uma visão libertária sobre relacionamento.
É só você ver os artigos que ele escrevia para o jornal O Dia! Só os artigos sobre o complexo de Édipo… Eu perguntava: “Mas, Eduardo, pode publicar isso aqui?” [Risos.]

Falava-se até que vocês dois eram um exemplo do “novo casamento”. Como era isso?
Os anos 1980 no Brasil são uma década de grande libertação mesmo. Tem uma comemoração, estávamos saindo de anos cinzentos. E também tem uma moral que está acompanhando tudo isso. Adventos como a pílula anticoncepcional deixaram as mulheres livres. Os homens que tinham a idade do Eduardo, com quase 40, também estavam finalmente respirando, pois haviam sido criados de uma maneira barra-pesada. Então, quando nos conhecemos, foi uma combustão! [Gargalha.] Esse “novo casamento” dava a possibilidade de se separar sem grandes barreiras sociais. Hoje, eu tenho um casamento muito mais novo com o Ignácio Coqueiro [diretor de televisão], pois moramos em casas separadas. Mas na época, nos anos 1980, nem eu nem Eduardo estávamos preparados para isso. Tanto que nos casamos no papel mesmo e moramos juntos.

De onde veio esse seu engajamento político?
Da minha estrutura familiar e da educação que a gente recebia no colégio. Existia uma matéria chamada Educação Moral e Cívica, que depois virou Organização Social e Política Brasileira. Hoje em dia não existe no currículo nenhuma matéria que fale sobre cidadania. A Lúcia Hipólito [jornalista política] foi minha professora de história internacional, e o Chico Alencar [deputado federal/PSOL-RJ], de história do Brasil. Por que você acha que os dinossauros continuam no parque jurássico de Brasília? Estamos há 20 anos deseducando as novas gerações!

É. Você foi a musa das Diretas lá em 1984, e hoje ainda temos José Sarney como presidente do Senado. Isso te frustra um pouco?

Realmente eu seria muito mais feliz se o senador [José] Sarney tivesse ido terminar a vida pública dele na Academia Brasileira de Letras. Não era melhor ter deixado o Tião Viana [PT-AC] entrar, com todas as contradições que isso traz? Seria melhor .

Nas campanhas pelas eleições diretas, você dividiu o palanque com políticos como Lula, o deputado Ulysses Guimarães, o governador Franco Montoro e o hoje ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Você se decepcionou com algum deles?
Não me decepciono só com os políticos, mas com o povo de modo geral. A capacidade do brasileiro de voltar para casa com o rabo entre as pernas é triste. A Parada Gay em São Paulo é capaz de botar 3,5 milhões de pessoas na rua! No caso do Mensalão, você não conseguiu botar meio milhão nas ruas para exigir que fosse dada uma satisfação sequer ao país. A Parada Gay é um ato de cidadania. E por que não conseguimos mobilizar a cidadania contra a devastação da Amazônia, por exemplo? Contra essa bagunça que está acontecendo no Senado Federal com nosso dinheiro?

Quem são seus ídolos na política?
Nunca tive ídolos.

Por que você apoiou o PMDB nos anos 1980 se, no meio artístico, o PT era o partido da moda?
Intuição! [Gargalha.]

A sua intuição estava certa?
Mas é claro que estava. Eu só sinto muito que o PSDB esteja dando esse show de incompetência na oposição. Se o PT tivesse a mesma oposição que o PSDB teve quando esteve no governo, olhe como este país iria para a frente. Mas o Brasil não está bem? Está muito bem, mas acho que poderia estar melhor.

Vamos falar de intuição política, então.
[Christiane gargalha.]

Em sua primeira entrevista para a PLAYBOY, você declarou que gostava do Lula, então um líder sindical. Você vê muita diferença entre aquele Lula de 1984 e o de hoje?
Ele tem seus méritos históricos. Mas não acho um bom exemplo uma pessoa que finalmente chega lá e diz publicamente que não precisou estudar para isso. O poder é muito complicado. Só quando você chega perto é que vê como a manutenção daquela posição pode criar doenças que daqui a dez anos a gente vai herdar. Do fundo do meu coração, quando o Lula ganhou a primeira eleição, que eu vi aquela mobilização nacional… Cara, eu me emocionei tanto, chorei tanto… Tinha de ter tido uma faxina naquilo ali. O problema é que o PT traz os ranços de sua própria formação e isso ganhou um espaço no governo que aparentemente não tem limites. Quando o PT estava na oposição, exigia uma transparência que eu não vejo acontecendo agora. Tenho o maior respeito pela trajetória política do Lula na contramão de uma direita altamente perigosa que veio tomando conta da política internacional, mas não acho que o presidente seja mais de esquerda há muito tempo. Vejo várias pessoas que votaram nele com muita convicção e que hoje estão bastante frustradas. Quando finalmente se devia mexer em situações dramáticas como a da educação, o sistema penitenciário e a reforma tributária, isso não sai. Por que ele não mexe nisso se tem esse respaldo de 69% de aprovação?

Bom, finalmente a pergunta inevitável: você vai posar novamente para a PLAYBOY?
O que acontece é o seguinte: as revistas não têm cacife para me bancar. Hoje, aos 52 anos, se eu pegar o patrimônio que eu valho… É semelhante àquela história do envelhecimento do vinho. Vamos dizer que eu sou o produtor do vinho Torloni. Eu sei quanto ele vale. Não posaria novamente a menos que fosse uma coisa que realmente mudasse o meu patrimônio.

Como é ser sexy e desejada, um belo vinho, aos 52 anos?

Não penso nisso, nesse sentido. Penso em mim de maneira bastante holística. Olho o corpo muito menos como um objeto [risos], mas como um instrumento pelo qual eu consigo expressar o belo, o maldito, os ideais, as bandeiras, que agora voltaram para a minha vida num ciclo bem interessante.

Que história é essa de ciclo?
As bandeiras voltaram, né? Houve a bandeira pelas Diretas, agora é o momento da bandeira pela defesa da Amazônia. Então a vida é uma coisa muito cíclica. Eu faço praticamente as mesmas coisas que fazia aos 22 ou 25 anos. Isso, de alguma maneira, treinou o meu corpo. Se eu acho que sou uma mulher sensual? Acho, acho pra caramba. Mas eu já era aos 15! Seria estranho se eu tivesse deixado de ser. Hoje de manhã eu estava fazendo ioga. Por quê? Porque acho que é a coisa mais difícil que eu posso fazer agora com o meu corpo! Não dá para você viver os anos 1980 no século 21! O fígado não é o mesmo. [Risos.] Tem de observar a natureza.

Hoje você bebe menos do que bebia na década de 1980? Quais são os cuidados que toma com seu corpo?
Eu bebo muito mais água hoje do que bebia há 25 anos. Pelo menos 1 litro a mais. Tem o sono também. Tenho necessidade de dormir mais. E também não fumo mais. Aquela que lamenta ter parado de fumar, né? [Risos.] Mas faz mal! Eu sei! O problema de começar um processo de esclarecimento é esse. Tem um doce prazer de você saber seus limites também. Mas não tenho a menor nostalgia. A única nostalgia que tenho na minha vida é a do filho que perdi. Do resto, não tenho nostalgia de nada. Não tem nenhum momento de ouro que eu tenha vivido, que hoje eu diga “Aaaah…”. Momento de ouro é poder estar aqui, tomando champanhe, conversando de frente para o mar num lugar gostoso, com saúde, trabalhando feliz , ser casada com quem eu gosto, sem estar retida em turbulências emocionais. A passagem do tempo é adorável nesse sentido. Não era o Nelson [Rodrigues, dramaturgo] que dizia: “Jovens, envelheçam”? [Risos.]

“A Christiane nunca teve medo de nada”
O fotógrafo Luiz Tripolli conta como foi o polêmico ensaio de 1984
“Christiane Torloni e eu fizemos dois ensaios para a PLAYBOY – um colorido, em 1983, e outro em preto e branco, em 1984. Naquele período, a maioria das atrizes tinha restrições em relação à maneira como iria tirar a roupa. Mas a Christiane nunca teve medo de nada. O que facilitou muito foi o fato de ela ir pra frente da câmera despojada de qualquer tipo de preconceito. Em virtude da segurança que ela tinha em se mostrar, tínhamos a proposta de fazer um segundo trabalho com algo a mais. No ensaio de 1984, varamos a madrugada no estúdio, tomando um belo Chianti. Foi um ensaio grande, que saiu numa edição com capa dura. Isso teve uma repercussão muito legal. A ideia era provocar o leitor. Foi fantástico.

Também teve as tais fotos nas quais aparece o ânus dela. E todo mundo só falava disso. Parecia que não conseguiam enxergar outra coisa. Mas, sinceramente, não foi nada previamente pensado por nós. Eu nem tava enxergando isso àquela hora. Ela estava linda. Fotografei, ampliamos e só depois a gente foi observar que aparecia, mas de uma forma fantástica. Está lindo, e ela nunca criou nenhum problema com isso. Até hoje todo mundo se lembra dessas imagens. São fotos que foram feitas no começo dos anos 1980, mas que são modernas até hoje.”