Marcelo Adnet
Uma conversa franca com um dos humoristas mais engraçados da nova geração sobre feiura, assédio, o dia em que fez piada de policial para traficantes armados, Casa dos Autistas e sua mulher, Dani Calabresa, pelada em PLAYBOY

Na MTV e no palco, o humorista Marcelo Adnet é um sujeito engraçadíssimo. Suas imitações do apresentador Silvio Santos e do cineasta Arnaldo Jabor, para citar apenas dois exemplos, são impagáveis. Adnet também é um ótimo criador de tipos – quando interpreta uma aeromoça ou um narrador esportivo no teatro, sempre leva a plateia às gargalhadas. Na vida privada, no entanto, ele não é exatamente uma pessoa hilária, reforçando a batida tese de que, em trajes civis, comediantes são criaturas realmente sem graça. Não quer dizer que a estrela da MTV seja um porre, mas está longe de ser um palhaço. Marcelo Adnet é simplesmente um cara que se leva muito a sério.
Marcelo França Adnet nasceu no bairro do Humaitá, no Rio de Janeiro, há 30 anos. Cresceu numa casa de músicos – além de seu pai, Francisco Adnet, também atuavam no ramo seus três tios. Só pra contrariar, queria seguir caminho totalmente oposto ao da família. “Eu pensava: ‘Vou ser engenheiro!’”, conta. Na infância, apreciava participar das conversas com os adultos e compartilhar seus gostos. Aos 7 anos, ouvia Tom Jobim – numa viagem com a família para Nova York, pediu às tias que o apresentassem ao ídolo, na época ilustre morador de um apartamento com vista para o Central Park. “A mesa do Tom Jobim era uma zona. Mas encontrei um tradutor eletrônico no meio da bagunça e fiquei brincando com ele”, lembra.
Na adolescência, Marcelo Adnet continuava interessado por tradutores. Aos 14 anos, decidiu aprender russo – e, segundo conta, até hoje consegue ler e escrever no idioma de Dostoiévski. Na escola em que estudava, no bairro carioca do Leblon, era o típico CDF. Tirava as melhores notas em matemática, ao mesmo tempo em que se interessava por história e geografia – pelo menos é essa a lembrança que ele tem de sua vida escolar. “Eu sempre fui um aficionado de cultura geral”, informa.
Marcelo Adnet levava a vida de típico garotinho da Zona Sul carioca até o dia em que conheceu a turma do Teatro Tablado, apresentado pelo humorista Fernando Caruso, então namorado de uma prima sua. Nessa época, Adnet começou a perceber que não havia como negar a vocação artística que herdara da família. Abandonou a ideia de se tornar um profissional de exatas e, no vestibular, escolheu jornalismo. Na faculdade, foi convidado para atuar na peça Z.E., Zenas Emprovisadas, junto com Caruso. “Quando subi ao palco, percebi que aquilo era a coisa certa a ser feita”, conta.
Foi um sucesso. Com o espetáculo, Marcelo tornou-se conhecido no Rio de Janeiro e logo foi contratado para atuar em comerciais, programas de televisão (fez pontas na Rede Globo) e no cinema. Durante a campanha de divulgação do filme Podecrer!, em 2007, deu uma entrevista no programa Rock Gol, da MTV, e ali mesmo recebeu o convite para trabalhar na emissora. A estreia, em 2008, com o 15 Minutos, alçou Adnet ao posto de estrela do humor nacional. “Dois dias após o programa começar, eu já era reconhecido nas ruas”, lembra. Depois disso, ganhou duas novas atrações: o Comédia MTV e o Adnet ao Vivo – ambos atualmente no ar.
Em janeiro, Adnet também está nos cinemas. Em As Aventuras de Agamenon, o Repórter [veja matéria na página 106], ele interpreta o personagem-título quando jovem. O convite foi feito pelos colegas do Casseta & Planeta, que mais de uma vez tentaram levá-lo para a Rede Globo. Até agora Adnet tem recusado todos os convites, com a justificativa de que só sai da MTV para uma emissora que lhe dê igual espaço.
Para entrevistar Marcelo Adnet, a editora Adriana Negreiros viajou ao Rio de Janeiro, cidade onde o humorista tem passado boa parte de seus dias para divulgar As Aventuras de Agamenon – oficialmente, ele mora em São Paulo com a mulher e colega de MTV Dani Calabresa. Na tarde da entrevista, os termômetros marcavam 34 graus e Adnet pediu que a conversa, programada para acontecer no terraço de um prédio com vista para o Jardim Botânico, fosse feita numa sala fechada, com o ar-condicionado no talo.
Com alguma frequência, você é apontado pelos colegas como o humorista mais talentoso de sua geração. De tanto ouvir isso, você já está se achando “o cara”? Eu acredito um pouco nas pessoas. Acho que o que elas dizem tem valor. Então, se um monte de gente diz isso, eu acredito um pouco. Mas também penso que as pessoas que não gostam do meu trabalho não vão me parar na rua, pegar no meu braço e dizer [faz uma expressão angelical]: “Poxa, cara, eu detesto o que você faz! Nooossa, você me irrita taaanto!” Não existe isso. E tenho certeza de que ainda não cheguei a um lugar, há muitas coisas a ser feitas. Portanto, o sucesso não me subiu à cabeça. E também não é do meu feitio ficar me achando muito.
Mas é compreensível que, ao atingir tão rapidamente o nível de popularidade que você atingiu, artistas fiquem deslumbrados e preocupados com a imagem. Isso não aconteceu com você? Eu nunca fui um cara lindo. As pessoas não dizem: “O Marcelo é um cara bonito”. Algumas malucas devem achar, mas, geralmente, eu sou o “cara legal”. E quando subi ao palco pela primeira vez foi para fazer improviso e humor, que são dois estilos que lidam com a imperfeição. Não existem humoristas lindos. Se você parar para pensar, os humoristas são, na sua maioria, feios, e algumas vezes a feiura ajuda o humorista a ter uma cara mais gaiata e bizarra. Nunca fui um cara preocupadíssimo em saber qual era o meu melhor ângulo.



Geralmente, o sucesso vem acompanhado de um maior assédio da mulherada. Com você também foi assim?
Desde que entrei na MTV eu estou com a Dani Calabresa. E a gente ganhou fama junto, como um casal. Eu ouço muito: “Marcelo, você é lindo, maravilhoso, e eu amo a Dani também”. Isso é bonitinho porque você vê que a piranhagem tem limites.
Tem mesmo? Não sei, não…
A piranhagem é ética! Tem limites, sim! Por isso não sou muito assediado sexualmente.
A Dani disse, em entrevista a PLAYBOY, que você nunca broxou. Foi você quem pediu a ela que dissesse isso?
Não [risos]. Mas, olha, eu não me lembro de ter broxado com a Dani. Ela falou a verdade.
Parabéns.
Obrigado! Mas com ela, tá?
Com as outras você broxou muito?
Tive minhas broxadas, mas não contei quantas vezes aconteceu. Não é o tipo de coisa que se conte. Na primeira vez fiquei preocupado, depois vi que era normal.
Lá pela centésima você se conformou?
[Risos.] Não chegou a 100. Mas broxar é uma coisa normal. Isso é muito cruel com o homem porque a responsabilidade não é só dele. A broxação é coletiva. Depende inclusive de com quem você esteja.
Como foi a sua primeira vez?
Aos 17 anos, com a minha primeira namorada. Nós dois éramos virgens. Namorávamos havia dois meses, até que pintou uma viagem para São Paulo. Estávamos no hotel, minha mãe tinha saído para fazer compras, e aí aconteceu. Foi superbonito, maneiro.
Das modalidades mais avançadas de sexo, de quais você participou? Surubas, troca de casais?
Poxa, de nenhuma. Troca de casal eu não consigo conceber.
Por quê?
Eu sou careta. Eu vou entregar a minha mulher para um cara transar com ela na minha frente e vou achar maneiro?!? “Olha que máximo minha mulher com outro! Wow, que barato! E eu tô com a mulher dele!” Não!
Você nunca foi a um clube de swing?
Já recebi convites, mas nunca fui. Teve um dia, depois de um jogo, em que meus amigos chamaram uma menina para ir ao apartamento de um deles. Aí a fulana apareceu e os caras começaram a apertá-la. Eu e outro amigo ficamos olhando aquilo, de fora. A gente começou a rir. Era uma coisa tipo hilária! Quando eles começaram a ir para o quarto, três caras e uma menina, eu e dois amigos fomos embora. Pra mim era uma situação muito mais cômica do que sexual. Nesse sentido sou supercareta.
A sua mulher também contou a PLAYBOY que gosta de dançar as músicas da banda Calypso pelada. Ela já fez isso para você com intenções eróticas? Eróticas, com certeza, não. Cômicas, com certeza, sim [risos]. Eu acho engraçado. Mas também é estranhamente sensual [ligeiramente constrangido]. Eu curto com ela a nossa intimidade. Mas não sou um cara que gosta de espalhar isso. Não sou santo, mas gosto de dividir isso com uma pessoa.
Se nós convidarmos sua mulher para ser capa de PLAYBOY, você nos dá uma força?
Não sei. Financeiramente, é ótimo. Pelo menos é o que dizem… Mas será que vale a pena?!? Ela já falou comigo sobre isso: “Você deixaria?” Eu disse: “O que você acha?” Ela falou: “Ah, mas o porteiro…”
Por que sempre que falam em posar para a PLAYBOY as mulheres pensam no porteiro?
Mas ela também pensou no pai dela, no meu, no agente… Acho que ela não teria coragem. E com certeza eu sentiria ciúme. É sua mulher escancarada lindamente. Mas não proibiria.
A Dani já se queixou, em entrevistas, da existência das “marias-comédia”, as moças que vão para os shows de stand-up com a intenção de se engraçar com os humoristas. Foi um ataque de ciúme ou elas existem mesmo?
Sim, mas as “marias-comédia” têm senso de oportunidade. Elas colam no cara que está começando a bombar. E todo mundo sabe que eu sou feliz com a Dani. É difícil entrar nisso, ainda mais porque é uma relação pública. Se eu tivesse uma mulher engenheira, talvez fosse diferente. Como as pessoas gostam do casal, isso nos protege.
Protege das periguetes e dos caras que queiram jogar um charme para a sua mulher? De tudo.
E o povo também faz a censura. Em qualquer lugar onde a gente está as pessoas tuítam.
Não é chato isso de ser o casal 20 do humor? Uma coisa Fátima Bernardes e William Bonner da comédia?
Não, porque a gente consegue manter as carreiras separadas. E nosso humor é bem diferente.
Quais são as diferenças?
Ela tem um humor mais alegre, eu tento usar as coisas que aprendi. As bichas adoram a Dani, e a mim, nem tanto, porque sou meio heterão. Eu não conheço Britney Spears, Madonna… A Dani é quem me apresenta essas coisas. Ela é mais divertida, e eu sou mais de conteúdo. Ela me ajuda pra caramba a divertir e colorir o meu trabalho, e às vezes eu boto um conteúdo no trabalho dela.
Você estudava russo na adolescência. Por quê?
Os meus amigos estudavam inglês, e eu achava isso muito incômodo. A gente passa o dia inteiro ouvindo músicas em inglês, lendo nomes de restaurante em inglês, nomes de prédios, tudo. Então resolvi estudar o idioma do inimigo, do outro lado da Guerra Fria. Sempre tive atração pelo negligenciado.
Você era um menino esquisitão?
Eu gostava de brincar com a galera do fundo, mas me afastava quando rolava um bullying, e me identificava intelectualmente com os nerds. Sempre gostei de combinar conteúdo com descontração. Ainda sou assim. Na semana passada conheci um jogo geográfico que mostra um mapa do mundo e pergunta onde fica determinada cidade. Aí você tenta marcar e ele te mostra o lugar certo. Como eu conhecia pouco a África, resolvi jogar para aprender.
Como se fala “mulher gostosa” em russo?
Krasivaya zhenshina. O fato de estudar russo não significa que você tenha de ficar trancado no quarto se masturbando loucamente. Você pode estudar russo e encontrar os amigos, jogar bola, entendeu?
E se masturbar loucamente. Quem sabe…
O barato é não vestir o estereótipo.
Você era uma criança engraçadinha, dessas que a mãe chama pra fazer graça para as visitas?
Não. Eu tinha fixação em conversar com os adultos. Gostava de participar das rodinhas, discutir os temas relevantes. Eu era mais estranho e interessado do que engraçado. Na verdade, até hoje eu sou assim. As pessoas me conhecem e falam: “Ah, você não é assim, tipo hilááááário”. Eu gosto de falar sério com as pessoas, não gosto de ser o cara que fica fazendo gracinhas e piadinhas o tempo todo. Não suportaria ser assim. Gosto de exercer o mau humor. O mau humor é uma fonte incrível para o bom humor. Então eu não era uma criança palhaça. Já o meu pai e o meu avô eram piadistas. E eles me influenciaram muito, tanto quanto Peter Sellers, Monty Python e o bicheiro da esquina da minha rua.
Quando você começou a perceber que era um cara engraçado?
Quando eu era adolescente, conheci o [humorista] Fernando Caruso. Ele namorava a minha prima Joana. Ele era “o cara engraçado” e me apresentou pra galera do Teatro Tablado, inclusive o [ator] Mateus Solano. A gente devia ter uns 14 anos. E eu, que era um cara meio careta na vida, vendo aqueles caras juntos, se divertindo, fiquei muito cativado.
Careta como?
Com os meus amigos de colégio, algumas coisas eram consideradas erradas. No teatro, a galera é muito livre. Com 14 anos, os caras já são aveadados, e aí você descobria que eles não eram veados, eles estavam sendo aveadados. E aquilo traz uma liberdade! As pessoas riam, viravam a noite! Foi o Mateus quem me convenceu de que eu era artista. Ele me disse: “Você tem conhecimento técnico…” Porque eu também era bom em matemática… “Tem raciocínio, mas também tem um lado artístico, intuitivo.” Foi o primeiro cara que me disse: “Você é muito bom”. E quando eu subi ao palco pela primeira vez foi uma surpresa.
Como surgiu a oportunidade de subir ao palco?
Quando eu estava na PUC estudando jornalismo, reencontrei o Fernando Caruso. Ficamos horas falando asneiras, e ele me convidou para participar do espetáculo Z.E., o Zenas Emprovisadas. Topei. A plateia tinha umas 60 pessoas. Eles faziam desafios para a gente fazer piadas na hora, de improviso.
Você ficou nervoso?
Não fiquei nervosíssimo, como seria o natural. Eu tinha 21 anos e descobri que aquilo era muito forte para mim. Eu ficava muito mais nervoso no meu estágio de jornalismo do que no palco.
Onde você estagiava?
Num selo de CDs eruditos de uma gravadora. Havia três linhas telefônicas, um computador com internet e eu ganhava 200 reais, embora tivesse muito trabalho. Eu escrevia o release do CD, mandava para os jornais do país inteiro e tinha que ligar depois para perguntar se iam fazer matéria. Quando fazia sol eu ficava me coçando pra sair! Colocava uma sunga na mochila pra ir direto do trabalho para a praia. Isso era muito mais angustiante do que subir ao palco e pegar uma responsa que, na real, é muito maior. Mas quando você não sente isso é porque descobriu a coisa certa para fazer.
Pelo visto você era o típico garotão da Zona Sul do Rio, certo?
Não fossem as obsessões, talvez fosse. A gente é meio afundado aqui no Rio de Janeiro. Eu fiquei 26 anos sem sair do Rio, praticamente. No máximo, passava uma semana fora. E agora, morando parte do tempo em São Paulo, percebo como a gente erra em muitas coisas e como existe um mundo maior lá fora. O Rio é uma cidade maravilhosa num cantinho da Zona Sul, mas quando você passa do túnel a cidade não é tão maravilhosa. Sob esse aspecto, o típico garotão da Zona Sul é o cara que tá no Leblon, com o açaí na mão, e não se incomoda de passar por três babás de branco. Eu me incomodo.
Você já subiu o morro?
Eu fui na Rocinha, no Salgueiro, no Parque da Cidade e no Complexo do Alemão.
Em alguma dessas vezes você foi comprar drogas?
Não. Eu tinha uma namorada em São Conrado e um dia, meio cansado, peguei o ônibus errado e fui parar na Rocinha. Eu estava no ônibus e vi uma galera passando por ali com uns fuzis enormes. As pessoas agiam como se fosse a coisa mais normal do mundo. Outra vez, fui na Maré fazer uma peça numa lona cultural e fiquei impressionadíssimo.
Por quê?
Porque 80% das casas têm marcas de bala. O CIEP [Centro Integrado de Educação Pública] é totalmente metralhado. Cheguei lá na Maré e uma menina de uns 2 anos – ela ainda usava fralda e não sabia falar direito – virou pra mim e falou: “Perdeu, tio!” Apontou os dedos para mim em forma de arma e fez: “Pum, pum e pum!” Horrível! Então o Rio não é uma cidade tão maravilhosa assim. Ver uma criança de 2 anos brincando de dar tiros é terrível. Mas o curioso é que, nesse dia na Maré, os traficantes foram ver a peça.
E como os traficantes agiram?
Eles chegaram armados. E eu lembro que o chefe falou para o mais novo: “Você volta com as armas que a gente vai ver”. Aí voltou um cara com umas oito armas penduradas no corpo e ficou lá fora enquanto os chefes dele viam a peça. E eles aplaudiam e riam como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Você ainda conseguiu fazer humor nessa situação?
Consegui. Pior é que eu fazia um personagem que era um policial. Ele falava: “E aí, cadê a parada?” Eu pensei: “Ih, caramba…” Mas eles riram muito. Também fui no Morro dos Prazeres fazer o Rock Gol, foi legal. E no Morro do Salgueiro estive por causa de um baile funk.
Você gosta de baile funk?
Fui a convite de um amigo, que é viciado na cultura funk. Pra dançar também, porque é contagiante. Mas fui mais pela experiência antropológica. Quando estava lá, fui ao banheiro e começaram uns tiros. Umas meninas se desesperaram, e a gente se trancou na cabine. As meninas choravam, e eu queria chorar também, mas não podia. Tinha que acalmá-las. Depois descobrimos que os tiros eram traficantes comemorando porque a polícia tinha descido.
Na adolescência, muitos são apresentados às drogas por intermédio de amigos que são usuários. Sua turma era desse tipo?
Provavelmente. Talvez eu não tenha ficado sabendo porque sempre fui medroso. Quando eu era adolescente, tinha essa coisa da cadeira elétrica: alguém sentava, colocavam bebida na boca do cara e depois balançavam. Nunca quis saber disso. Mas meus amigos enchiam a cara, fumavam um baseado, e eu não me sentia ultrajado por eles fazerem aquilo do meu lado. Só não compartilhava.
Você nunca experimentou nada?
Experimentei bebida, cigarro. Tinha uma época em que era bonito fumar cigarros Gudang Garam. Um dia eu comprei um maço e não consegui tragar.
E maconha e cocaína?
Já dei um tapa na macaca. E, com cocaína, um dia eu entrei no banheiro e um cara da escola estava mandando ver. Fiquei naquela: “Será que eu…?” Ele disse: “Cara, não experimenta”. E não experimentei. Não tem nada a ver comigo. Sobre a maconha, vale uma discussão mais ampla. Eu acho que o cara que fuma maconha está menos debilitado do que o cara bêbado. Nunca ouvi falar de um cara que fumou um baseado e bateu na mulher.
Você é a favor da liberalização do uso da maconha?
É um assunto que merece ser discutido. Álcool pode ter propaganda, cigarro não pode. O cigarro tem a antipropaganda, que é a foto da pessoa morrendo. A bebida, ao contrário, tem propagandas absurdas – mulheres lindas que obviamente nunca beberam num ambiente machistaço. [Faz uma imitação engraçadíssima dos atores de comercial de cerveja.] Agora, a gente não pode proibir tudo o que faz mal. O que falta é informação. Se você não tem a informação, você precisa de um professor para dizer: “Isso, sim, isso, não; Belo Monte, sim, Belo Monte, não”.
A esse propósito, você assinou aquele documento em que atores da Globo protestam contra Belo Monte?
Não. É uma questão complicada. De um lado estão as pessoas boas, que reciclam, e do outro estão as más, que matam o índio… Não é tão simples. Existe uma coisa emocional que diz: “Não quero que tirem a tribo dali”. Mas, peraí, o que a tribo acha? Não é uma posição elitista a gente achar que lá não precisa de desenvolvimento? Eu não posso daqui, do meu apartamentinho da Zona Sul, dar opinião sobre um negócio que tá tão longe. Não posso ser maniqueísta para dizer “é um absurdo, sou contra!”, porque não sou engenheiro, não sei qual é o impacto. Não posso me posicionar.
Como você se posicionou em relação a um episódio que envolve o seu trabalho, o humor, que foi o afastamento de Rafinha Bastos da bancada do CQC após a famosa piada envolvendo a Wanessa Camargo grávida?
Eu me posicionei no sofá.
Você achou engraçado o Rafinha dizer que “comeria ela e o bebê”?
Não. Mas acho 26% das piadas engraçadas. Eu sou meio exigente quanto a isso.
O que você achou da decisão da Band de afastá-lo do programa?
Acho complicado opinar. A Band tem patrocinadores, e não sei qual é a força disso. É claro que, como elitista de sofá, tenho várias opiniões sobre o mundo. Como humanista e esquerdista de sofá que sou, eu diria: “Que atitude capitalista e covarde!” Mas eu não estou na Band e não sei o que aconteceu lá. E se o Rafinha entrou na sala do presidente e mijou na parede? Seria irresponsável e leviano opinar a esse respeito.
Houve uma reação exagerada à piada?
Como alguém que está de fora, eu diria que sim. Mas, para quem tem um bebê na barriga, não dá pra saber. Quando eu tiver um filho, vou protegê-lo com todos os recursos possíveis. Se alguém virar para o meu filho e falar “cabeçudo” no meio da rua, será que vou querer bater na pessoa? Se eu der uma porrada, alguém vai falar: “O Marcelo perdeu a linha”. Mas, como pai, posso ter essa reação humana. Então o Rafinha fez uma piada, que foi um pouco pesada, e os pais ficaram putos. Para o Rafinha, é um absurdo ser processado, mas para os pais é um absurdo fazer uma piada sexual com o filho deles. Os dois lados têm razão, cada um à sua maneira.
Outro caso recente envolvendo piadas e processos diz respeito a você. O quadro Casa dos Autistas, que parodiava pessoas que têm autismo e foi ao ar no Comédia MTV, provocou diversos protestos, e recentemente a emissora foi condenada a pagar uma multa em função do episódio. Na época, você considerou a cena de mau gosto?
Fui contra a cena desde o momento em que ela foi escrita. Tanto é que, na época, ganhei o apelido interno de “José Serra”. Achei o quadro de extremo mau gosto e, quando ele foi para o ar, foi um desgosto grande para mim. Mas não concordo com a condenação. Acho que o fato de a MTV ter reconhecido seu erro foi muito mais efetivo do que o pagamento de qualquer multa.
Desde que estreou na MTV, você já recebeu alguns convites para mudar de emissora. Claudio Manoel contou a PLAYBOY que já tentou levar você para a Globo. Por que você não aceitou?
Porque eu gosto muito de trabalhar na MTV. Lá eu tenho liberdade de criar e apostar em coisas novas. Numa emissora imensa, é natural que isso não seja tão fácil, e não é porque a emissora é malvada, mas porque ela precisa apostar mais no que é certo. Na MTV, eu tenho a oportunidade de levar o meu universo para lá. Se eu sair da MTV, é para uma emissora onde eu tenha espaço e possa desenvolver um bom projeto. Não posso ir para um lugar que me apague. Ou seja, é uma conversa difícil. O próprio Claudio Manoel sabe que eu sou chato pra caramba nisso. Ele sempre me fala: “Pô, tu é a maior noiva”.
Por isso você não aceitou ir para o Casseta & Planeta?
Não aceitei porque, em 2011, o Comédia MTV ganhou um corpo maior, o elenco cresceu e a emissora fez uma grande aposta no programa. Não podia largar o Comédia naquele momento. Aquilo tudo ia morrer, não ia acontecer. Mas, logo depois de não ter rolado de trabalhar no Casseta, surgiu a oportunidade de fazer o filme As Aventuras de Agamenon: o Repórter. Topei sem ler o roteiro.
No filme, você contracena com Luana Piovani. A convivência com ela foi difícil?
Não, foi ótima. A Luana tem um gênio forte, é uma mulher que se posiciona. Mas ela sempre me tratou com respeito, me cita de forma muito carinhosa, e eu sempre a deixo à vontade, respeito o espaço dela.
Você assiste ao Zorra Total?
De vez em nunca. É um programa que não fala comigo, representa algo que é exatamente o contrário do que eu faço. Adoraria ver um programa mais moderno no lugar do Zorra Total, mais Bruno Mazzeo, mais Fábio Porchat… O elenco do programa é maravilhoso, mas o formato do programa é um mistério para todos nós que fazemos humor. Como o programa sobrevive com essa força? Mas eu estou aqui falando e, nos dias ótimos, eu dou 1 ponto. Eles, num dia ruim, dão 20. Então, no sentido da audiência, eles são um sucesso 20 vezes maior do que eu. Estão de parabéns.
Você gosta mais do Pânico ou do CQC?
Como elitista de sofá, o CQC me agrada mais. Nesse aspecto, eu me sinto mais representado, porque é um humor que tem jornalismo, que faz denúncias. Por outro lado, eu rio mais vendo o Pânico, que é um programa que joga o grotesco e o absurdo na cara das pessoas o tempo todo. Ele faz coisas tão grotescas que a gente fica surpreso. Eles são muito bons na arte do absurdo e do horroroso, fazem isso muito bem. E o programa é muito engraçado.
E que quadro do Pânico você acha mais interessante?
Eu gostava do Jô Suado, achava muito engraçados aqueles enigmas bobos que o Edu Sterblicht fazia com o Carioca, do tipo “quem sou eu?” Aquilo era bem gaiato. Esses dois caras, o Edu e o Carioca, mandam muito bem, sou muito fã deles. Mas eu não conseguiria trabalhar no Pânico.
Por quê?
Porque eu sou muito pudico. Aquilo de os caras irem às festas… “Ei, Susana Vieira, você tá aqui!” Se ela não quisesse falar, eu diria “tudo bem”. Não seria o cara que gritaria: “Fala pra gente! Vamos atrás dela!” Eu sou meio “não vou incomodar”. Isso me demoveu um pouco da ideia de ser repórter. Isso de correr atrás das coisas, fazer perguntas inconvenientes, dar furos… Não é a minha.
E do que você gosta no CQC?
Do Top Five. É o meu quadro preferido.
Ou seja, você gosta de algo que não é feito pelo CQC.
É… Mas, hoje em dia, como é que você vai fazer algo que seja mais engraçado do que a realidade? Como é que eu vou fazer um programa que seja mais engraçado do que a Daniela Albuquerque dizendo que seria demais se 11 do 11 de 2011 caísse numa sexta-feira 13?!? Para fazer humor, a realidade é “inconcorrível”.









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