O currículo profissional de Marcos Paulo impressiona: diretor de núcleo da Rede Globo, já comandou 14 grandes produções, além de ter atuado em 34 novelas desde sua estréia na TV, em 1967. Definitivamente, não é pouca coisa. Mas é fora das telas, mais precisamente no campo amoroso, que sua estrela brilha mais intensamente. Sua lista de conquistas inclui estrelas como Lúcia Veríssimo, Vera Fischer, Mylla Christie, Ticiane Pinheiro e Flávia Alessandra, o que faz de Marcos Paulo o sujeito que mais namorou capas da PLAYBOY no Brasil. Vale dizer ainda que outras de suas namoradas, como Malu Mader, Nívea Stelmann e Marina Mantega, para citar apenas algumas, figuram na lista das mais pedidas. Some-se a isso o fato de uma das nossas futuras estrelas, a atriz Cibele Dorsa, estar namorando o diretor no momento em que a entrevista era concedida. Na ocasião, como é próprio de Marcos Paulo, ele parecia perdidamente apaixonado pela moça. Na semana seguinte, no entanto, ele encerraria o romance alegando “incompatibilidade de agendas”. Dias depois, Marcos Paulo era flagrado pelos paparazzi ao lado da atriz Antônia Fontenelle, 34 anos, seu novo affair. Pelo menos até o fechamento desta edição.

Além de sucesso com o sexo oposto, Marcos Paulo também pode comemorar a boa sorte no trabalho. Atualmente, ele se divide entre a direção da novela das 6, Desejo Proibido, e o comando do programa Estação Globo, apresentado pela cantora Ivete Sangalo. É o único diretor da emissora que, quando lhe dá na telha, pode bancar o ator, sempre no papel de galã. Quem conhece esse bon-vivant apenas das fotos da revista Caras e dos ensaios das escolas de samba não pode imaginar os percalços que ele enfrentou antes de conhecer a fama. A despeito do seu jeitão de carioca, Marcos Paulo Simões nasceu em São Paulo há 57 anos. Sua mãe morreu no dia seguinte ao parto e coube à avó viúva, que fazia bicos como lavadeira e empregada doméstica, a tarefa de criá-lo. Do pai biológico, só viu fotos. No cortiço em que vivia, no bairro paulistano do Bixiga, era vizinho do novelista Vicente Sesso, que se afeiçoou a ele e lhe deu os primeiros trabalhos em comerciais na televisão.

Antes de ser aprovado num teste para novelas da Rede Record, Marcos Paulo foi expulso do colégio e detido pela polícia depois de uma briga de rua. Também trabalhou como Office boy e fez bolsinhas de artesanato. Sua vida financeira só começou a melhorar quando se mudou para o Rio de Janeiro, a convite da Globo – nem tanto pelo salário, mas sim pelo que ganhava como apresentador de bailes de debutantes. Se por um lado o papel de galã garantia os bicos nas festas de adolescentes, por outro Marcos sentia-se preso ao rótulo de canastrão, inevitável para os rostos bonitos da TV. Foi quando decidiu se mudar para Nova York e estudar direção. No retorno para o Brasil, dirigiu o seriado Plantão de Polícia (1979) e novelas como Roque Santeiro (1985) e Porto dos Milagres (2001).

A despeito de seus inúmeros namoricos, Marcos Paulo já foi casado quatro vezes. A primeira delas com a jornalista Márcia Mendes. A segunda, com a também jornalista Belisa Ribeiro. Na seqüência, Marcos se casou com a atriz Renata Sorrah, com quem teve a filha Mariana, médica de 26 anos, e depois com a atriz Flávia Alessandra, mãe da sua filha caçula, Giulia, de 7 anos. Marcos também é pai de Vanessa, de 37 anos, fruto de um namoro com a modelo italiana Tina Serina.

Marcos Paulo recebeu a repórter Adriana Negreiros em duas ocasiões. Na primeira delas, no Projac, tratou de assuntos profissionais. Na presença da sua assessora de imprensa, evitou os temas sexuais. Na segunda sessão, estava mais relaxado. O encontro ocorreu no seu apartamento com vista para o mar na Barra da Tijuca, um duplex com decoração clean e um quadro com inspiração surreal de sua própria autoria. Na companhia do cachorro, camisa pólo num tom quase cor-derosa, Marcos bebia café em xícaras com inscrições de poemas de Fernando Pessoa. A todo instante, interrompia os goles para cair na gargalhada. Digamos que, com o currículo que ostenta, ele tem razão para tanto riso.

Pelos meus cálculos, você já namorou ou foi casado com pelo menos quatro capas da PLAYBOY. Corrija-me se eu estiver equivocada.
Eu fui casado quatro vezes. A Márcia Mendes, minha primeira mulher, nunca fez capa. A Renata Sorrah também não. Nem a Belisa Ribeiro. E fui casado com a Flávia Alessandra, que fez capa depois que a gente se separou.

Ok, mas os cálculos não são de quem fez PLAYBOY enquanto estava com você…
Ahã [desconfiado]

Vamos à lista. Lúcia Veríssimo. Ela foi sua namorada, não?
Foi.

Mylla Christie, Vera Fischer e a Flávia Alessandra. Esqueci alguém?
[Pensativo.] Eu tenho certeza de que sim. Mas não estou me lembrando de quem… Eu tenho que ver a lista [gargalha].

Esqueci de propósito a Ticiane Pinheiro só para testar sua memória. Ela fez PLAYBOY junto com a mãe, a Helô Pinheiro.
Ah, foi mesmo! Ticiane… Ela foi capa, é verdade!

Minha lista é essa, mas suponho que haja outras mulheres que eu tenha esquecido. De todo modo, você é o campeão. É o homem que mais pegou capas da PLAYBOY no Brasil. Parabéns.
[Gargalha.] Que engraçado isso!

Você está orgulhoso do título?
Acho engraçado. Não fico correndo atrás disso, não. Tudo é conseqüência da forma como você respeita a mulher. Acho que mulher, sem nada de pejorativo, é um ser diferente. Uma pessoa que engravida, que carrega uma criança na barriga por nove meses e que sangra todo mês não pode ser comparada ao homem.

Você disse numa entrevista que não come besteira, exceto amendoim. Seria esse o segredo do seu sucesso com as mulheres?
Eu adoro comer amendoim, mas sem casca.

É a casca que contém o elemento afrodisíaco?
É porque a casca cai e você limpa assim [passa a mão próximo ao púbis e cai na gargalhada]. Essa piada é veeeelha!

Você tem sido notícia pelo seu extenso currículo amoroso. Afinal, você é um conquistador implacável?
Nunca corri atrás disso. E até me incomoda, porque às vezes é queimação de filme [risos]. Acho que a gente tem que buscar ser feliz. Tem gente que dá muita sorte e encontra a pessoa certa na primeira, na segunda, na terceira. Mas eu também posso ter algum defeito, alguma peça defeituosa que já saiu de garantia, entendeu?

Quando você aparece com uma namorada nova, os repórteres sempre perguntam a ela se não tem medo da sua fama de namorador.
É exatamente isso o que eu chamo de queimação de filme [risos]. As amigas dizem: “Sai desta, é roubada, é chapa quente”. Depois eu ouço: “Bem que me avisaram…” [risos].

A sua sorte é que você consegue encarar essa tragédia com bom humor.
Tem que ser, né? Cara, a vida é uma só, não tem ensaio. A gente tem que viver da melhor forma, porque ninguém provou que existe outra vida.

Você chegou a casar na igreja com alguma de suas mulheres?
Com a Flávia Alessandra. Todo mundo queria que eu casasse. Logo que cheguei ao Rio de Janeiro, passei em frente à igreja da Glória e disse: “Se um dia eu casar, quero que seja aqui”. Passaram-se muitos anos. Ah, tem que casar? Então quero um casamento de mafioso. Tem que ser de dia, na igreja da Glória, os padrinhos de fraque, um carro de 1940, com a noiva dentro. Enfim, o casamento do Coppola fazendo O Poderoso Chefão. Aí foi. Mas era começo de novembro, um calor de 55 graus e a igreja não tinha refrigeração. Foi um caos. O pai da Flávia veio no carro antigo que não tinha ar-condicionado, quase teve um troço [risos].

Você é um hedonista clássico, que gosta de mulheres e da boa vida, ou por trás dessa aparência existe uma pessoa…
[Interrompendo.] Centrada, reclusa, tímida, que trabalha pra cacete pra poder conseguir isso, entendeu? Eu não tenho vida de playboy. Na verdade, as revistas fantasiam um pouco. Gosto, sim, de um bom vinho, de viajar, de jantar, mas eu gosto de trabalhar também. E trabalho bastante. Nunca recebi mensalão.

Como assim?
No começo d a minha carreira de ator, eu fazia muito baile. A gente saía daqui na sexta-feira, às vezes no sábado, e fazia dois bailes. Era uma loucura. Eu dirigi muito naquela estrada onde morreu o Gonzaguinha [a BR-280, no Paraná]. Era no hotel que eu aproveitava para decorar o texto da semana seguinte. É horroroso você passar o dia trancado e só sair à noite. Mas eu chegava na segunda-feira com o trabalho em dia. E tinha que ficar trancado porque as meninas ficavam lá fora, tinha aquele assédio todo. Foi naquela época que comecei a ganhar dinheiro e a organizar a minha vida. Comprei meu apartamento… Essa foi a minha formação. Então, hoje, eu curto viver bem. Porque eu conquistei.

Você nasceu em uma família pobre. Qual era a fonte de renda da casa?
Minha avó era viúva e se virava. Lavava roupa pra fora, trabalhava como empregada doméstica. Logo que comecei a trabalhar de office boy, eu assumi o aluguel. E era engraçado, porque eu saía pra trabalhar com o dinheiro contado. Depois do trabalho, ia a pé pra escola e sobrava dinheiro para pagar a condução de volta pra casa. Só que à tarde me dava aquela fome. Na avenida São João [centro de São Paulo] tinha um restaurante que vendia sanduíche grego. Comia um e tomava um chope. Aí ficava sem dinheiro e voltava a pé pra casa. Eram 40 minutos de caminhada. O meu sapato era furado e eu usava uma palmilha de papelão. Se por acaso chovesse era um “melê” só. Mas eu me divertia.

Você tem irmãos?
Não. Minha mãe morreu no dia seguinte ao parto e eu fui criado pela minha avó. Minha mãe teve uma hemorragia, precisou de um estoque de sangue e deram sangue trocado para ela. Foi um erro médico no melhor hospital de São Paulo na época, o Hospital Matarazzo. Fizeram essa barbeiragem. Não conheci meu pai biológico, apesar de ver fotos e ser muito parecido com ele.

Quantos anos de terapia foram necessários para você falar de assuntos espinhosos com tanta naturalidade?
Tenho o mesmo terapeuta há 31 anos, mas não faço terapia direto. Tenho idas e vindas. Isso me ajudou a descascar o abacaxi. Tive depressões periódicas, mas superei e estou vivo.

Certa vez você disse, repetindo Gilberto Gil, que só quem foi criado pela avó sabe o que é isso. O que quis dizer, exatamente?
Eu fui criado por uma pessoa que nasceu em 1910. A educação, às vezes, passava por surra, coisa que, se fosse uma mãe, provavelmente não faria. Quando o Gil falou sobre isso, entendi por que a minha relação com a minha avó era tão diferente da relação dos meus amigos com a mãe. É uma educação muito mais repressora.

Você era um garoto levado?
Eu fazia traquinagens, sim. Consegui uma bolsa para estudar no São Bento [tradicional colégio de São Paulo]. Nos primeiros anos era um excelente aluno, ganha- va prêmios. Só que depois começou a haver um conflito de ordem social. Os garotos eram ricos. Eles me convidavam para passar o fim de semana na casa deles, na fazenda. E eu nunca podia convidá-los para ir a minha casa porque tinha vergonha do cortiço. Então fui me rebelando e comecei a ter um mau comportamento. Minha produtividade caiu e eu acabei sendo convidado a sair do colégio.

E o que aconteceu depois?
Quando eu fui expulso, queriam me mandar para o colégio adventista, no interior. Falei que só ia algemado. Trabalhei de Office boy e fiz bolsas e sandálias de couro. Tenho muita habilidade com as mãos.

Você já disse que teve uma fase rebelde na adolescência. Nessa época, chegou a ser detido pela polícia? Sim, mas foi uma coisa rápida. Foi só aquele susto e depois me soltaram. Briga de rua. Quando eu tinha 17 anos, saía de madrugada para o que desse e viesse. Estava numa fase braba. Éramos uns três, quatro, barra-pesada mesmo. Era briga de rua todo sábado. Um inferno.

Foi nessa época que você começou sua vida sexual?
Foi um pouco antes. Dos 15 aos 17 anos a gente tinha carteira falsa para entrar nas boates da rua Augusta [região de prostituição de São Paulo]. Aí encontrava as meninas e assim rolaram as experiências sexuais.

Conte sua primeira vez.
A gente foi pra uma boate no sábado. Os pais de um amigo tinham viajado e depois fomos para o apartamento dele com as meninas. Foi a primeira vez da maioria ali. Porque até então era só “mela cueca”.

Quando você decidiu que queria ser ator?
Comecei a trabalhar como ator muito cedo. Fazia comercial com o Vicente Sesso [autor de novelas]. A mãe dele alugava uma casa muito grande e sublocava os quartos. Era um cortiço. Eles moravam na parte de cima e nós, na de baixo. Eu e minha avó frequentávamos a casa deles. Por muitas vezes eu começava a ver um ensaio e dormia ali no meio. Isso foi entrando na minha cabeça. Aprendi a fazer isso como um filho de peão aprende a tirar leite de vaca.

E como foi parar na televisão?
O Vicente me colocava em peças mirins e comerciais. Com uns 15 anos entrei na fase rebelde e disse que não queria mais ser ator. Mas quando eu estava com 17, soube que o Walter Avancini [diretor de TV] estava inaugurando um centro de dramaturgia na Record. Eu fazia bolsa de couro, ganhava pouco, e resolvi fazer o teste. Fui aprovado e não parei mais. Eu queria fazer arquitetura, m as n ã o dava tempo. Já morava no Rio, fazia bailes de debutantes. Não tinha como estudar.

Quando se mudou para o Rio para trabalhar na Globo, você morou próximo a uma zona de prostituição. Fez muitas amizades?
Não, porque sou muito tímido. E já tinha a cara conhecida. Morei em Copacabana, perto da Prado Júnior. Morria de medo de sair sozinho. Saíamos sempre em grupo para jantar. Quando recebia o salário, ia no El Cid, um restaurante de carne que era o point. Foi lá que eu conheci o Tim Maia.

Como vocês se conheceram?
Ele chegou num jipe aberto cheio de putas. Aí ele veio falar comigo na mesa, trocar idéias, porque me reconheceu da televisão. Ficamos relativamente amigos. Às vezes eu acompanhava o ritmo dele, às vezes não. E toda vez que eu ia ao show, ele dizia [imitando a voz do Tim]: “Marcos Paulo, passa no camarim depois”. Eu ficava envergonhadíssimo.

Naquela época, havia o culto à celebridade de hoje em dia?
Não, esse culto é coisa de uns 15 anos pra cá. As pessoas nos viam na rua, pediam autógrafo, mas não era essa coisa toda. Naquela época tinha a Contigo!, a Amiga, acho que só. Agora aumentou o número de revistas e também vieram os sites. É uma quantidade enorme de informações numa velocidade gigante. E estas câmeras digitais e de telefone acabaram com a nossa privacidade.

Por quê?
Ninguém pede mais autógrafo, agora querem tirar foto. Só que esta pessoa que quer sair na foto passa a câmera dela para outra pessoa que não sabe operar a máquina. Então você fica com aquele sorriso imbecil. Porque a pessoa fala: “Dá um sorrisinho!”. Então você fica com aquela cara imbecil até que a pessoa que está do teu lado resolva ir lá no sujeito que está com a máquina dizer como ela funciona. Nessa você já ficou ali cinco minutos [risos]. É infernal.

Você já foi vítima de muitos episódios de invasão de privacidade?
Nossa! Basta você ver estas últimas revistas aí. Eu tenho uma casa em Búzios. Vai um grupo lá pra casa. Eles fotografam várias pessoas na varanda. Mas se eu estiver do lado de uma que interesse a eles, eliminam as outras na foto e ficamos só os dois. É um inferno.

Você tem uma relação dúbia com as revistas de celebridades, por exemplo: você vai à Ilha de Caras ao mesmo tempo que se queixa de que há invasão de privacidade.
Não tem nada de conflito nisso, não, entendeu? Eu não vou ficar me escondendo. Se eu vou pra Ilha de Caras, eu sei o que vai acontecer. Sei que vou ser fotografado e que aquilo vai ser publicado. Invasão de privacidade é quando você não sabe que está sendo fotografado, quando flagram você mastigando. Mas não vou deixar de fazer as coisas, até porque me divirto e meu trabalho vive um pouco disso.

Você é deslumbrado com o seu trabalho?
Não. Eu sou de uma geração em que a gente aprendia que ser ator é uma profissão de muita responsabilidade. E nessa profissão, se você não tiver humildade, não aprende. Naquela época não tinha esse papo de celebridade. Não fui criado com deslumbramento. Ao contrário, aprendi a botar o pé no chão para que a carreira fosse longa.

Qual a sua tática para baixar a bola de alguém que esteja se achando demais?
Chego e falo: “Vamos até a minha sala”. E passo o sabão: “Olha, a coisa não é bem assim, você tá indo pelo caminho errado e isso vai te levar para fora daqui, porque aqui não tem lugar para moleque”. Chamo na chincha, meu trabalho é esse.

Essas atitudes a que você se refere são pessoais ou profissionais?
Pessoais não tô nem aí. A opção sexual e de vida dos atores não me interessa. Meu problema é da portaria para dentro. E se for preciso chamar a atenção, chamo mesmo.

Dizem que, quando começou como diretor, você era bem durão.
Foi a minha escola. O Vicente Sesso era assim, o Avancini também. Tudo funcionava na base do esporro. Eu dava uns esporros gritando mesmo, entendeu? Mas eu mudei, o conceito mudou. A gente teve reuniões na Globo sobre isso. Teve muita gente que continuou nessa e dançou. Hoje ainda tem um ou outro que faz isso, mas as pessoas reclamam. Ninguém quer atuar com a corda no pescoço.

Consta que, quando foi para a Globo, você ficou incomodado com o papel de galã. O que podia haver de ruim em ser galã?
O galã era considerado mau ator. Você tinha que provar que era bom. Eu vi que entre 1970 e 1977 estava fazendo o mesmo papelzinho. Um dia, cheguei pro Boni [José Bonifácio Sobrinho, ex-vice-presidente da Globo] e disse: “Olha, eu não estou feliz fazendo isso, acho chato demais. Quero ir pra Nova York estudar direção”. E fui bancado pela emissora. Passei oito meses lá.

Então você sentiu a típica depressão do inverno da cidade.
Foram meses difíceis. No sábado, limpava o apartamento e ia ao supermercado. Comprava tudo congelado e jantava de frente para a televisão para treinar o ouvido para o inglês. Na época, eu namorava a [cantora] Olivia Byington e ela passou o primeiro mês comigo nos Estados Unidos.

Você não compreendia o inglês?
Eu tinha alguma noção. A Globo me deu um treinamento numa escola de línguas. Mas era um ensino tradicional. Quando cheguei a Nova York, não entendia nada, porque lá não se fala inglês, e sim um dialeto. Foi um horror até eu me adaptar. Então comprei um jurássico destes aqui [aponta para o gravador de fita cassete da PLAYBOY] e gravava as aulas. Quando chegava em casa, ouvia tudo e passava para o papel. Criei um método próprio de aprendizado.

Não deu pra se divertir?
Ah, sim. Havia um alemão na escola que tinha uma Kombi. Um bagaço. Ele pedia 500 dólares, porque queria voltar para a Alemanha. Liguei pra Olivia e plantei a idéia de comprar a Kombi e cruzar os Estados Unidos, de Nova York a Los Angeles.

Ela topou?
Sim! Comprei um guia e pegamos a estrada. Num dia a gente dormia em lugares como Las Vegas, que era um deserto, e no outro acampava nas montanhas, com gelo. Só quebramos o carro uma vez, no Novo México. Em Los Angeles, conheci o Zé Carioca [o músico José Patrocínio de Oliveira], que tinha trabalhado com a Carmen Miranda. Ele me emprestou uma grana e eu deixei a Kombi com ele. Ele vendeu e ainda me mandou o restante do dinheiro.

Você viveu o auge dos anos 60 e 70, épocas de amor livre e drogas. Em que medida você viveu esses movimentos?
Eu fiz tudo o que podia fazer. Tomava LSD, fazia amor livre, a aids não era uma ameaça. Era ácido, maconha… E os politizados diziam que nós éramos alienados. Mas não éramos, só não nos reuníamos para discutir política.

Rolava patrulha ideológica?
Claro! A televisão era considerada um veículo imperialista, e eu era o galã da TV. Pode ser paranóia minha, mas acho que eu era colocado de lado por ser o galã da televisão, entendeu?

Quando usava drogas, você não se viu na iminência de se tornar dependente?
Nunca. Na época, todo mundo usava drogas. Usava no fim de semana, quando não tinha que trabalhar. Mas nunca tive problemas com isso, nunca fui parar numa clínica com abstinência. A gente usava droga para se ilustrar. A droga não vinha da mão do bandido, vinha da mão de gente legal. Eram traficantes, mas não eram bandidos.

Você já teve curiosidade de experimentar drogas para disfunção erétil?
Já!

Por curiosidade ou necessidade mesmo?
Curiosidade. Temos que experimentar as coisas novas. E foi ótimo.

Nesse caso, pelo menos, você se tornou usuário?
Não, eu sempre fui muito normal nesse sentido, entendeu? Nunca precisei disso, sempre tive uma vida sexual saudável. Minha alimentação é regrada, faço ginástica e isso contribui. E a minha criatividade e minhas fantasias também [risos].

Só não conseguiu parar de fumar.
Olha, eu não parei de fumar, mas quando faço checkup tenho desempenho muito bom na prova de esforço. O cigarro tem um determinado efeito para cada um. Tem gente que morreu de câncer no pulmão sem nunca ter fumado. Em mim não apareceu nada.

O tumor que você extraiu do pulmão não tinha relação com o cigarro?
Nada. Foi uma tuberculose que ficou encapsulada. Publicaram que eu estava com câncer. Quando tive alta, perguntei: “Doutor, entreguei minha vida nas suas mãos e quero que me diga com sinceridade: ‘O tumor tinha algo a ver com o cigarro?’”. Ele disse que não e saiu puto!

Perguntinha cafajeste.
Mas eu queria saber. Tem coisas que te dão prazer na vida e, se você deixar de fazer, já que elas não te fazem mal, qual é a graça? Pode ser que um dia saia e tome um tiro na testa. Aí fiquei sem fumar, sem beber… Entendeu? Mas eu vou parar, prometi à minha filha pequena.

Nessa época de amor livre e LSD, você chegou a participar de manifestações contra a ditadura?
Não efetivamente. Quando eu tinha 14 anos, participei de uma passeata até a antiga sede do jornal O Estado de São Paulo. Teve quebra-quebra porque o jornal era considerado imperialista. Nos anos 70, participei de outras reuniões, mas só comecei a me envolver mais na campanha das Diretas Já. Participei de comícios e conheci o Lula num palanque, em Belo Horizonte. Depois a gente foi para o bar do hotel, junto com um grupo, e conversamos até três, quatro da manhã.

E ele bebeu muito?
Rapaz, eu não sei [risos]. Porque estava todo mundo bebendo… A gente conversou, me lembro que falei para ele que queria me filiar ao partido e começou aquela discussão, filia ou não filia, vantagens e desvantagens… Depois nós nos encontramos em Brasília, quando ele já era presidente. Foi engraçado. Mas quando falo do Lula me refiro à pessoa. Ele é engraçado, relaxado, entendeu? A pessoa é completamente diferente do governo.

Parece que você tem simpatia pelo Lula.
Pela pessoa eu tenho bastante simpatia, mas não pelo governo. Socialmente ele é uma pessoa ótima, sempre muito simpático. Agora, governando…

Você está feliz com o Lula governante?
Não estou nada feliz. Eu botava muita fé. Fiz campanha para o PT desde que o partido nasceu. Fiz muita boca de urna para o Lula. Acreditava que o PT iria mudar o país socialmente. Mas não é o que está acontecendo. Não acredito que a fome seja resolvida com assistencialismo. Além disso, o Congresso está desmontado, as falcatruas do governo foram muito fortes. O poder corrompe demais.

Você acha que algumas pessoas se aproximam de você por interesse?
Sem dúvida. É difícil saber por que as pessoas estão se aproximando. Mas também não dá pra deixar de curtir uma pessoa legal só porque ela tem algum interesse. Isso você vai descobrir ao longo do tempo. Mas algumas são óbvias demais.

O que é uma abordagem óbvia?
Ah, são pessoas que não têm pudor e chegam se oferecendo. Eu fujo disso. Não gosto. Não uso o meu trabalho para isso. É uma situação delicada, pois a gente fica num gueto. A minha vida é do Projac pra casa, de casa pro Projac. Não saio mais à noite. Tenho poucas chances de me relacionar com mulheres de outros meios. Só com o tempo você vai saber até que ponto aquela pessoa gosta de você ou está agindo apenas por interesse.

Já aconteceu de uma moça te agarrar para tentar um papel numa novela?
Uma vez, no Carnaval do Rio, uma atriz me puxou e começou a me beijar. Pior é que havia vários fotógrafos, fiquei preocupado. Por sorte, nenhum deles viu.

Você retribuiu o beijo?
Fui praticamente violentado [risos]! Ela me beijou de qualquer jeito. Logo depois disse: “Quando posso passar na Globo?”.

Passou?
Sim. Mas agiu como se nada tivesse acontecido na véspera. Talvez ela tenha tido amnésia alcoólica [risos].

E você conseguiu emprego para ela?
Claro que não. Outra vez uma atriz famosa trancou a porta da sala na hora em que veio falar comigo. Estava com segundas intenções. Destranquei. Não dá.

E quem era a atriz famosa em questão?
É óbvio que eu não vou falar [risos].

Qual a dose necessária de beleza, simpatia e talento para uma mulher virar uma estrela da televisão?
A beleza é importante, mas o talento é mais. A beleza abre portas, o talento as mantém abertas. Não adianta ser bonita e não morar ninguém atrás do olho. Por falar em olhar, a Fernandinha Vasconcelos tem um olhar brilhante… Ela é pequenininha… Mas o olho verde-azulado dela é uma coisa de louco. Sou fascinado pelo olhar dela. No bom sentido, é claro [risos].

Já estou achando que vocês vão constituir família.
Estou falando profissionalmente [risos]. Se eu for jantar com a Fernandinha já vão falar que estamos namorando. Costumo dizer que com estas câmeras de telefone, se você sai para jantar com uma mulher, mesmo que seja para falar de trabalho, alguém te fotografa, manda a foto para um site e antes de pagar a conta você já está namorando a mulher.

Quando falamos no começo sobre as mulheres que já foram capa da PLAYBOY, você destacou que nenhuma delas estava com você quando fez o ensaio. Você tem alguma coisa contra?
Confesso que já tive. Era uma certa insegurança, por causa da minha posição na Globo, filhos… Mas de uns dois anos para cá eu mudei a minha cabeça. Tive uma depressão muito grande, passei por um tratamento sério e mudei bastante. Agora não é mais um problema.

O que te incomodava? Era sua mulher ser vista nua por outros homens?
Era. Hoje em dia não é mais. E também o excesso de vaidade que motiva uma pessoa a sair na PLAYBOY. Basicamente é isso, é revelar a intimidade publicamente.

Você convive com pessoas muito jovens e num ambiente de trabalho de certa superficialidade. Não sente falta de embates intelectuais mais sofisticados?
Muita falta. Hoje existem celebridades, não existem cérebros. Na área de cultura, não conheço mais ninguém. Os poucos que conheço não se agrupam. Nos anos 70, a gente estudava muito. Eu era casado com a jornalista Márcia Mendes e reuníamos lá em casa o [ator] Cláudio Marzo, o [jornalista] Tarso de Castro, o [dramaturgo] Bráulio Pedroso e falávamos sobre Fernando Pessoa, Salvador Dali. Agora eu não encontro ninguém para discutir um Drummond. A preocupação da rapaziada hoje é ir pra rave.

Aos 85 anos, o Ziraldo diz que nunca falhou e que por isso doará seu corpo para a medicina.
Nunca falhou em que sentido?

Nunca brochou.
Então a ciência nunca vai querer meu corpo [risos]. Porque eu sou um sujeito normal. Também tem que ver a freqüência com que o Ziraldo se dedicou a isto [gargalha]. Não se pode fazer uma afirmação assim isolada, tem que saber qual é o histórico! Não é possível… Mas você quer saber o quê? Se eu já brochei?

Exato.
Sim, claro que já! E eu não conheço ninguém que nunca tenha brochado [risos].

Você faz parte do time de caras que já transaram com mais de mil mulheres?
Pô, isso aí é igual fazer o milésimo gol [risos]. Eu não tenho uma FIFA atrás de mim. Não posso fazer uma conta dessas. Primeiro por questões éticas, segundo por falta de controle.

Digamos então que essa já é uma resposta.
[Risos.]

Existe algum boato a seu respeito que você gostaria de desmentir nesta entrevista?
[Pausa.] De que eu sou um cafajeste com as mulheres. Não sou mesmo. Ah, já sei, este vai ser o título da entrevista: “Eu não sou um cafajeste!”.

Esta entrevista não tem título.
Ah, ainda bem [gargalha]!