Neguinho da Beija-Flor
Uma conversa franca com o sambista mais emblemático do Carnaval carioca sobre sambas de enredo, Anísio Abraão David, amigos que entraram para o crime, racismo na Europa, namoradas famosas, vaidade, câncer e o dia em que ele quase foi assassinado por emplacar o samba da Beija-Flor
“Amanhã eu vou assar uma carne aqui. Passem a hora que vocês quiserem”, avisa no fim da tarde de sábado à equipe da PLAYBOY Luiz Antonio Feliciano Marcondes, um senhor de 61 anos e físico invejável que passou o dia contando suas histórias. No dia seguinte, de bermuda, relógio, brinco e cordão de ouro com um enorme beija-flor e jogando cartas com o sorriso largo de sempre, Luiz recebeu a revista de novo. Mas dessa vez totalmente à vontade no papel que o fez conhecido no país inteiro: o de Neguinho da Beija-Flor, um dos maiores puxadores de samba do Carnaval carioca – cujo apelido está desde 2006 oficialmente incorporado ao nome.
Neguinho nasceu em Nova Iguaçu, município de 830 mil habitantes na Baixada Fluminense, no estado do Rio de Janeiro, filho de uma empregada doméstica e de um padeiro que tocava pistom em bailes. Seu Benedito Feliciano Marcondes, o Bené do Pistom, lia partituras, tocou com a Orquestra Tabajara, era fã de Nat King Cole e foi o primeiro contato com a música do pequeno Luiz – que quis aprender o instrumento do pai, mas a mãe não permitiu porque deixava uma marca feia na boca. Quarto de seis irmãos, Neguinho nasceu e foi criado com dificuldades na casa simples em que nos recebeu. Sua primeira aparição pública foi aos 10 anos, quando cantou Se Acaso Você Chegasse, de Lupicínio Rodrigues, em uma praça para ganhar duas latas de goiabada. Bom de bola, chegou a treinar como ponta-direita nas categorias de base do Olaria em 1965, e o futebol facilitou sua entrada na Aeronáutica dois anos mais tarde. Passou quatro anos no ambiente militar, lá terminou o segundo grau e pretendia seguir carreira enquanto dividia seu tempo entre a caserna e os bailes do conjunto Os Devaneios, do qual era fã. Mas foi obrigado a dar baixa como soldado de primeira classe em 1971. No mesmo ano um carro atingiu sua perna, e o acidente acabou com as pretensões futebolísticas. Sobrou a música. Neguinho já escrevia uns sambas e mostrava para os amigos, que gostavam delas. Depois do acidente começou a cantar. Na vizinhança, fez parte das escolas de samba Acadêmicos de Miguel Couto e Leão de Nova Iguaçu, na qual despontou e de onde foi levado em 1975 para a Beija- Flor pelo contraventor e patrono Aniz Abraão David, o Anísio, para substituir o puxador Bira Quininho, que havia sido assassinado. Em sua estreia, no Carnaval seguinte, levou a agremiação de Nilópolis ao primeiro título cantando um samba de sua autoria, Sonhar com Rei Dá Leão. Nunca mais saiu.
Ao longo de 35 anos de avenida Neguinho colecionou amigos, sambas, desfiles e uma extensa família. São dois casamentos no currículo, um com Cláudia, nos anos 1980, que durou 23 anos, e o atual, com Elaine Reis, que depois de três anos e meio foi oficializado no Carnaval de 2009, em plena Sapucaí, com o então presidente e amigo Lula como padrinho. A cerimônia ocorreu durante o tratamento contra um câncer de intestino que ele havia descoberto no ano anterior. A atual mulher, ex-destaque do Carnaval carioca, é 22 anos mais nova, tem duas faculdades e cuida de sua carreira. Neguinho tem cinco filhos: Paulo César, cuja mãe é uma namorada da juventude, tem 42 anos; Carla, filha de criação que mora na França, tem 36; Luiz Júnior, de 29 anos, e Ângela, de 24, são do primeiro casamento; e a caçula, Luiza Flor Morena, de 2 anos, com Elaine. Tem ainda quatro netos entre 5 e 14 anos e vai ganhar mais um em abril. Hoje mora com a mulher e a filha mais nova em Copacabana, de frente para o mar. Mas desde que seu Bené faleceu, em 2007, sete anos depois da mãe, começou a reformar a casa onde nasceu (toda em azul e branco), e foi lá, entre operários, familiares,
a piscina e a churrasqueira, que ele recebeu o editor Jardel Sebba para duas longas conversas sob um calor de quase 40 graus em um fim de semana de dezembro. Sorridente, simpático e esparramado no sofá da sala, falou por mais de 4 horas e nos brindou com uma visão íntima e privilegiada do Carnaval carioca por aquela que é considerada a grande voz da Marquês de Sapucaí.
Por que a Beija-Flor vai ser campeã neste ano?
Porque temos um excelente samba, e um bom samba é 70% de um campeonato. A comunidade está superfeliz com o enredo sobre o Roberto Carlos. E nossas fantasias estão mais leves, o que vai facilitar muito a evolução. Se com fantasias pesadas a Beija- Flor já faz o que faz, imagina ela solta. E luxo não vai faltar porque nisso a escola não economiza. Carnaval se ganha no chão, na disciplina, e a Beija-Flor é uma escola disciplinada. Nossa comunidade vive distante da praia, do Pão de Açúcar, do Maracanã. A opção de lazer são os ensaios; então quando a gente chega na avenida dá um banho. Em outras escolas tem componente que mora na Barra, outro em Niterói; na Beija-Flor todos moram por aqui mesmo. Tem ensaio segunda-feira, todo mundo vai. As pessoas dizem que a Beija-Flor é uma escola rica, pode até ser que os diretores sejam ricos, mas hoje ela é a que reúne o maior número de pessoas pobres.
Dá para saber quando a escola não tem chance de ganhar?
Já houve carnavais que eu pensei: “Pô, nesse não vai dar”. Eu só saio de casa faltando duas escolas para a Beija-Flor desfilar. Fico vendo tudo em casa. Ano passado sabia que ia ser difícil ganhar da Unidos da Tijuca, no retrasado ia ser dificílimo ganhar do Salgueiro. No ano do “explode coração” [Peguei um Ita no Norte, enredo do Salgueiro de 1993], se pudesse tinha ficado em casa. O Salgueiro foi a terceira escola; quando veio aquele “explode coração na maior felicidade”, a Sapucaí toda cantando, só saí de casa porque tinha de ir mesmo, mas a campeã estava ali. Às vezes chego na avenida dizendo: “Olha, a escola tal passou comendo o chão”. Vou de ala em ala, falo com todos os presidentes de ala. “Escola tal deu tudo certo, não quebrou carro, os caras passaram 100%. Fiquem espertos.” Isso vai passando de um para o outro.
Você comanda o samba da escola desde 1976. A responsabilidade ainda assusta?
Assustava; hoje não mais. Quando dou o grito, sinto que entrei no tom, vai tudo embora. O medo é porque é 1 hora e 20 na sua responsabilidade, sua e da bateria, em um evento que eles se programaram o ano inteiro e com investimentos fabulosos. A Beija-Flor hoje para ganhar um Carnaval gasta 8 milhões de reais. Todo esse trabalho de um ano, todo esse investimento, todos aqueles ensaios árduos que a escola fez, fica tudo na responsabilidade do cantor e do diretor de bateria. São as únicas duas peças que desfilam o tempo todo. Um cara de ala ou um mestre-sala e uma porta-bandeira desfilam no máximo 22 minutos. Se passar de 22, 23 minutos, é sinal de que a escola está estourando o tempo. O pior momento para mim, e as pessoas pensam que estão me agradando, é quando chega um diretor da escola e fala: “Aí, rapaz, tudo contigo agora, já sei que esse gogó está bonito!” Parece elogio, mas na verdade o que ele está dizendo é: “Olha aí, negão, não faz merda, não vai vacilar…” [Risos.] Ele diz dessa forma e acha que eu não estou entendendo.
Oito milhões de reais em um Carnaval não é dinheiro demais?
É muita grana. Mas a Beija-Flor faz questão de ser a melhor, isso é primordial. A melhor no canto, na evolução, na bateria, os ensaios são árduos. E faz questão de ser a mais bonita, tem esse porém.
Mas 8 milhões em um desfile não é perder a noção do dinheiro?
Não acho. É para fazer bonito? Então vamos fazer bonito. É para fazer bem? Então vamos fazer bem. Para isso tem que gastar xis.
E onde a escola tem retorno desse dinheiro?
Da própria comunidade, no comércio, na venda de fantasias.
Dá vontade de ir ao banheiro em cima do carro de som?
Eu já urinei na calça em 1986; minha sorte é que estava chovendo. Quase sempre desfilo com vontade de urinar porque a expectativa é tanta, a adrenalina é tanta que quando toca a sirene dá vontade. Quando o cara me dá o microfone, não vou correr para o banheiro; tocou a sirene, tem que entrar.
Número 2 já pintou lá em cima?
Não, nunca. [Risos.] Uma coisa que aconteceu foi que há dois anos eu estava em pleno tratamento de quimioterapia e o Anísio [Abraão David, contraventor e patrono da escola] botou lá em cima comigo um médico dizendo que era para homenagear o profissional que me operou. Mas era mentira, ele estava ali de prontidão para qualquer emergência comigo. Teve uma hora que vi o mundo rodando, já tinha uns 40 minutos de desfi le, e eu pensei: “Meu Deus do céu!” Estava cantando, olhei pro médico, olhei pra minha mulher, vi a avenida rodando e pensei que Deus precisava me dar força. De repente parou de rodar.
Você vê muita coisa estranha nas arquibancadas e nos camarotes lá de cima?
Não, a adrenalina está muito voltada para o que eu estou fazendo. No desfile oficial as pessoas ficam te gritando, te chamando, e no que eu olhar pro lado posso esquecer uma melodia, esquecer a letra, esquecer de bisar o refrão, então pode ser o papa que eu não olho. Na hora do grito eu só dou um alô para o Anísio porque esse tem que dar, ele é o responsável por aquilo tudo que está acontecendo na Beija-Flor.
Foi Anísio quem o levou para a Beija-Flor em 1975. Você já o conhecia?
Conhecia. Ele distribuía bala, doce, brinquedo, e eu, garoto, com 12, 13 anos, ia lá pegar dinheiro, moeda, doce no dia de Cosme e Damião. Ele juntava moeda o ano todo para jogar, e só criança podia pegar. E ainda dava, para cada um, um short, uma blusa, uma bola, uma boneca… E eu lá…
Ter um contraventor como patrono atrapalha a escola de alguma forma?
É uma contravenção que contribuiu e contribui muito para que o desfile das escolas de samba seja o que é hoje. Esse trabalho era uma desorganização generalizada, e os chamados patronos fizeram ser o que é hoje: o maior espetáculo do país. Minha relação com ele é maravilhosa. Não sou homossexual, mas costumo dizer que o Anísio é o homem da minha vida. Se não fosse ele talvez nem estivesse aqui dando essa entrevista porque todas as oportunidades que tive na música foi ele quem proporcionou. Ele segurou minha onda quando lancei meu primeiro disco, sempre esteve do meu lado. Eu o respeito muito.
O fato de ele ser um contraventor não faz diferença?
Não. O dia que o Brasil liberar o jogo ele passa a ser uma pessoa normal. A única diferença dele para uma pessoa normal é que o jogo no Brasil é ilegal, e ele gosta de jogo. Quando for legal ele vai se tornar um grande empresário do jogo e gerar, como gera, milhares de empregos. O Lula foi o melhor presidente que o Brasil já teve, mas ficaram só duas coisinhas que eu acho que ele devia ter feito e não fez. Uma é a prisão perpétua para crime hediondo. E a outra é justamente a abertura dos cassinos. Eu não bebo, não fumo, não uso drogas e nunca joguei, até porque respeito muito o meu dinheiro, mas os cassinos iam favorecer muita gente e ajudar nosso turismo.
Em 35 anos de avenida, quantos sambas ruins você já teve de cantar?
Ah, muitos. [Risos.] Eu costumo dizer que samba bom é o que o povo canta. Claro que tenho noção do que é um bom samba, mas prefiro seguir essa filosofia. Para você ter uma ideia, tenho um samba com o Murilo Rayol que tem quase 40 anos e diz assim: “Mulher, mulher, mulher, mulher, mulher, é a mulher, é a mulher, melhor que a mulher só a mulher, só a mulher”. Não sai disso. Se é ruim? O samba é uma porcaria! [Risos.] Foi feito de sacanagem; nunca lancei porque tinha vergonha, e foi um dos mais cantados do Carnaval retrasado.
E por que você tirou esse samba da gaveta?
Foi a minha mulher que teve a visão. Eu tinha ido fazer um show na abertura do Festival de Parintins em 2008 e reencontrei o Murilo, meu parceiro no samba. Ele chegou no palco, aí lembrei da nossa parceria e começamos a cantar. Tinha 60 mil pessoas, e eles não me deixaram cantar outra, só essa. Quando cheguei em casa cantei para a Elaine, e ela perguntou: “Que música é essa? Melô do tarado, não tem letra, é só isso?” Na manhã seguinte pediu para cantar de novo e falou que eu ia gravar. Achei que ela estava maluca. Gravei numa quarta-feira; na quinta, no ensaio da Beija-Flor, cantei e ela fez mais sucesso do que o samba de enredo. Por onde passava eu cantava e a música era um sucesso.
Você já ficou chateado por perder na disputa de sambas de enredo na Beija-Flor?
Já perdi mais do que ganhei. Hoje eu não concorro mais.
E o dinheiro que faz um samba de enredo ganhar hoje?
Hoje tem o compositor e os parceiros. Eventualmente o compositor financeiro, o cara que entra com a torcida porque tem aluguel de ônibus, tem entrada, ingresso, foguete, alegorias. A disputa do samba de enredo virou uma campanha política.
O que você achou do samba em homenagem a Roberto Carlos que Erasmo fez para este ano e que perdeu na Beija-Flor?
Um bom samba. Claro, vai dizer que o Erasmo Carlos não sabe fazer música? Claro que sabe, o cara é fera. Só que o samba de enredo especificamente já é mais a especialidade da negrada. Faltou ao samba do Erasmo Carlos cheiro de sovaco, faltou “criolice”, faltou a malícia da negrada que eles não têm. Por exemplo, um final de nota com um “ê”, um “ô”, um “á”. O cara me bota um final de nota cheia com um “í” lá no coqueiro, ele enforca a nota. “Á” dá mais eco. Tem essas maldades que a gente tem de pôr dois refrãos, um no meio, outro embaixo esquentando, uma largada valente. Era um bom samba, o Erasmo é um puta compositor, mas não tinha o cheiro de sovaco. Faltou maldade.
Mas os sambas de enredo não estão cada vez mais parecidos entre si?
Isso é por causa do samba do condomínio. Sabe o que é o samba do condomínio? O cara é professor de português e letrista, aí pega outro que é forte em melodia. Junta os dois, bota o nome dele, o teu, tal, tal, tal, o cara bota três, quatro sambas em todas as escolas. E ganha. Esse cara existe. Ele pega uma parceria que tenha uma boa influência na comunidade, mostra o samba, paga uma cerveja, queima uma carne, parte para a quadra, pronto, não tem como não dar. Ele concorre em seis escolas, ganha em cinco.
E por que todo samba de enredo tem a princesa Isabel e Maurício de Nassau?
Porque ela foi uma figura que marcou a história do negro no Brasil. Tudo que fala sobre escravidão é marcante. Zumbi, por exemplo.
E Maurício de Nassau?
Ele marcou também, é uma história de Recife, dos holandeses, está muito lá atrás, mas é recente na cabeça do brasileiro. São coisas que marcam muito a história do Brasil, o descobrimento, Zumbi, Maurício de Nassau, princesa Isabel, Canudos, Lampião. De vez em quando são lembrados.
E por que também sempre tem de ter um “iluminou”, “resplandeceu”, “reluziu”?
Antigamente tinha mais, hoje nem tanto, era um vício. O compositor da escola de samba, por não ter muita instrução, busca frases espetaculares, mirabolantes, e isso não era diferente comigo, eu também buscava no dicionário aquela frase de efeito. Então sempre pintava um “resplandeceu”, um “reluzente como a luz do dia” [risos].
Como é que você criou o grito de guerra que virou sua marca?
Surgiu em 1977 ou 1978 por acaso. Naquela época as principais escolas eram Mangueira, Salgueiro, Portela e Império Serrano. Beija-Flor, Imperatriz, hoje escolas de grande porte, eram coadjuvantes. Quando saía o LP, as pessoas ficavam procurando aquelas quatro, então dei o grito para avisar que aquela era a Beija-Flor. Era só o “Olha a Beija-Flor aí, gente!”
E o “chora cavaco”?
Esse veio uns três ou quatro anos depois. Tinha um cara do cavaquinho, acho que era o Alceu Maia, que quando eu dava o grito ele tinha de entrar. Uma vez ele estava dormindo, eu emendei: “Chora, cavaco!” Era uma espécie de “Vai tocar não, pô? Toca aí!” Ele olhou e falou: “Pô, Neguinho, desculpa…” Aí pegou.
Você não bebe mais, mas já bebeu, não é?
Uma vez ou outra. Nunca precisei beber para subir ao palco, por exemplo. No meu show não tem bebida alcoólica nem antes nem depois, e eu prefiro trabalhar com músicos que também não fumem, que eu odeio cigarro. Odeio cigarro!
Já ficou de porre?
Já. O pior porre que eu tomei foi quando dei baixa na Aeronáutica. Aquela turma conviveu quatro anos, muitos não queriam sair. Eu também não. No dia que saímos, em 1971, fomos do Campo dos Afonsos a um bar ali em Cascadura, acho que ele ainda existe, chamado Amarelinho. Tinha mais ou menos uns 200, ficamos bebendo das 10 da manhã às 4, 5 da madrugada. Era o último pagamento; recebemos, assinamos e fomos tomar um porre.
Você queria ser militar?
Foi o que pintou na época, em 1967, e naquele tempo militar tinha uma moral, carteirada valia. Chegava ao baile e era carteirada direto. Eu queria me tornar um sargento. Tinha uma certa intimidade com o futebol, jogava bem, e bom de bola em caserna naquele tempo tinha uma regaliazinha, jogava no time do capitão. Foram meus quatro anos inesquecíveis. Como soldado eu só podia ficar quatro anos. E só queria saber de ir dançar no baile do grupo Os Devaneios, um conjunto da época. Aonde esse conjunto ia levava a negrada que gostava de dançar um baile.
Como militar em 1967, você sabia o que estava acontecendo com os militares e o país naquele momento?
Não tinha a menor noção do que era ditadura. Eu falava alto: “Aí, meu camarada”. E me diziam para falar baixo porque podiam achar que camarada tinha alguma coisa a ver com o comunismo. Eu percebia que volta e meia saíam carros da Aeronáutica cheios de pessoas com marcas de tapão no rosto, ouvia falar que sargento fulano era da polícia secreta, e a gente ficava cabreiro com aquele cara, não dava muito papo, né? [Risos.]
Mas dava para bater ponto como soldado de dia e no Devaneios à noite?
Dava. Devaneios era sexta, sábado, domingo e quarta direto. Eu já fazia algumas musiquinhas, mas guardava para mim porque tinha medo que as pessoas zombassem. Quando dei baixa, passei muita dificuldade e tive um acidente na perna na porta da [escola de samba] Leão de Nova Iguaçu. Havia tentado jogar profissionalmente no Olaria em 1965, cheguei a treinar no juvenil e no infanto-juvenil. Mas quatro dias depois da baixa sofri esse acidente. Eu tinha uma namorada, o apelido dela era Neusão porque era uma mulata boazuda, hoje seria uma rainha de bateria. A gente teve uma discussão, ela meio assim [faz sinal de embriaguez], ia atravessando a rua daquele jeito, vi que o carro ia pegar, pulei, empurrei ela, me joguei, mas a perna ficou. Ali acabou a carreira no futebol. Comecei a mostrar essas músicas na Leão de Nova Iguaçu,
e as pessoas gostaram, e fui dando continuidade. Eu sou muito tímido, e a timidez já nasce com você, né? Tem três coisas que acredito que já nascem com o cara: a índole ruim, a homossexualidade e a timidez. Eu nasci tímido.
Algum preconceito contra gays?
Não, preconceito nenhum. Mas sou contra, por exemplo, os caras ficarem se beijando na rua, trocando intimidade na praia. Como você vai explicar isso a uma criança? A passeata gay foi legal, mas chega uma hora que eles extrapolam, querem beijar na boca em público, empurrar isso na marra. Na marra, não.
Tem gay na sua família?
Tem, meu sobrinho, filho do meu irmão. E, se eu tivesse um filho gay, aceitaria. Fazer o quê? Meu sobrinho é uma pessoa maravilhosa. Meu irmão no princípio não aceitou, agora já aceita. Claro, agredir um cara porque ele é gay é um absurdo, Deus me livre! Vai me bater porque eu sou preto, sou tímido ou canto samba? Ou porque o cara é nordestino? O que não aceito são certas atitudes na marra. O gay que quer que eu aceite que ele beije na boca ao meio-dia num shopping, com isso não concordo, não sou obrigado a concordar. Sou tímido, preto, feio e sambista, e ninguém tem que gostar de mim também.
Você foi criado em uma região pobre da Baixada Fluminense. Teve muitos amigos que viraram bandidos?
Com 8, 9 anos, vi muita mãe botando filho para dentro na palmada dizendo que não queria vê-lo brincando com esse neguinho porque esse neguinho ia ser bandido. E hoje muitas daquelas mães enterraram seus filhos porque eles viraram marginais, e o que ia ser bandido hoje é o Neguinho da Beija-Flor. Dos meus amigos, praticamente todos se envolveram com o crime. Eu corri esse risco também, não cheguei a ter envolvimento, sempre fui meio tímido e frouxo. [Risos.] Tinha muito medo da polícia. Eu tinha medo de levar uns cascudos, muito medo. Na minha época a polícia baixava o pau mesmo. Hoje tem direitos humanos, mas na minha época de adolescente o couro comia. [Risos.] Mas eu via gente fumando maconha, gente armada.
Chegou a correr perigo em alguma situação?
Eu era muito amigo aqui no bairro do Jorge Mochiba, andava muito com ele, ia pros Devaneios, e as pessoas diziam que ele não tinha um comportamento legal. Um dia foram para pegar ele, e eu estava junto, eu com uma namorada e ele com outra, e os caras que chegaram dando nele chegaram dando em mim também…
Porrada?
Tiro! Três caras dando tiro na gente! A gente largou as namoradas e saiu correndo. [Risos.] Teve outra com ele também, o cara deu uma navalhada nele, que caiu, ia dando uma cortada nele, quando dei uma tijolada no cara e saímos correndo. Ele era muito meu amigo. Hoje, se estivesse vivo, teria a minha idade, fomos criados juntos. Mataram ele lá em Nilópolis.
No Carnaval você passou por situação parecida?
Em 1983, na disputa do samba de enredo da Beija-Flor. Eu ganhei; quando estava indo embora parou um Fusca amarelo, me lembro como se fosse hoje, saíram os caras armados e falaram: “Aí, meu irmão, tu não vai mais ganhar samba em lugar nenhum”. Um cara da escola chamado César Morcego viu o lance e se botou na frente. “Vocês não vão matar ele e depois ainda vão ter de conversar com o Anísio!” Aí os caras desistiram. Quiseram me matar só porque perderam o samba.
E você teve coragem de inscrever samba no ano seguinte?
Claro. E depois esses caras morreram todos. Eram amigos dos caras que perderam. Eles também já estavam meio assim [faz sinal de embriaguez]. Depois a diretoria da Beija-Flor ficou sabendo, os caras foram lá, pediram desculpas, e ficou por isso mesmo.
Quanto vale o seu passe como puxador?
Não sou contra os intérpretes que mudam de escola para ser melhor remunerados, mas no meu caso nunca pedi nada para a Beija-Flor, talvez porque dos intérpretes eu seja o mais bem-sucedido financeiramente. Se alguém tem que remunerar alguém entre mim e a escola, eu viveria 500 anos e não pagaria o que a escola me proporcionou. Eu não tenho salário, não ganho nada. Também não tenho compromisso de ir a todos os ensaios para cantar, vou quando posso, a Beija-Flor não me incomoda quando tenho uma temporada, por exemplo, de três meses na Europa. Não tem nada assinado, nada de contrato, nada de dinheiro, é assim desde 1975. Logicamente que quando a corda aperta o Anísio paga o pato, né? Eu mordo e mordo bonito. Já tive várias propostas de outras escolas de apartamento, de botar 1 milhão na conta, não sei se era blefe também.
Alguma escola insistiu mais para levar você para lá?
[Pensativo.] Teve uma, mas deixa pra lá… Uma escola azul e branca também, mas isso foi lá atrás. Hoje eles nem me perguntam mais.
Mas em 35 anos você nunca pensou em deixar a Beija-Flor?
Não! Já briguei com todo mundo lá, menos com o Anísio, que aí é briga ruim… De vez em quando o pau quebra, mas é coisa de família.
Você vive do que então?
Venda de discos, shows, contratos publicitários. Geralmente fica pior em época de festa junina, quando predominam outros segmentos, mas em compensação é verão na Europa, e é quando eu meto o pé. Aí pintam uns eurozinhos…
Você passou por alguma demonstração de racismo nessas temporadas na Europa?
Uma vez, na Alemanha, a gente saltou numa estação de trem de madrugada e foi andando até o hotel em Dusseldorf. Eram uns 20 minutos de caminhada. Táxi, só ligando, e a gente não sabia. Demos de cara com uns dez carecas de bota metidos a racistas, eles vieram na nossa direção, e a gente se preparou para eles também. Tinha um na banda que arranhava um alemão e falou pros caras: “Aqui é Brasil, meu irmão”. E eles desconversaram. Viram oito crioulos, vieram com negócio de racismo e perceberam que, se partissem pra dentro, o couro ia comer, ninguém ali ia apanhar deles, não. Nas estações de trem geralmente os policiais passam com os cachorros perto da gente de sacanagem; na imigração também, eles vêm com os cachorros como quem não quer nada justamente para perto da gente. E os cachorros nem aí…
Já foi barrado em algum lugar?
Só uma vez que o cara cismou na Itália. Peguei uma pasta e dei pra ele. Quando abriu, de cara tinha uma foto minha com o Pelé, na outra com o Ronaldinho Gaúcho, na outra com o Lula. Depois disso nem pediram passaporte pro pessoal da minha banda. De repente umas três meninas que estavam chegando lá no mesmo voo quiseram entrar na aba e pediram para dizer que estavam comigo. Aí eu falei: “Não, senhora, no avião fizeram carão pra mim, puxei assunto e nem me deram papo, agora querem dizer que estão comigo? Estão não, comigo só os crioulos”. [Risos.] Viu a minha moral aqui e quer entrar na minha aba? Não…
Falando em meninas, Pinah, passista que entrou com você na Beija-Flor, era a maior gostosa na época?
Ela era maravilhosa, mas é minha irmãzinha. Pinah e [a porta-bandeira] Selminh a Sorriso são duas irmãs que eu tenho.
Tirando as duas, não perdoava mais nada?
Tive uma fase na vida que não passava nada; se viesse, morria. Tirando Pinah e Selminha, o resto morria geral. Antes de casar, no auge do sucesso, jovem, eu não perdoava nada. Podia ser bonita, feia, jovem, magra, gorda, a distinção era: morria ou não morria.
Sua contabilidade chega perto das mil mulheres?
Mais ou menos. [Risos.] Já tive muitas, mas mil acho que é exagero. Fui bastante namorador. Sexo é importante; ninguém vive sem sexo.
Teve capa da PLAYBOY nessa trajetória?
Teve. Namorei Nicole Puzzi, Adele Fátima, Enoli Lara e muitas que nem lembro o nome. Uma rainha de bateria, uma rainha de Carnaval. [Risos.] A minha mulher inclusive era uma das destaques mais disputadas na minha escola. Você vê que ela tem quarentinha, mas a bagagem ainda está ali, né?
Você está usando brinco, relógio e cordão com um beija-flor, tudo de ouro. É a sua principal vaidade?
Eu gosto. Não sei se é autoafirmação, se é coisa de quem vem do nada. O Agnaldo Timóteo diz que, quando o crioulo dá mais sorte, ou casa com loira ou se pendura de ouro. Eu prefiro morena, mas me dou bem com o ouro. Gosto desde jovem. Ia pro baile às vezes só com o dinheiro da entrada e da passagem; se arrumasse uma namorada não podia pagar uma Coca-Cola pra moça, mas sempre bem vestido. Era talvez o mais bem vestido do baile. Não dava para usar ouro como hoje, mas já era vaidoso, usava um ourinho humilde. [Risos.] Minha vaidade é perfume, joia e andar bonito.
Você enfrentou um câncer de intestino em 2008. Como foi o impacto inicial da doença?
Minha mulher que descobriu. Comentei que saía sangue nas minhas fezes, ela ficou preocupada, me levou para ver um negócio ali. Chegou lá, tinha marcado um exame. Era surpresa. Resultado: câncer no intestino. Mais quatro meses e não tinha mais jeito. Estava no nível 2, quase no 3, que é quando ele rompe o intestino e ataca outros lugares. Se entrasse no 3, saía pegando fígado, pulmão… E minha mulher com sete meses de gravidez. Fiz um ano de quimioterapia e seis meses de radioterapia. E faço colonoscopia todo ano porque é um câncer traiçoeiro, não dói, você não sente nada. A minha sorte foi que eu tive um alerta.
A primeira colonoscopia a gente nunca esquece?
Você nem vê, eu nem imagino o tamanho do tubo. E nem de curiosidade quero conhecer e sse tubo… Mas é tudo muito tranquilo.
Há perigo de o câncer voltar?
Em mais três anos tenho que fazer exame para ver se ele não volta. Mas não vai voltar, não. Há essa remota possibilidade que acaba em 2013.
Você fez alguma coisa pensando que podia morrer?
Eu comprei o meu apartamento em Copacabana por causa da pequenininha e casei rapidinho para não ter briga. [Risos.] Mas casar já era uma pretensão minha.
Falando em Copacabana, você mora de frente para o mar. Por que está reformando a casa onde nasceu, em Nova Iguaçu?
Em 2012 vou ser candidato a prefeito de Nova Iguaçu. Acredito, por exemplo, que sou a personalidade mais conhecida nascida na Baixada, especialmente nesse bairro, e a rua em que eu nasci nem calçada é. Não tenho partido, estou escolhendo. E lógico que vou continuar com a minha música, mas quero ajudar.









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2 comentários
eu tenho 12 anos mais eu gosto muito do niguinho da beija flor eu queria ser passista da beija flor eu tenho corto pow neguinho da beija flor me bota aiiiiiiiiiiiii pra min ser passista
me add ai no orkut gabryela_leve12@hotmail.com