“Me bota no Big Brother, Bial!” Enquanto cruza a passos de gigante o saguão do Aeroporto Santos Dumont, o jornalista Pedro Bial, de camiseta branca e brim azulclaro, sente ao redor o alvoroço e o frenesi que provoca. Mentalmente, ele já se prepara para ouvir a indefectível frase que o persegue em todos os lugares desde que, há dez anos, assumiu o posto de apresentador do reality show mais popular da TV brasileira. E não é só isso. “Além dos pedidos para entrar no BBB, ainda tem essa coisa do celular… Demora para tirar a foto e, depois do primeiro, sempre chegam mais cinco…”, desabafa. Não muito longe dali, um fã ensaia sacar o celular para a tão temida sessão de fotos com o ídolo. Escolado, Bial acelera o ritmo e cruza a porta de saída, alcançando ileso a área externa do aeroporto. A estratégia de fuga é mantida até chegar ao carro. Aí, sim, sentindo-se seguro, Bial relaxa. O destino, anuncia, é o Albamar, tradicional restaurante do Rio de Janeiro que ele
frequentava com o pai quando criança.

Como era um sábado de sol e logo seria a hora do almoço, o lugar estava prestes a ficar lotado por cariocas vindos da praia. “Você tem reserva?”, pergunta o maître. “Ih, não fiz!”, disfarça o apresentador, certo de que isso não seria um problema.

Ele admite que há pelo menos duas vantagens em ser famoso: uma delas é conseguir lugar num restaurante lotado. Em questão de segundos, uma mesa com vista para a Baía da Guanabara surge como que por encanto. A refeição, composta por frutos do mar e salada de folhas, é acompanhada de doses de aperitivos Tio Pepe e Underberg.

Solícito, o garçom se desdobra em cuidados e mimos, o que deixa Bial enternecido. “Se você continuar me tratando bem desse jeito, vou dar em você o beijo que o Serginho deu no Dicesar. Lambido, hein?”, brinca, referindo-se ao primeiro beijo gay da história do BBB, que havia sido protagonizado na semana anterior pelo maquiador Dicesar e pelo estudante de moda Sérgio. “Olha que a minha mulher é braba pra caramba!”, devolve o garçom. “Mas só se você contar pra ela, pô!”, argumenta Bial. “Mas ela vai fotografar e colocar na internet!”, diz o rapaz, apontando na direção da editora Adriana Negreiros, a acompanhante de Bial naquele almoço, que seria o ponto de partida para a segunda entrevista concedida por ele à PLAYBOY – a primeira ocorreu em 1995, quando ele tinha 37 anos, era correspondente da Rede Globo em Londres e definitivamente não tinha ideia de que um dia se tornaria “o cara” do Big Brother. Por cinco horas, Bial, que em março completa 52 anos, relembrou as coberturas que fez de festivais de rock e da reunificação alemã. Dissertou sobre a política de cotas, Jorge Benjor, Tropicalismo, pesquisas genéticas e Shakespeare. Era, até então, uma conversa séria que se tornaria, por assim dizer, mais adulta à medida em que os copinhos de aperitivo e as conchinhas de ostras iam chegando à mesa, como relata Adriana: “Pedro Bial fala sobre sexo com uma tranquilidade que chega a ser desconcertante mesmo para uma jornalista da PLAYBOY. Quando ele afirmou, por exemplo, em indisfarçado tom de indagação, que não sabia se as mulheres se masturbavam tanto quanto os homens, senti o rubor dominar o meu rosto”.

A entrevista teria nova rodada dali a seis dias, no recém-ocupado apartamento do apresentador. Há sete meses, ele se separou de sua quarta mulher, a produtora Isabel Diegues – antes, foi casado com a atriz Giulia Gam, a jornalista Renée Castelo Branco e a atriz Fernanda Torres. À exceção da união com Fernanda, teve um filho em cada casamento. No segundo encontro, Bial estava ainda mais à vontade, de chinelos, bermuda e camiseta. Ali ele contaria qual é a segunda vantagem da fama.

Sexo?
Eu costumava brincar que esse negócio de f icar f amoso só a j uda a arrumar sexo e mesa em restaurante. Mas eu já não estou tão interessado em jantar fora. E também não estou mais tão interessado em comer gente. Estou interessado em gente.

Será que isso tem alguma coisa a ver com a chegada dos 50?
Acho que chegou antes dos 40, mas talvez só agora eu esteja conseguindo elaborar isso. Fiquei muito tempo casado. Juntando todos, foram 25 anos de casamento, e agora estou adorando a solteirice. Estou solteiro há sete meses e desesperado, não quero ver mulher! Quero ficar solteiro. Acho que os 50 anos trazem um desejo mais seletivo.

Um colunista de fofocas comentou, ao escrever sobre sua mais recente separação, que uma ex-BBB estava
bastante feliz com a notícia.

Seria óbvio demais. Acho quase impossível ter alguma coisa com uma ex-BBB. Só não digo que é impossível porque nada é impossível. Porque, gente, eu tomo um chá de três meses, conheço aquelas pessoas intimamente, apesar de virtualmente. E aí é difícil alguém sobreviver a esse escrutínio. E também é outra geração. Eu sou o tio, não tem essa. É uma garotada.

Alguma BBB já te cantou a sério?
Não. Eu realmente acho que tem uma bela proteção geracional. Elas são umas meninas. Minha filha mais velha, por exemplo, tem 23 anos. Se eu namorar alguém minimamente próximo à idade delas, estou morto. E, na boa, eu tenho grande carinho por elas, gosto e tal, mas tesão, desejo de transar, posso afirmar que nunca rolou.

Mas as moças gostam de provocar os homens. Ficam se mostrando na piscina, revelam partes do corpo. Isso não te excita?
Como a todo homem, né? Vou te contar uma história: eu sou neófito no Twitter e escrevi sobre o livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. E o Leandro Narloch, autor do livro, tem Twitter e me mandou uma mensagem pedindo para botar o livro na casa. Eu dei um reply: “Claro, vou botar”. Até aí era um direct tweet. Mas, como eu não era follower dele, não era mais direct quando eu escrevi o seguinte absurdo: “Imagino a Fernanda lendo o seu livro e a audiência subindo sob a cueca”. Quando eu vi que era público, pensei: “Como é que apaga essa merda?”.

E como você se sentiu?
Só não me senti pior porque é uma piada igual àquelas 30 que o Casseta & Planeta faz toda terça- feira. A gente brinca quando rolam cenas bonitas na piscina. Eu canso de fazer essa piada lá na ilha de edição: “Já sinto a audiência subindo!”. Mas esse tipo de nota, sobre uma ex-BBB ter supostamente ficado feliz com a minha separação, é bem do universo do Big Brother e dos jornais populares. É natural que essa fantasia exista. Não vou ficar ofendido nem vou ficar desmentindo. Uma vez me perguntaram: “Quem já fez sexo na casa?”.

E o que você respondeu?
Eu disse: “Defina sexo. Porque há várias modalidades de sexo, não necessariamente com penetração”. A pessoa respondeu: “Com penetração”. Eu disse: “Me parece que houve sexo entre fulano e beltrana”. Não quero citar nomes, mas na época a tal beltrana me manda um e-mail: “Não fiz sexo com penetração, você tem de desmentir”. Eu falei: “Seria ridículo eu desmentir algo como ‘Beltrana fez sexo, mas sem penetração’”. Engraçado, no exterior rola muito sexo no BBB, suruba e tal. Aqui isso é malvisto pelo público. Querem romance, flerte. E, realmente, você vê filme de sacanagem hoje em dia e é muito broxante. Já vai logo no “tá-tátá”. O que excita é a dança do flerte.

Esse não seria um pensamento feminino da sexualidade? Costuma-se afirmar que só as mulheres gostam de filme de sacanagem com historinha…
Será? Então eu não sou um homem de quatro patas. Tem um componente feminino na minha libido. Acho que o que mais distingue a libido masculina da feminina é que o homem olha e deseja. Ele olha para a mulher, e o tesão dele é visual. A mulher precisa do toque. E mais: o desejo da mulher é estimulado quando ela percebe o desejo do homem. Ela só deseja o homem quando percebe que está sendo desejada.

Por falar nisso, aquele poema que você escreveu para a Priscila no ensaio da PLAYBOY é extremamente comprometedor, não?
[Risos.] Comprometedor para quem?

Bem, ali você faz referências a sexo oral…
Tem referência a sexo oral, à masturbação. Mas é que a Priscila é uma sacana. E aí eu fiquei imaginando que um dos atrativos da PLAYBOY é ser matéria- prima para a masturbação. Historicamente! Então eu fiz um versinho ali. E foi curioso porque eu me comprometi a fazer e esqueci o deadline [prazo de fechamento da revista]. Estava de férias, e me liga o editor: “Estamos fechando agora!”. Eu fiz em cinco minutos, literalmente. Mas aquilo não é um poema, é um bilhete, não tem pretensões literárias. Tem só o carinho que eu sinto por ela, porque ela entrou totalmente estereotipada, na linha “ah, é vagabunda”. E foi se mostrando uma pessoa linda, inteligente. Eu me encantei por ela.

Muitos diziam que era a sua preferida.
Eu me encanto uma semana por uma, uma semana por outra. Não sou fiel.

Você viu todos os ensaios de BBBs na PLAYBOY?
Não. É sempre bacana porque tem altos fotógrafos, altas mulheres. Mas é engraçado… Hoje em dia, para eu me excitar, para a minha masturbação, fotografia não causa nada. Agora, se eu fechar o olho e ficar fantasiando, é muito mais excitante.

Sei.
E, olha, homem bate punheta para sempre. Até morrer. Não é só adolescente que é punheteiro, homem é punheteiro. Pode estar casado, realizado sexualmente com a parceira, mas é um tipo de sexo que se pratica sozinho. Mulher eu não sei, porque mulher tem a sexualidade mais complexa. Não sei, mas acho que mulher se masturba bastante.

Você sempre teve fama de galinha. E a fama perdura até hoje.
Até hoje?

É. De onde vem essa fama?
Eu sempre tive um espírito “galinhesco”. Muito mais pelo exercício da sedução e da conquista do que da realização do coito propriamente dito. Sou ainda um sedutor. Mas esse galinha v iv ia junto com um cara que n ao tinha exatamente facilidade para se despir na frente de uma mulher na primeira noite. E hoje eu vejo, a distância, que eu era um galinha muito incentivado pelas mulheres.

Como assim?
De uns tempos para cá eu retomei amizades dos meus 10, 11 anos de idade. E aí eu fico perguntando para eles como eu era. Eles dizem: “Pô, desde que você era pequenininho as meninas se jogavam e você era muito desajeitado, não sabia lidar com o assédio”. Mas eu tô muito quieto há alguns anos, não tenho mais essa inquietude sexual de procurar objetos de desejo. Meu desejo tá bem direcionado. No momento, não tá direcionado para nada e para ninguém a não ser para mim mesmo.

Houve algum momento em que você tenha ficado muito desconcertado durante a apresentação do Big Brother?
As provas ao vivo sempre me deixam muito nervoso. O que eu faço de melhor no programa é observá-los e conversar com eles. Eu não sou muito bom em conduzir aquelas gincanas, mas estou aprendendo. Agora, desconcertado eu fiquei quando um eliminado estava saindo e uma mulher totalmente nua saiu da plateia e veio na minha direção. Fiquei numa saia justa maior ainda porque não sabia se as câmeras a tinham mostrado ou não. Não podia falar de algo que não tinha aparecido e, ao mesmo tempo, se ela t ivesse aparecido e eu não falasse… Aí é célebre a minha frase [faz voz afeminada]: “Segurança, segurança!”. Para dar ainda mais munição para os meus “muy” amigos… [Risos.]

Você é muito assediado pelos fãs?
As pessoas confundem o apresentador que fala “Você pode dar uma espiadinha” e acham que podem dar uma espiadinha no apresentador.

Que tipo de coisas as pessoas fazem?
Passar a mão na bunda. Uma intimidade assim total.

Passaram a mão na sua bunda?
[Resignado.] Em 2006, na Caravana do Jornal Nacional, chegaram a tentar enfiar o dedo no meu cu…

Homem ou mulher?
Acho que foi mulher, mas não tenho certeza. [Gargalha.] Era uma multidão. Mas a mão foi mais feminina. Mas é a tal história do “Pedro Bial”: ele é um encosto e há até uma certa dificuldade para fazer amigos e amigas. Frequentemente as mulheres se aproximam querendo dar para o “Pedro Bial”. Elas não sabem que o “Pedro Bial” não come ninguém. Se alguém come é o Pedro, mas a maioria das pessoas não tá interessada no Pedro. Tá interessada no “Pedro Bial”, que é um personagem que elas criaram. Então entendo por que o Pelé [Edson Arantes do Nascimento] se refere ao Pelé na terceira pessoa. Zero comparação, por favor. Mas imagina você ser o Pelé?!? A falta de cerimônia do público depois que houve essa transição do jornalista sério [fala com ironia] para o “Pedro Bial” é uma loucura.

Um dos comentários mais comuns a respeito dessa transição é que você era um jornalista sério, prestigiado, que cobria a Guerra do Golfo, e agora é o apresentador do Big Brother, um programa popular…
Em 1990, quando eu estava cobrindo a reunificação alemã, muitos participantes do Big Brother nem sequer eram nascidos. Então isso é natural. Agora, tem muito velho por aí que fala isso por pura implicância, por se levar a sério demais. Em 2008, eu participei da cobertura das Olimpíadas e fiquei 40 dias em Nova York fazendo a eleição do Obama. Às vezes me perguntam: “Você deixou o jornalismo?”. E eu digo: “Vem cá, você não vê televisão?”. Eu acho que o Big Brother me deu a grande chance de não me levar a sério em cadeia nacional. É bom a gente levar o nosso trabalho a sério, mas não ficar acreditando no personagem que as pessoas fazem de você. Eu não acredito no “Pedro Bial”.

Mas você acreditava?
Tive um momento de deslumbramento quando voltei para o Brasil. Eu tinha um monte de amigos novos, estava casado com uma atriz [Giulia Gam], fiquei meio “deslumbratex”. Mas passou logo.

Era arrogância?
Não, era mais uma coisa de “ninguém vai me fazer mal, vou conseguir consertar tudo”. Com o jornalismo ganhei proeminência, que é diferente de fama. Com o Big Brother ganhei fama. E não quero que essa balança descompense. Quero manter as duas coisas. A cultura da celebridade, da fama, é muito chata. O que determina a invasão de privacidade? Uma vez, no meu aniversário, peguei um objeto de cena do Big Brother – uma cabeça de coelhinho – e, quando a minha irmã veio me visitar, abri a porta com a cara do coelho. Eu estava com os dois pés dentro da minha casa e botei a cabecinha pra fora pra dar um susto nela. E tinha um paparazzo na porta de casa. Eu estava dentro ou estava fora de casa?

Sua cabeça estava fora.
[Risos.] Muito doido isso, né? E o Rio de Janeiro é mapeado pelos paparazzi. Mas eu não fico com raiva, são os empregos indiretos que a gente gera. E eu sou meio desligado, não vejo muita televisão, então tem vários famosos que eu não sei quem são. Às vezes eu dou altas gafes.

Por exemplo…
Ah, não posso contar. Mas essa indústria de celebridades cria uma atrás da outra. Às vezes é ridículo: a pessoa não faz nada, ela “é”. E tem a idealização da profissão de ator. “Ai, quero ser atriz.” Ser atriz não é querer. É para quem pode. É difícil pra caramba. Além de ter a vocação, tem de ter o dom e uma disciplina militar. Não pode ir à praia. Eu fico estarrecido de ver atores e atrizes tatuados. Isso é uma loucura! Olha o número de personagens que o cara eliminou!

Mas o Big Brother não é um dos responsáveis por essa indústria de celebridades instantâneas?
Eu acho que explora esse desejo, mas, como eu gosto de pensar as coisas sob vários pontos de vista, acho que temos de reconhecer também um desejo genuíno desses jovens em busca de reconhecimento. Com componentes narcisistas à enésima potência. É preciso ser muito narcísico para entrar no Big Brother. E estou torcendo para que neste ano tenha um grande vencedor porque nos dois últimos anos eu não gostei dos vencedores.

Que foram…
O Max e o Rafinha.

O que te incomodou?
O Rafinha é mais fofo. Mas eu acho que eles são cascas, e ganhou a casca. Como em quase todo enredo dramatúrgico, os protagonistas nunca chegam ao fim do jeito que começaram. Há um processo de transformação. Os personagens mais bonitos passam por esse processo. E o Max e o Rafinha entraram de um jeito e saíram do mesmo jeito: casca, tatuagem, carinhas e bocas.

Por que alguns dão certo, como é o caso da Grazi, e outros caem no ostracismo completo?
Aqueles que aproveitaram os recursos que o Big Brother deu para fazer o que já faziam estão bem. Mas aqueles que acharam que iam virar alguma coisa muito diferente do que eram estão sofrendo.

Imagino que o baque para quem tenha essa expectativa seja muito grande… Inclusive depois que a Grazi virou o que virou, todas querem ser a Grazi.
Mas só tem uma Grazi. Já falei com vários ex-BBBs e eles me dizem: “Que inferno! É só o lado chato da fama. Até o fim dos dias, ex-BBB tira fotografia, dá autógrafo e, dindim que é bom, nada!”. Só pessoas muito jovens tentam entrar. É raro ver alguém que tenha alguma coisa a perder entrar no Big Brother. Porque, se tiver, vai perder.

Você deixaria um filho seu participar do Big Brother?
Eu desaconselharia.

Por quê?
Por causa da estigmatização, de ser eternamente tratado como ex-BBB. Eu ia negociar. Mas é uma fantasia compreensível. Quando eu era pequeno, tinha a fantasia de que tinha uma câmera dentro do meu olho. Ficava filmando tudo.

Mas na fantasia você não se filmava.
Mas está aí o narcisismo também, essa coisa de achar que a vida real daria um filme. Quando junta com o nosso voyeurismo, dá ibope. Há dez anos, voyeurismo e exibicionismo eram palavrões, perversões. O BBB 10, com este elenco, seria impensável há dez anos.

Vocês não fariam essa seleção?
A gente reflete o que está acontecendo. O Serginho não existiria se o Jean Willis não tivesse ganhado o BBB5. A sociedade está mais tolerante. E a gente tem uma parcela de responsabilidade nisso. Então, não é que a gente não queria, é que isso não existia. O país mudou, a sociedade mudou, existe uma transexual na secretaria de Estado do Barack Obama. Quando você ia imaginar isso? O século 21 está animado pra caramba.

O beijo gay entre Serginho e Dicesar também não seria possível.
Um selinho tão inocente… Eu dou selinho assim nos meus amigos.

Publicou-se que você foi sondado pela Rede Record para comandar o programa A Fazenda. Procede?
Não. Eu tive uma aproximação da Record em 2002, logo depois do BBB2. Tivemos uma reunião, eu fiz uma proposta séria de trabalho, não se falou em dinheiro, e a resposta nunca veio. Nunca mais me procuraram. E depois, de forma deselegante, plantaram notícias de que eu estava trocando telefonemas com a Record. E isso na época em que eu estava escrevendo a biografia do Roberto Marinho. Não se pode dizer nunca, mas é difícil me tirar da Globo. Não é só a grana, é questão de trabalho. Eu me sinto coautor da TV Globo, tenho 30 anos de casa. Agora, eu me movimento pela lei do mercado. Eu não estaria no Big Brother se não fosse o mercado.

Em nosso primeiro encontro, você disse que até dez anos atrás não havia conseguido juntar um tostão. Isso coincide com sua estreia no Big Brother. É coincidência?
[Risos.] Coincide também com a aventura que foi produzir e dirigir o longa Outras Estórias, adaptado de contos de Guimarães Rosa. Captei parte da grana, mas uma grande parte eu não consegui e perdi tudo o que tinha economizado para honrar os compromissos. Perdi tudo. Demorei anos para me recuperar.

O filme não se pagou?
Não deu um tostão. E filme brasileiro dá dinheiro?!? Eu me fodi, pra falar em bom português. A experiência de dirigir foi maravilhosa, eu me orgulho do filme. É lindo, poético, mas arrasou a minha vida. Com o Big Brother houve uma ascensão salarial, mas nada perto do que se fala por aí. Sou jornalista e não posso fazer comercial. E muito da renda das estrelas da televisão não é direta, vem do merchandising. Nada disso eu ganho. Há repórteres da TV Globo que estão na minha faixa.

Britto Jr., apresentador da Fazenda, te imita?
Nunca vi.

Mentira…
Nunca vi ele me imitando.

Mas viu o programa.
Na primeira edição eu vi alguns episódios e pude constatar como é difícil fazer reality show. Mas não acho que ele me imita, acho que ele está fazendo o melhor dele. Eu teria até conselhos a dar para ele, mas não vou dar. Mas se você parar um minuto… [Bial desliga o gravador e diz que conselhos daria a Britto Jr.]

Ok. Em 1998, um áudio em que você dizia que “balé é coisa de veado” foi ao ar no Fantástico.
Eu tento me convencer até hoje de que foi a Lei de Murphy, mas acho que foi derrubada.

O que aconteceu exatamente?
Eu falo muita merda antes de entrar no ar ou gravar pra ir soltando a adrenalina. Também entro jogando lavanda Johnson’s em todo mundo.

Lavanda Johnson’s?
É, aquela de nenê. Porque na televisão a vibração é muito pesada. A gente tava gravando a cabeça [o texto de abertura] do Balé Kirov. Terminou, deixaram gravando, e, para implicar com a Glória Maria, eu disse: “Isso é coisa de veado!”. Bom, foi gravado. A fita foi editada, passou por cinco revisões, mas foi ao ar. Então meu paranoicozinho acha que foi Lei de Murphy demais. Mas passou, e eu consigo rir do que passou. Só não consigo rir do boato plantado na Copa de 1998 de que eu estaria tendo um caso com a Suzana Werner [namorada do atacante Ronaldo na época]. Eu fui pra Copa com a Giulia [Gam, então sua mulher] e meu filho de 3 meses. Conheço o Ronaldo desde 1994. Ele era um menino guloso que saía para passear e me pedia para pagar um cheeseburguer pra ele. Ele era meu brother. Um dia cheguei no treino da seleção e um amigo me falou do boato.

Como foi que surgiu esse boato com a Suzana?
A história é que eu levava as baterias do equipamento, que eram pesadíssimas, para a entrada ao vivo da Suzana. E a transmissão internacional volta e meia a focalizava. E lá estava eu ao lado dela. Saía gol, e a gente se abraçava. Aconteceu também que eu consegui uma exclusiva com o Romário. Foi um furo, e todo mundo ficou puto. Não sei se tem relação, mas inventaram esse boato. Quando soube, chamei o Ronaldo, falei com ele, e ele disse: “Eu tô sabendo, mas começou dentro da sua redação, entre vocês”. E foi ruim porque era totalmente desprovido de verdade. E isso colou na minha biografia. Até hoje tenho de falar disso. E essa é uma das poucas histórias em que eu não consigo achar graça. Me fez mal mesmo.

Você já processou alguém por ter escrito alguma mentira a seu respeito?
Quando teve o tal boato da Suzana Werner, eu disse: “Vou botar pra quebrar”. Só que não foi publicado em lugar nenhum. Como é que você combate o boato? Não dá. Aí o supostamente sério jornal El Clarín, da Argentina, deu uma matéria dizendo que tinha acontecido. Pensei: “Vou processar o Clarín”. Mas era na Justiça argentina, ia dar um trabalho muito grande.

Vamos relembrar algumas de suas afirmações à PLAYBOY em 1995 [Bial tem uma cópia com trechos marcados]. Uma delas é bastante contraditória com o rumo que sua vida tomou.
Quando eu digo que casamento é para sempre?

Não, quando você critica as pessoas que se casam, têm filhos, se separam, voltam a se casar, ter filhos e se separar.
Pois é. Na época em que dei essa entrevista estava casado com a Renée. Fiquei 11 anos com ela. Me separei e casei com a Giulia, com quem fiquei casado menos de três anos. E de onde nasceu o Théo, felicidade da minha vida. Me separei, casei com a Isabel, fiquei nove anos casado com ela. E nasceu o José, outra alegria da minha vida. É, é um casa-separa danado. Mas nove anos de casamento, 11 anos de casamento e um casamento mais curto de dois, três anos… Como diz o Jack Lemmon no final de Quanto Mais Quente Melhor: “Ninguém é perfeito!”. [Risos.] E eu continuo achando que casamento é uma instituição terrível.

Por quê?
Onde o indivíduo é sufocado, a tirania vai pintar. Um amigo uma vez me disse: a pior coisa a que você pode submeter um amor é a um casamento. As pessoas têm de se amar muito e ter um projeto comum, um contrato muito claro para um casamento durar.

Contrato?
Em todos os sentidos. Vai ter separação ou comunhão de bens? Vamos dormir na mesma cama? Vamos ter filhos ou não? E essa é uma justificativa para o casamento, querer ter filhos. E na mulher chega uma hora em que o relógio biológico pede para reproduzir. Pô, mulher virando os 30, eu olho e fico “oh!”, é um espetáculo. É a mulher escrava da natureza, não só sangra uma vez por mês como “ah, agora vai reproduzir”. É incrível.

Em sua cópia da entrevista, você grifou o trecho em que fala sobre trair e contar. Por quê?
Acho a “corno-mansuetude” uma característica fundamental para o homem. Corno revoltado é ridículo. Tem de ser corno manso. E o melhor corno manso é aquele que não sabe. Se a mulher quer pula r a cerca, pula, mas não conta. E eu conheço alguns homens que souberam e conseguiram exercer a corno-mansuetude, mas com uma puta raiva. Quando eu fui corneado, isso me despertou um desejo sexual enorme. Você sabe que tem dois tipos de espermatozoide, né?

Não.
Um que fecunda e os guarda-costas para brigar com os espermatozóides de outros homens.

Então sua teoria é a de que o cara quando leva um chifre…
Fica com o maior tesão! E não é teoria, não. É prática! O cara quando é chifrado fica com o maior tesão na mulher, quer comer e come com raiva! E comer com raiva às vezes é bom. É aquela coisa do provérbio inglês: “Você acha sexo uma coisa suja? Não, só quando é bom”. [Gargalha.]

O advento da aids fez você mudar o comportamento sexual nos anos 1980?Afinal, você teve um amigo que morreu de aids, o Cazuza.
Fui irresponsável. Sou de uma geração que não foi criada usando camisinha. Para um homem adulto, depois de uma certa idade, aprender a usar camisinha é complicado. Distrai na hora. Fiz besteira de transar sem camisinha. Mas no início a aids era guetificada, doença de homossexual. Quando se tornou claro que não era só isso, meu facho já estava baixando.

Você e Cazuza aprontaram muito?
Na verdade, nos anos 1980 eu me separei do Cazuza, fomos mais amigos na década anterior. Nos anos 1980 ele investiu no Barão e eu, na TV Globo, o que era muito diferente. [Risos.] Mas, quando a gente se encontrava, era uma garrafa de uísque, fácil. Uma vez eu fui gravar um Globo Repórter sobre a história do rock brasileiro. O Cazuza ia fazer um show em Santos, e nos encontramos no hotel. Gravamos a noite inteira, e só foram ao ar 2 segundos em que ele dizia [faz voz de bêbado]: “Mentiras sinceras não me interessam!”. E, pronto, os dois completamente bêbados! É a história da minha geração. The best mind of my generation! Uma geração em que era forte o cheiro de fumo.

Você experimentou todo tipo de drogas?
Eu não gostaria de detalhar muito porque acho isso muito pessoal. Mas, sim. Naquela época as drogas não eram tidas como nocivas; ao contrário, eram justificáveis. Aldous Huxley, As Portas da Percepção. Foi fatal para muita gente, muitos morreram. I’m a survivor! Mas é aquela coisa, tem de contextualizar. Eu nasci em 1958, fui criado sob a dita- dura militar. Na década de 1970, havia a maior vista grossa da polícia em relação a drogas. Eu vivi os anos 1970. E o que talvez tenha me salvado de virar um junkie foi o esporte [Bial era jogador de basquete]. Perdi meu pai com 14 anos, minha mãe desesperada para segurar a família. E eu soltão no mundo. Hoje, adulto, o que talvez me faça beber socialmente, e não sociopaticamente, seja o trabalho. A televisão ao vivo já é uma droga muito pesada para usar qualquer outra coisa. Houve Big Brother em que eu estava com muita ansiedade e usava Rivotril para entrar no ar. Mas já não faço mais isso. O trabalho talvez me salve de virar um bebum. [Risos.]

Você gosta de beber.
Gosto, sou um bebedor pesado. Raro é o dia em que não bebo uma taça de vinho. Mas eu não tô aqui pintando um Farrapo Humano [filme de Billy Wilder], não. Eu tenho um tipo de alcoolismo, mas não é nada que comprometa a minha vida, a profissão, a relação com a família.

Você não é um alcoólatra no sentido médico do termo, então?
No sentido de que o alcoólatra só pede ajuda porque fez muita merda por causa de álcool. Eu fiz merda por vários motivos, mas não por causa do álcool. Mas sem dúvida tenho sempre de tentar me segurar para não beber demais.

Qual é sua bebida favorita?
Evito destilados, mas adoro Underberg alemão, naquelas garrafinhas charmosas. G osto d e fazer coquetel .

Então, por favor, ensine ao leitor da PLAYBOY uma receita matadora para oferecer a uma moça na primeira noite.
Isso deve variar de moça para moça, não acha? O óbvio e indiscutível é um bom champanhe francês. Mas, quanto a coquetel matador, nada como um dry martíni, feito como manda o nome: seco, porque não tem Martini. É gim na veia, perigosíssimo.

Em nosso primeiro encontro, você disse que evita ler críticas a seu respeito, seguindo o exemplo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Você vai ler esta entrevista?
Mal posso esperar. [Risos.] E ainda vou ver as figuras!