Era janeiro de 2003, e o Palmeiras se preparava para disputar a Copa São Paulo Júnior, tradicional competição sub-19 do calendário nacional sediada no estado de São Paulo. Instalado em São José dos Campos, o Alviverde precisava ganhar do time local, o Joseense, para passar para a segunda fase da competição. Mas uma pequena confusão na véspera quase atrapalhou tudo. O técnico Karmino Colombini levou a família para ficar hospedada no sexto andar do mesmo hotel da delegação, que ocupava o segundo e o terceiro andares. Um dia, ao sair do quarto da esposa, deu de cara com seu promissor centroavante de 18 anos, Vagner Silva de Souza, saindo de outro quarto no mesmo andar. O quarto estava ocupado por uma moça que o jogador havia conhecido na vizinhança do Parque Antártica, sede do Palmeiras, na Zona Oeste de São Paulo, e que foi, digamos, visitá-lo no interior. “Pintou uma amizade. Nós ficamos juntos. Quando fui para São José dos Campos, convidei-a para ir e ficar no mesmo hotel. Fui visitá-la no quarto, e o treinador descobriu”, lembra Vagner. Além de dor de cabeça e uma quase expulsão do time, o episódio lhe rendeu um apelido: ali ele virou “Vagner Love, o artilheiro do amor”. O Palmeiras foi vice-campeão do torneio e, no mesmo ano, a equipe profissional foi campeã da Série B com o recém-batizado Love como artilheiro da competição, com 19 gols. Nascido em Bangu, no subúrbio do Rio de Janeiro, em 11 de junho de 1984, Vagner deu seus primeiros chutes aos 8 anos, depois que o pessoal da rua convenceu seus pais, seu Ivan e dona Jaira, a matriculá-lo na escolinha de futsal do Bangu Atlético Clube. Ficou dois anos na tradicional agremiação do bairro, até ir para o São Cristóvão e chegar ao Vasco da Gama, de onde foi dispensado em 1999, o que quase o fez desistir do futebol. Voltou a tentar a profissão no Campo Grande do Rio de Janeiro e fez teste no São Paulo, em ambos os casos sem sucesso. Até que, em 2001, teve uma chance no Palmeiras, onde se estabeleceu, virou artilheiro e subiu para os profissionais – e, claro, ganhou o apelido que vai carregar para sempre.
Vagner seguiu com a fama de artilheiro no Palmeiras até 2004, quando foi vendido para o CSKA, de Moscou. Ficou cinco anos na Rússia e virou ídolo do clube, que ganhou 11 títulos, entre eles uma inédita Copa da Uefa 2004/2005, em sua primeira temporada por lá. Voltou por empréstimo ao Palmeiras em 2009, mas, depois de uma briga com integrantes de uma torcida organizada, transferiu-se para o Flamengo. Meses depois, teve de retornar ao CSKA. Em 2012, voltou em definitivo ao futebol brasileiro, comprado pelo Flamengo para dividir os holofotes do time da Gávea com Ronaldinho Gaúcho. Instalado num condomínio-spa, com a Praia da Barra da Tijuca à frente e Romário como vizinho no bloco ao lado, Vagner está mais perto dos filhos (Enzo, de 5 anos, do casamento com Marta, que durou três anos; Vagner “Lovinho”, de 7 anos, e Cauã, de 2, de outros relacionamentos) e dos olhos de Mano Menezes, técnico da seleção brasileira. Com a camisa canarinho, o centroavante jogou 21 vezes, fez quatro gols, mas nunca se firmou como uma opção. Vagner Love conversou com o editor Jardel Sebba em duas oportunidades. A primeira, em fevereiro, depois de treinar no Ninho do Urubu, centro de treinamento do Flamengo em Vargem Grande, na Zona Oeste carioca, no dia em que o clube estreava na Libertadores contra o Lanús, em Buenos Aires (ele cumpria suspensão por uma expulsão em 2010). A segunda foi nas dependências do condomínio-spa onde mora, no dia seguinte a um desastre rubro negro. No terceiro jogo da Libertadores, em casa, o time vencia o Olimpia do Paraguai por 3 a zero até os 31 minutos do segundo tempo, quando, em 13 minutos, tomou o empate em pleno Estádio do Engenhão. “Eu nem o vi chegando ontem”, confidenciou, no fim da manhã seguinte, um desolado porteiro flamenguista. Vagner chegou pouco depois da 1 da madrugada e disse que só conseguiu dormir com o dia amanhecendo, pensando no jogo. Simpático, sorridente, ele interrompeu as sessões de conversa apenas para atender, pelo rádio, Lucilene, sua segunda mulher, uma esteticista de 26 anos com quem vive há um ano. Sem fugir de nenhum assunto, ele falou sobre sexo, dinheiro, seleção brasileira, torcidas organizadas e, claro, a doce responsabilidade de defender o título de “artilheiro do amor”.

O artilheiro do amor já broxou?
Nunca. Mas pode acontecer e, se acontecer, vai ser uma coisa normal, acontece com todo homem. Ainda mais hoje, que estou com a minha mulher, não teria problema nenhum. Mas nunca aconteceu.

Um cara com esse apelido sofre a pressão de ter sempre de se desempenhar bem no sexo?
Não. Quando eu vivia na noite, curtindo, muitas mulheres chegavam em mim e perguntavam: “Vamos ver se você é Love mesmo?” Mas acho que o homem não tem de dar três, quatro numa noite. Acho que tem de dar é uma bem dada porque a primeira impressão é a que fica. Uma bem-feita vale por três, quatro.

Alguém já se decepcionou com o artilheiro do amor?
Que eu me lembre, não. [Risos.] Se decepcionei, não me contaram.

Você é um cara jovem, que ganha muito dinheiro e é famoso. Não é chato ser casado numa situação dessas, enquanto está cheio de mulher querendo sair com você por aí?
Não, já curti bastante a minha vida, já me diverti, hoje eu sou um novo Vagner Love. Um cara mais caseiro, mais quieto, que quer fazer programa sempre a dois. Hoje curto minha vida de outra forma. Claro que gosto do meu funk, do meu pagode, mas tudo na hora certa, e sempre com a mulher ao lado.

Aproveitou bastante mesmo?
Mesmo estando no segundo casamento aos 27 anos? Aproveitei, curti bastante a vida. E, mesmo quando eu estava num relacionamento, eu pulava a cerca [risos].

Você sempre pulou a cerca?
Acredito que sim. Fui fiel em algum momento, mas, quando começa aquele desgaste, as brigas, você acaba sendo infiel antes de terminar. Quando começam as brigas, você começa a se encher daquilo.

Há muitas mulheres que cercam os jogadores de futebol. Como é a sua relação com as chamadas “marias-chuteiras”?
Elas querem aproveitar. Elas querem ter e querem falar para as outras: “Olha, fiquei com o fulano, fiquei com esse, com aquele…” Entre elas tem competição. “Ah, você ficou com ele? Então vou ficar com ele também porque aí ele vai querer ficar comigo, e não mais com você.” Além da competição, elas querem status e um pouquinho de fama.

E elas aceitam o fato de que um cara como você se casou, ou é melhor não sair à noite para não descobrir?
Não sei porque não tive mais contato com ninguém, inclusive troquei todos os meus telefones porque não quero mais problema para a minha vida… [Risos.] Também não tenho curiosidade de saber se elas gostaram ou não, mas acho que muitas não gostaram…

Você acha que deixou saudade, então?
Acredito que sim.

Quando tinha comparação entre quem pegou quem, tinha também comparação de tamanho, tipo fulano é mais bem-dotado, o outro não é tudo isso?
[Risos.] Cara, tem mulher que fala! “Fulano é grande, fulano é pequeno…” Mas acho que tamanho não é a questão, tem de saber fazer. Mas tem mulher aí que gosta de chegar no meio de todo mundo e largar: “Fulano gosta disso, fulano é pequeno, fulano é grande…”

“Gosta disso” eventualmente é um dedo num lugar diferente?
Tem mulher que fala bastante essas coisas.

Como foi a sua primeira vez?
Foi quando eu tinha 14 anos. Nessa época eu arrumei uma namorada que tinha 25 anos, ela era lá do meu bairro…

Como é que você conseguiu isso?
Não sei. [Gargalhada.] Acho que foi esse meu jeito, né? Sempre fui carinhoso, carismático, com um sorriso no rosto. Acho que isso a encantou, e acabou acontecendo.

Essa mulher deve ter te dado umas aulas…
Ela deu, e eu aprendi bastante, foi bom. Eu era novo, estava cheio de energia, cheio de amor para dar…

Sexo antes do jogo atrapalha?
Não faz diferença. Nesses últimos seis meses que estava na Rússia, fiquei a maior parte do tempo em casa porque estava sozinho, não tinha brasileiro no time, e pedi para ficar em casa porque não ia aguentar ficar na concentração sem conversar com ninguém. Aí, em casa, sem fazer nada, fazia [sexo] e não atrapalhava em nada. Acho que entrava até mais relaxado em campo, mais tranquilo.

Sexo é bom todo dia?
Eu gosto. E sinto muito a falta. Às vezes, quando você fica em concentração mais de uma semana, tem de usar o telefone, o computador, a imaginação…

Jogador se masturba na concentração?
Sim, com certeza. Se eu ficar uma semana na concentração sem a minha mulher, falo: “Princesa, estou igual ao Homem-Aranha, já. Estou jogando teia nas paredes…” Aí tem de usar a criatividade.

Entre os jogadores rolam festinhas com suruba, como a gente imagina?
Se rola?!? Hoje eu sou casado e feliz, mas rola.

Numa boa festinha dessas, tem quantas mulheres para cada um?
Para cada um? Caraca, aí é mulher, hein? Se tiver seis homens, vamos dizer que vai ter umas oito mulheres, por aí.

Mas ainda pinta mulher em concentração de vez em quando, não?
Só fiz isso uma única vez na vida. E é uma coisa que eu não aconselho a nenhum jogador que esteja começando. Porque comigo surgiu o apelido, foi uma coisa errada que acabou dando certo, vamos dizer assim, mas não é certo.

Você nunca mais botou uma mulher dentro do quarto, mas já viu mulher no quarto dos outros?
Ver, eu nunca vi, mas a gente sabe quando tem alguém. A gente sempre sabe. E geralmente tem. Isso nunca vai acabar.

Na concentração, além de mulher, também passa uma cervejinha de vez em quando?
Em véspera de jogo, não. E eu não concordo. Se fizer na minha frente, eu falo: “Amanhã, ganhou o jogo, pode beber. Agora, não”. Nunca vi e, se vir, não vou concordar.

Mas tem muita coisa que rola no ambiente de vocês que fica só entre vocês, que nem clube nem imprensa nem treinador sabem, não tem?
Tem muita coisa entre a gente que ninguém sabe. Mas, se tiver bebida, vou ser contra.

Tem jogador com problema em casa que pede ajuda para os colegas?
Sim. Tem de ver com quem você tem mais amizade. Aqui no Flamengo tenho mais amizade com o Ronaldo, com o Léo Moura, com o Rodrigo Alvim. O Léo é de Bangu e, quando ele era profissional no Palmeiras e eu era juvenil, às vezes ele me levava para comer numa churrascaria e eu matava a minha fome por uma semana. Eu não tinha grana, e ele tinha a moral de me levar pra jantar! Quando um cara desses tem uma dificuldade em casa, a gente acaba conversando e um ajuda o outro.

Lembra-se de algum caso cabeludo que aconteceu com um colega seu, tipo alguém que pegou a mulher traindo ou foi pego com uma amante?
É mais quando a mulher pega o cara, né? Quando ele é pego numa mensagem de telefone… Tem jogador com quem isso acontece direto. O cara é casado, esquece, dá mole, a mulher pega o telefone e daqui a pouco o cara vem dizer: “Meu irmão, babou. Minha mulher pegou o telefone, viu uma mensagem…”

E aí?

A gente tenta aconselhar, falar alguma coisa. Ou confessa ou fala que é mentira, nega até a morte, dá um jeito, inventa alguma coisa. Tem de ter criatividade aí…

Você já foi pego numa situação dessas?
Com mensagem telefônica, já…

Negou até a morte ou confessou?
Às vezes negava até a morte, às vezes não tinha como porque era uma coisa muita escancarada. Daí não tinha jeito, tinha de dizer: “Desculpa, foi um caso sem pensar. Pensei com a cabeça de baixo. Não vai acontecer mais. Enfim, te amo…”

E colava?
Às vezes, sim [risos].

Você ficou ao todo seis anos e meio jogando no CSKA de Moscou e chegou a pegar temperaturas de 27 graus negativos. Dá para transar com 27 graus negativos?
Dá, tranquilamente. Em casa, no restaurante e no shopping sempre tem aquecedor, então é tranquilo. O negócio é na rua mesmo. E eu não ficava andando na rua porque não sou maluco de fazer isso com -27, -30 graus.

E as mulheres russas, o que só você sabe sobre elas?

Para mim as mulheres mais bonitas de rosto do mundo estão lá. E eu fui feliz lá, mas não fiquei com muita mulher russa, não. Conheci muitas mulheres lá, mas, ficar mesmo, foram poucas.

Por quê?
Às vezes não tinha vontade, ia curtir na danceteria à noite e ia pra casa. Às vezes saía pra dançar, ia jogar um boliche, até no cinema eu fui.

Mas você chegou a ficar solteiro na Rússia por um tempo. As mulheres lá tinham curiosidade sexual por você ser brasileiro e por ser negro num país onde não há negros?

Elas têm. As russas tinham muita curiosidade com os negros, com jogadores de futebol. Mas acho que elas têm curiosidade com estrangeiros em geral. E, quando fui agora negociar minha saída, encontramos uma russa no aeroporto de Paris e ela contou que estava há sete anos casada com um brasileiro negão. [Risos.] Tem o Zelão, que jogou no Corinthians, foi jogar lá e casou com uma russa; o Jean, zagueiro que jogou no Flamengo, é casado com uma russa. A partir da curiosidade das russas, algumas pessoas acabaram até formando família [risos].

E com racismo, teve?
Não. Dentro de campo, um jogo ou outro, e em alguns jogos fora de Moscou, a torcida fez: “Uh, uh, uh” [uma imitação de macaco], mas nunca levei isso a sério. Aquilo era para mim, com certeza. E na rua sempre me trataram bem. Sempre fui muito querido, nunca tive esse problema lá.

E a Máfia russa, você viu ou ouviu falar em algum momento por lá?
Nunca conversei com ninguém, mas já vi uns figurões passando, um carro na frente e mais seis carros em volta. Já vi tipo depois dos jogos, saindo do estacionamento, pegando o carro deles e indo embora, dentro do estádio. Eles eram torcedores, tinham ido assistir a um jogo. A Máfia russa existe, com certeza, mas nunca tive nenhum tipo de contato, só vi de longe… Melhor assim.

O treinador do Flamengo, Joel Santana, é conhecido no meio como “Papai Joel” por ser mais liberal no trato com os jogadores. Ele deixa vocês fazerem o que querem mesmo?

O que quiser, não, tudo é dentro dos limites. Ele trabalha há muitos anos dentro do futebol e sabe do que o jogador gosta, o que ele quer fazer, mas nada pode extrapolar. Ele não deixa a gente fazer o que quer. Ele senta com a gente e pergunta, da melhor maneira, a que horas a gente quer ir dormir na concentração, a que horas a gente quer trabalhar, se de manhã ou de tarde. A gente procura entrar num consenso.

O Adriano foi dispensado no mês passado do Corinthians, e há uma boa chance de ele vir para o Flamengo. Vocês jogaram juntos em 2010. Como era a convivência com ele dentro e fora de campo?
A gente conversava muito, e eu frequentava a casa dele. Não era de sair junto, mas a gente se falava sempre. Todo mundo conhece o Adriano, sabe o jogador que ele é. Se ele voltar à forma física dele, voltar a ser o Imperador que sempre foi, será muito bem-vindo.

Dizem que o Adriano tem um problema de alcoolismo. O que você, que já conviveu com ele, pensa sobre isso?

Eu discordo. Um jogador de futebol que tenha um problema desses dificilmente consegue treinar e jogar. O cara que é alcoólatra, pelo meu conhecimento, acorda às 6 da manhã e já toma uma cachaça. Ele não, ele de manhã acorda e vai para o treino, como vinha fazendo em São Paulo, como fazia aqui. Fiz milhares de coletivos com ele.

Mas você já falou várias vezes que gosta de tomar a sua cervejinha. Já ficou de porre?
Cara, todo mundo tem o seu dia de porre. Já fiquei, mas não é sempre, e nunca na frente de todo mundo. Às vezes na frente da família, dos amigos, em casa. Afinal, já estou em casa mesmo, fico de porre e vou dormir. Na minha folga, tenho o direito de fazer o que eu quiser, como todo ser humano. Claro que a  gente depende do nosso corpo para trabalhar, então hoje, mais experiente, gosto de fazer tudo no tempo certo. Bebo minha cerveja quando tenho vontade e estou de folga. Se no outro dia não vou fazer nada, posso tomar minha cervejinha porque terei o dia seguinte livre para descansar.

E você não gosta de vodca, mesmo tendo morado tanto tempo na Rússia?

Não. Caipirinha eu até tomo de vez em quando, não sempre, mas eu gosto mesmo é de uma cervejinha, de um chopinho gelado.

Em 2010, a TV Globo exibiu um vídeo seu na Favela da Rocinha no qual traficantes armados apareciam à sua volta. O que você tinha ido fazer lá?
Eu fui curtir um baile funk. As pessoas que estavam armadas não estavam comigo. Quando cheguei, aquelas pessoas vieram para o meu lado. Quando cheguei ao baile, por ser um cara conhecido, eles chegaram ao meu lado com as armas. Não sou eu que tenho de pedir para as pessoas abaixarem as armas. Eu não posso chegar para o bandido e falar: “Abaixa a arma ou tira a arma daqui porque eu estou chegando”. O trabalho, quem tinha de fazer, era a polícia, como foi lá e fez. Tiraram os bandidos, tiraram as armas. Hoje na Rocinha tem UPP, e é assim que tem de ser. Mas não era eu quem tinha de fazer isso.

Aqueles caras eram seus amigos?

Não. Nem conhecidos. Não conheço, não tenho contato ou telefone. Se tivesse amizade com um deles, poderia dizer, mas não tenho amigos nesse meio. Tenho amigos na Rocinha, inclusive na Associação de Moradores, pessoas com quem eu converso, ligo e ajudo sempre no final do ano, no Natal.

Da sua infância em Bangu, você teve muitos amigos que foram trabalhar no tráfico?
Tive e perdi muitos amigos assim. Onde morei, em Senador Camará [bairro vizinho a Bangu], via muito tiroteio. Como morava no primeiro andar, embaixo da minha janela tinha gente enrolando droga, vendendo. E sempre me chamaram para trabalhar, me chamaram para usar drogas, mas minha mãe sempre me ensinou o que era certo e o que era errado. E graças a Deus nunca me envolvi nem para usar nem para trabalhar.

Há casos famosos de jogadores que sofreram com dependência de drogas. Você já viu gente usando ou sob o efeito de drogas no ambiente profissional?
Pessoas que eu conheço já me ofereceram: “Vamo aí, é legal”. Mas, no ambiente profissional, não. E tem doping todo jogo, né? Então, se o cara fumou hoje e sábado tem jogo, ele vai acabar caindo no teste antidoping. E aí ele está ferrado, certamente acabou a carreira dele. Não tem mais como fazer isso.

Você já trabalhou com jogador homossexual?
Acho que não. Histórias tem, mas ninguém sabe se é verdade ou mentira.

Seria tranquilo trabalhar com um?
Não pegando em mim, seria tranquilo. [Risos.] Só trabalhando dentro de campo, está tudo certo. Eu tenho conhecidos homossexuais e não tenho nada contra. Cada um com seu cada um. É a opção dele, e ninguém tem nada a ver com a vida dele. Ninguém paga as contas dele, ninguém faz nada por ele, então, se ele quer dar, quer comer outro homem, a vida é dele e ele faz o que ele quiser. Não mexendo comigo, não me pegando… Minha mulher pode pegar em mim, mas, homossexual, não.

A saída de Ricardo Teixeira da presidência da CBF foi algo bom para o futebol brasileiro?
Não acompanhei o que estava se passando porque estava em Moscou. Eu nem sei o que está acontecendo, sei que ele renunciou ao cargo, mas não sei se moveram alguma ação contra ele. Mas é um assunto que também não me interessa muito. Para mim, é indiferente.

Você teve contato com ele em algum momento?
Só na época em que estive na seleção, cumprimentar, nada além disso.

Por que você não emplacou na seleção?
Acho que esperavam muito na seleção, e não correspondi à altura por ser um pouco mais jovem. Foi um pouco também pelo esquema tático, pelo estilo de jogo. Agora, mais experiente, se tiver um bom desempenho no Flamengo, terei uma nova chance e acho que farei melhor, com certeza.

A revista PLACAR fez uma matéria sobre os camisas 9 que passaram pela seleção às vésperas da Copa de 2010, e o Tostão disse ali que “Vagner Love não é jogador de seleção”. O que você acha dessa frase?
Cada um tem sua opinião. Ele teve a época dele, foi um dos melhores jogadores do futebol brasileiro, mas não o conheço. Como ainda estou jogando, tenho como mudar isso ainda. Se eu não sou jogador de seleção, posso virar…

O ambiente de seleção é muito mais rígido do que um ambiente de clube?
Sim, seleção é uma coisa mais fechada. A gente se vê pouco; então, quando se juntam os jogadores da seleção, é mais fechado.

A camisa amarela pesou?
Não, em nenhum momento. Eu sempre fui tranquilo. Não deu porque não rolou, não era a hora.

Se você fosse patrocinado pela Nike [Love tem contrato com a Adidas, concorrente da marca], seria mais fácil ser convocado?
Não sei, acho que não. Vai ser convocado quem estiver no melhor momento, independente de patrocínio.

O técnico Mano Menezes vem sendo questionado. O que você acha do trabalho dele na seleção?
Futebol é resultado, né? Se a seleção estiver dando resultado, o Mano está bem; se não estiver, todo mundo vai questionar, criticar. Acho que agora é a hora de ele começar a formar um grupo porque já está chegando perto, faltam só dois anos para a Copa.

O que viu, gostou?
Ele está fazendo um rodízio, testando jogadores para definir a base que ele vai querer para a Copa.

Já teve contato com ele? Sabe se ele gosta de você?
Não tive. Mas tomara que goste… [Risos.] Espero que ele goste e me dê uma nova oportunidade. Mas não sei se ele conta comigo.

No mês passado, torcedores morreram em confrontos de torcidas em São Paulo. Torcida organizada é um mal para o futebol?
Não é um mal. Eles vão lá, torcem, gritam e apoiam. Acho que acabar é uma palavra muito forte.

O que precisaria é que as pessoas tomassem um pouco mais de providência e mais cuidado com as organizadas porque elas estão tendo direito de fazer muitas coisas, né?
Esse ato de violência é uma coisa muito chata, pode pegar qualquer lugar do mundo que isso não acontece. Só no Brasil uma torcida organizada invade um centro de treinamento tentando agredir um jogador. Protestar de uma forma normal, ir ao estádio, xingar, chamar o jogador de mercenário, botar dinheiro para fora, isso faz parte. Agora, agredir jogador, isso, sim, teria de acabar.

No final de 2009 você foi ameaçado por torcedores do Palmeiras em uma agência bancária em São Paulo. Você sentiu medo?
Naquele episódio eu estava sozinho, mas ainda bem que sou nascido e criado em Bangu e sempre fui esperto, sempre consegui me virar. Então, como eu estava sozinho e eles eram três, não saí com um olho roxo ou com um sangramento, nada. Eu consegui me virar com os três. E acho que eles são mais putos comigo hoje justamente porque eu não apanhei deles. Vieram os três, eu me virei com os três, não bati, mas também não apanhei.

Você é bom de porrada?
Olha, nunca dei mole na rua, não. Meu pai dizia que, se eu apanhasse na rua, ia apanhar em casa de novo. Ele dizia: “Se ele for maior que você, pega pau, pega pedra, taca e sai correndo”. E eu sempre fui bom de correr; então, se precisasse, corria.

Qual foi a última vez que você brigou de verdade?

Ah, não lembro, mas faz muito tempo. Era mais coisa de adolescente, de qualquer coisa querer sair na porrada. Jogava bolinha de gude, acontecia alguma coisa no jogo, e a porrada já comia. Na infância é que tem muito isso. Mas, depois de velho, brigar pra quê?

Você conviveu com o goleiro Bruno no Flamengo em 2010. Concorda com a famosa frase dele: “Quem nunca saiu na mão com uma mulher?”
Sair na mão, não… O homem tem muito mais força do que a mulher. Se a gente sair na mão acaba com a vida de qualquer mulher. Imagina se eu pegar ela [aponta para a fotógrafa] de porrada? Tadinha dela… Mas a mulher sempre vem pra te bater e você segura a mão porque também ela não vai chegar e te dar um tapa na cara, não é justo. Mas você bater não é legal.

Você já bateu em mulher?
Já segurei para não apanhar, mas nunca bati. Às vezes tem a ação e a reação, se você toma um tapa na cara de uma mulher pode ter a reação, que é dar um tapa. Nunca aconteceu comigo, mas pode ser que aconteça. Mas eu nunca agredi uma mulher.

Segundo apurei, você ganha cerca de 530 000 reais. Se não for isso, é bem próximo disso. Não é muito dinheiro, não?
Nego fala muita coisa, e não sou um cara que gosta de falar de valores. Independente de quanto ganho, eu trabalho e dou o máximo de mim para sempre ganhar o máximo porque tenho família, tenho filhos e quero estar sempre no auge para sempre fazer bons contratos.

Mas, para a realidade brasileira, não é um dinheiro irreal?
Se fosse pensar em dinheiro, eu ficaria na Rússia. Lá tem muito mais dinheiro do que aqui. Abri mão de algumas coisas para vir para o Flamengo. Eu ganhava melhor na Rússia. Se eu chegasse no presidente do CSKA e falasse que queria um aumento de salário para ficar lá pelo resto do meu contrato, com certeza ele me daria. Até pelo relacionamento que a gente tinha, que era uma coisa de pai e filho.

Estamos falando de um salário lá mais ou menos de quanto, do dobro do que você ganha aqui?
Com certeza. Mais até. Fora as premiações, essas coisas…

Qual foi a primeira coisa extravagante que você comprou assim que ganhou dinheiro?
Demorei muito para comprar algo para mim mesmo. Comprei um carro depois que consegui comprar uma casa para a minha mãe. Quando subi para o profissional do Palmeiras, fui até o presidente do clube e pedi para darem uma casa para a minha mãe em Bangu. A casa era tão boa que ela não queria sair de lá quando fui para a Rússia. Gosto de carro, mas um carro só. Tem de ter carro para usar. Ficou velhinho? Vamos trocar. Eu penso dessa forma. Você tem uma BMW X6 2010. Quando chega no estacionamento dos jogadores do Flamengo, seu carro está bem, na média ou é pobrinho? Tá na média… [Risos.] Aqui no Brasil não tem tantos carros que assustam; já na Europa, sim. Lá, às vezes, você chega e o cara está com um carro, no dia seguinte ele já está com outro! Aqui é mais tranquilo.

Jogador que não recebe salário em dia tem direito a fazer corpo mole?
Não. Gosto do que eu faço. Deus me deu um dom, o de jogar futebol, e amo muito o que eu faço. Então, independente de estar recebendo ou não, eu vou acordar feliz da vida porque gosto do meu trabalho. Claro que, do mesmo jeito que a gente está cumprindo com o nosso, a empresa que nos contrata tem de cumprir com o trabalho dela, mas eu acho que isso é uma coisa que a gente não tem de ficar questionando. A gente tem de ir lá e fazer por onde, até para a gente poder mais para a frente cobrar alguma coisa.

Ronaldinho Gaúcho tem sido vaiado e cobrado. Quando ele está sob pressão, como o grupo de jogadores do Flamengo reage? Vocês são solidários a ele?
Sempre. Por ele ser o Ronaldinho, duas vezes o melhor do mundo, campeão do mundo, jogou pelo melhor time do mundo, as pessoas esperam que ele seja aquele Ronaldo que ele foi no Barcelona. Mas o tempo passa, as coisas mudam. Hoje ele tem outra maneira de jogar, mas a cobrança é muita e é só em cima dele. Não acho justo porque ele não joga sozinho. Tem mais dez ali dentro de campo.

Deve ser fácil jogar com um cara como ele no meio de campo. Mas, ao mesmo tempo, não rola ciúme por ter um cara que ganha um salário muito maior que o de vocês todos e é muito mais assediado?
Mas ele conquistou tudo isso, ele batalhou para chegar aonde chegou. Não tem de ter ciúme. Se alguém quer chegar ao nível dele, ao patamar dele, tem de ralar como ele ralou. Eu acredito que não rola ciúme, até pela pessoa que ele é. Não tem por que sentir ciúme dele. Ele treina igual a todo mundo, ele chega no horário igual a todo mundo, então por que ele tem de ser cobrado mais do que os outros? Tem de ser cobrado todo mundo junto.

Vocês saem juntos fora de campo?
Somos amigos, mas tem muito tempo que não saio com ele. Mas nos falamos, agora estamos convivendo no dia a dia. Conheço a família dele, ele conhece a minha.

Você é vaidoso?
Um pouco. Gosto sempre de andar cheiroso e bem arrumado. Não tão bem arrumado, mas gosto de combinar as coisas. Colocar uma camisa que de repente combina com o tênis, uma calça comum, tênis e uma camisa diferente. Nada de botar um verde com azul que não vai combinar. Eu gosto de andar de chinelinho assim, mas combinando. Sempre gostei de andar bem arrumado. E gosto dessas grifes, Dolce & Gabbana, Armani. Todo jogador de futebol gosta.

Se não fosse o futebol, onde você estaria hoje?

Quando fui mandado embora do Vasco, com 14 anos, eu desisti do futebol, falei pra minha mãe que ia estudar e parar de jogar. Fiquei dois meses sem jogar bola nem na rua, que era uma coisa que eu gostava pra caramba. Eu via os amigos jogando, ficava olhando, eles me chamavam, mas eu perdi a vontade de jogar até as peladinhas. Só que não passa pela minha cabeça o que eu seria hoje se não fosse jogador. Eu ia estudar, ia tentar fazer alguma coisa, uma faculdade, um curso, para poder trabalhar logo, para seguir minha vida e não ficar dependendo da minha mãe. Mas não tinha uma profissão que eu gostasse, nunca tive mais nada em mente.


Matéria publicada na Revista PLAYBOY de abril de 2012.