O grande Moisés, xerife de Vasco e Bangu, não teve tempo de escrever os dez mandamentos do rebaixamento. Foi expulso antes e só teve tempo de entalhar na pedra os três primeiros. Menos mau é que ele começou pelos três mais importantes. São eles: 1o – Mudarás muito de jogadores, de técnicos, de auxiliares… 2o – Terás uma diretoria ruim e confusa. 3o – Perderás a confiança.

Vejam bem, o sábio Moisés não escreveu a expressão “time ruim”. Esse era o sétimo mandamento; ele foi expulso antes. Moisés sabia das coisas. É claro que equipes mais fracas entram no Brasileirão com mais chances de cair para a Segundona. Fator importante, e não determinante. Antes da qualidade em si dos times, há a instabilidade. Isso mata um time de futebol. O jogo pede continuidade. Um time meia-boca bem treinado funciona melhor do que uma equipe dos sonhos sem rodagem. Jogadores são crianças irresponsáveis e sensíveis. Quando percebem que o motorista não sabe dirigir o ônibus nem conhece o caminho, gritam, choram, se desestruturam.

E o poste não é de borracha, como bem sabemos. Dirigentes tontos são capazes de levar times até razoáveis para a Série B com decisões erradas, salários atrasados e outros pecados.

Mas o terceiro mandamento é o mais poderoso de todos. “Perderás a confiança.” Não importa se os jogadores sabem ou não manejar a bola. Interessa muito mais o que eles acham. O São Caetano foi vice-campeão brasileiro com uma equipe modestíssima em 2001. Só que o grupo se achava. Ademar acreditava de verdade que era um Careca. Alguém contou para Claudecir que ele se parecia com Beckenbauer. O cara acreditou. O inverso acontece. Palmeiras, Vasco e Grêmio não tinham time para cair. Mas, no momento em que duvidaram da própria capacidade, despencaram.

Muita teoria, muita enrolação. E quem vai cair para a Segundona em 2012? Justamente pelo terceiro mandamento, a Portuguesa. Campeã da Segunda Divisão no ano passado, a Barcelusa jogou o fino. O treinador Jorginho, feito um encantador de bacalhau, tirou uma melodia de sua flautinha e fez os jogadores acreditarem que eram Xavi, Iniesta e companhia. O encanto se quebrou no Paulistão. E teve efeito reverso. O time no estadual era quase o mesmo de 2011 e mesmo assim foi rebaixado. Porque parou de acreditar em si próprio.

O segundo rebaixado é o Atlético-GO. Porque está no lucro. Era para ter caído em 2010. Renê Simões chegou e o salvou. Em 2011, escapou da maldição da letra A e não fez companhia a América-MG, Avaí e Atlético-PR. Convenceu o coitado do Ceará a ir no seu lugar. Tudo tem limite.

O Náutico se encaixa no segundo mandamento. Está comandado por uma diretoria no mínimo confusa. Deu vexame na Copa do Brasil e chega com uma equipe para lá de modesta. Candidato forte ao bate e volta. Faltou um rebaixado? Sobrou para a Ponte Preta. Logo a Ponte, que começou bem o ano, que conseguiu manter no ano passado o bom treinador Gílson Kleina. Só que de repente o time deu uma murchada. Perdeu a força, o brilho e… a confiança. E, sem confiança, não se chupa nem um picolé. Nelson Rodrigues não disse algo parecido?

Sérgio Xavier Filho é diretor do Núcleo Motor e Esporte da Editora Abril e ex-diretor da Placar

Matéria publicada na Revista PLAYBOY de maio de 2012.