Rusevel estava ansioso para chegar ao Rio. Estava havia cinco anos fora jogando no futebol do Catar. Desde que se transferiu para o futebol árabe ainda não tinha voltado ao Brasil. Sonhava em dar um mergulho no mar, passear pelas areias da Barra da Tijuca. Não por saudade de areia, que isso não faltava no Oriente Médio. E sim pelas criaturas que circulam por ela, aquelas coisinhas formosas, bronzeadas, de corpinho sarado trabalhado nas academias e, o melhor, sem um resquício de burca, véu ou qualquer tecido cobrindo as partes. Apenas um microbiquíni que muitas vezes era preciso um grande esforço para conseguir enxergar. De olhos fechados, recostado na poltrona executiva, imaginou-se passando entre as bundas dispostas nas cangas voltadas para Meca. Morenas, negras, branquinhas, umas rechonchudas, outras sequinhas, algumas perfeitas, todas recebendo generosamente o sol escaldante. Rusevel armou sua barraca.
– Deseja comer alguma coisa, senhor? – perguntou a aeromoça.
– Sim…
Quando percebeu que ela falava de refeição, decepcionou-se. Ajustou o assento, cobriu a ereção com o guardanapo e beliscou o peito de frango.
Rusevel não era bem um craque. Cabeça de área esforçado e vigoroso, não chegou a se destacar nos clubes brasileiros. Na realidade não chegou a jogar profissionalmente por aqui. Peladeiro, frequentava os campos do Aterro do Flamengo, onde imaginava que um dia poderia surgir um olheiro que reconheceria seu talento. Durante quase dois anos sua rotina era essa: descia o Morro do Juramento, andava até a estação do metrô de Vicente de Carvalho, viajava até o Catete, dali seguia a pé para os jardins projetados por Burle Marx. Na volta passava no Árabe do Largo do Machado para forrar o estômago com uma esfiha e dois quibes antes de fazer o caminho de volta. O olheiro não apareceu, mas ele ganhou a simpatia do dono da lojinha de quitutes árabes, que acabou fazendo contato com um parente distante. Distante mesmo. Seu primo morava na Síria e estava montando um clube de futebol mesmo sem conhecer muito do assunto. Acabou se interessando em importar Rusevel, que topou a parada e assinou contrato pelo equivalente a algumas centenas de quibes por mês.
Em terra de cego quem tem um olho é o ftalmologista. Rusevel se criou. Mais tarde foi transferido para um outro clube, dessa vez ganhando um pouco mais de quibes, até que foi artilheiro do campeonato local. Um milionário do Catar arrebatou-lhe o passe, e sua vida enfim se aprumou. Rusevel mantinha uma página no Orkut pela qual se comunicava com amigos no Brasil. Seus antigos vizinhos invejavam sua sorte. Quando não estava jogando ou treinando passava as noites no hotel em que vivia hospedado. Para evitar que se metesse em confusão, o milionário o proibia de sair sozinho. Para ir a um shopping era acompanhado por um segurança, um árabe que tinha o hábito de andar de mãos dadas com ele. Rusevel nunca contou isso no Orkut.
Aos poucos foi rareando suas visitas ao shopping. Distraía-se na boate do hotel, um templo da sacanagem onde o islamismo não tinha vez. Ali encontrava os outros jogadores, entre eles dois brasileiros casados que apreciavam os costumes da região.
– Isso aqui é um paraíso, rapá! Onde já se viu um lugar que você passa a noite cercado de piranhas e a tua mulher não pode fazer nada?
– A patroa fica injuriada, mas não tem como dar uma incerta na gente. Eu ainda falo pra ela: “Pô, querida, como é que você vai desconfiar de mim? Tu acha que eu vou te trair com um trubufu desses? Por que você acha que elas andam todas cobertas?”
– Outro dia a Gislaine teve uma crise. Quebrou a casa toda porque eu estava cheirando a perfume e uísque. Inventei que esses árabes são esquisitos, além de se encharcarem de loção gostam de abraçar a gente toda hora e ainda obrigam os jogadores a beber contra a vontade pra fazer companhia pra eles. E eu não posso perder esse contrato, né? – contava e ria ao mesmo tempo.
O tempo foi passando, a solidão aumentando. Rusevel, que era solteiro, sentia falta de ter uma mulher que quebrasse tudo quando voltasse pra casa bêbado da putaria. Estava decidido a arrumar uma esposa quando viesse de férias ao Brasil.

DOIS
A vontade de casar de Rusevel passou assim que se aprumou na cadeira de alumínio que o barraqueiro armou para ele sob o guarda-sol na Praia da Barra.
– Vai um coquinho, doutor? Tá geladinho – ofereceu o solícito barraqueiro.
– Vai catar coquinho, bróder! Me traz um suco de cevada no casco escuro. Meu médico me proibiu de beber esses bagulhos saudáveis durante as minhas férias.
Enquanto tirava a tampa de isopor e enchia o copinho de plástico, seus olhos acompanhavam o balé da mulata sem defeitos à sua frente. Tirou sua canga do corpo exibindo o par de silicones zerinho. Em seguida estendeu a peça na areia – a canga, não o silicone. Mergulhou de bruços no tecido colorido o deixando com uma vista panorâmica das costas, de uma abençoada escoliose que realçava magnificamente a bunda exuberante. Movimentos perfeitos e cadenciados superiores a qualquer dança do ventre dos países árabes.
“Peraí, essa mulata tá nua!”, pensou boquiaberto. “Nuinha!”, repetiu pra si mesmo. “Ah, não…”, reparou melhor. De fato a bunda estava toda ali exposta para ele e quem mais quisesse apreciar. Mas não de todo despida. Havia um estreito fio-dental passando por onde ele desejava estar. O fio ressurgia das profundezas e seguia até um minúsculo triângulo de Lycra que cobria uns três dedos de pele acima das nádegas. Rusevel ficou intrigado. Caraca, a mulher deixa as coxas e a bunda toda de fora e se preocupa em esconder aquele trechinho do corpo! O que será que tem ali embaixo? Será ali o tal do ponto G? A essa altura seu pau já estava em ponto de bala. Resolveu dar um mergulho pra esfriar as cabeças.
À noite Rusevel reapareceu na quadra da Mocidade Unida da Vila Cosmos, uma pequena agremiação que lutava pela permanência no Grupo C das escolas de samba do Rio, uma espécie de quarta divisão do campeonato momesco. Uma escola humilde, celeiro de ritmistas com pouca grana e pouca história no Carnaval carioca. Mas era perto de Vicente de Carvalho, seu bairro de origem. Ali era certo encontrar amigos de infância, gente que não via há cinco anos, até mais. Alguns estavam irreconhecíveis. Castigados pelo tempo, pelos hectolitros de cerveja e Velho Barreiro, apresentavam avançada calvície e barrigas pornográficas. Mas era tudo gente boa, boa conversa, principalmente quando era ele quem bancava o malte da rapaziada.
– Você voltou na hora certa, Rusê – falou Serginho Capivara. – Parece que tu tava adivinhando. Hoje é o dia D da escola.
– Dia D? Pensei que ela tava só Grupo C… Caiu de novo, é? – o jogador emendou a piadinha e meteu no ângulo. A galera riu e mandou descer mais uma.
Marquinho Cocô, que sempre foi meio lesado, não acompanhou a brincadeira e esclareceu:
– Não é isso, não. É que hoje é que decide tudo aqui na escola. O sambaenredo, a rainha da bateria, o casal de mestre-sala e porta-bandeira…
– Tá, tá, Cocô. Rusevel já entendeu. Ele não é burro, é só cabeça de área… – sacaneou Tiquinho.
– E aí, tem samba bom na disputa? Fez-se um silêncio. Todo mundo olhou para Magriça, um coroa ossudo e cachaceiro, um dos compositores da escola.
– Meu craque, vou abrir o jogo com você. O melhor samba é o meu. – O pessoal murmurou como quem concorda.
– Mas a política aqui dentro é braba. Eu precisava de um padrinho.
– Ih, Magriça, se o negócio é dinheiro, tô fora. Deixei minha carteira lá nas Arábias…
– Não é nada disso! Só precisava de uma força. Você é uma grife, sabe disso. – Rusevel se aprumou na cadeira.
– Vou te fazer uma proposta.
– Pode propunhetar, meu caro.
– A parada é a seguinte. Quero que tu assine esse samba comigo. Comigo só não, tem mais quatro parceiros na jogada. Sou eu, o Caneta, o Jairo Bode, o Bom Cabelo e o seu Antônio da padaria. Foi ele quem bancou a impressão dos prospectos pro pessoal cantar junto. E aí, topa?
– Peraí, Magriça. Eu nem ouvi esse samba. Tu acha que esse papo vai colar? Se me perguntarem o que eu fiz, o que eu vou dizer?
– Diz que tu fez o seguinte verso, olha aqui… – Magriça apontou no prospecto a pérola. – Ê ô ê ô alá lá ô.
– “Ê ô ê ô alá lá ô”? – repetiu.
– Esse é facinho. Até um cabeça de área podia ter bolado – falou Tiquinho.
– Tu cala a boca, moleque, ou eu te encho de porrada!
– Ô, Tiquinho, não bota vinagre no meu azeite! – gritou Magriça irritado.
– E então, Rusevel? Pensa bem, o enredo é As Mil e Uma Noites. Você mora nas Arábias…
– No Catar.
– Tudo a mesma merda. Teu nome nos créditos vai dar moral pro meu samba, quer dizer, pro nosso samba.
– Tá legal. Onde eu assino?
Magriça deu-lhe um abração, beijou- lhe a bochecha e saiu excitado pelo meio do salão.
Excitado mesmo ficou Rusevel quando viu subir as escadas para o camarote um par de pernas que lhe pareceu familiar. Firmou a vista e confirmou. Era a mulata da praia. Reconheceu pela tatuagem na batata da perna (só jogadores têm panturrilhas). Estava escrito “Gaia” com uma letra um tanto garranchuda. Ainda assim as pernas eram maravilhosas.
– Quem é aquela deusa ali?
– Vai dizer que não sabe?!? – respondeu Serginho Capivara. – É a Janaína, filha da dona Dirce, a mãe de santo.
– Que princesa! – babou ele.
– Princesa, não, rainha. Rainha da bateria. Quer dizer, pelo menos até hoje.
– Ah, é ruim esse monumento perder o cargo… Só se for contratada por uma escola da primeira divisão.
– Ela já disse que não vai – disse Capivara. – Só quer defender a escola do bairro. Não quer fazer carreira nisso. Estuda administração na Estácio.
– Que desperdício…

 

TRÊS
O clima de alegria e descontração se desfez na quadra. No palco, um sujeito alto, calvo e barrigudo tomou o microfone.
– Quem é a figura? – perguntou Rusevel.
Shhh! Cala a boca que tu chegou há pouco de fora! Esse aí é o seu Alberto, presidente da escola. Ele é o miliciano que acabou com o tráfico aqui no bairro.
– Senhoras e senhores, antes de dar início à escolha do samba-enredo que nossa escola vai defender neste ano na avenida eu quero apresentar a todos a rainha de bateria da Escola de Samba Mocidade Unida da Vila Cosmos para o Carnaval de 2011. A mulata ficou de pé no camarote superior. Vários homens desviaram seus olhos do palco para o parapeito, onde se destacava o peito de Janaína.
– É com muita honra que eu chamo ao palco… Luciene Peixoto! Uma salva de palmas para ela!
A plateia atônita viu surgir das cortinas surradas uma gordinha muito parecida com o seu Alberto. O aplique de cabelos afro mal disfarçava os traços pouco atraentes. Não fosse ela filha de um poderoso miliciano se poderia dizer que é uma tremenda mocreia. Silêncio. Dos cantos do salão alguns sujeitos com pinta de policial puxaram aplausos. O público timidamente obedeceu. Luciene sorriu e agradeceu. Janaína desmaiou.
– Puta que o pariu! – exclamou Rusevel.
– O cara acabou com o tráfico, agora quer acabar com o samba também! O jogador correu para acudir a ex-rainha.
– Como você tá?
– Ahn? Qu-quem é você?
– Um amigo. Aceita uma água?
– Sim… Mas quem é você?
– Um amigo de infância. Você não me conhece.
– E como é que é meu amigo? Me dá licença, eu tô muito confusa…
– Calma, você precisa de um pouco de ar fresco. Vamos lá fora.
Ainda que desorientada, ela se apoiou nele. Caminharam para a rua. Rusevel não ficou para ver seu primeiro samba ser classificado para o desfile.
– Que sacanagem te aprontaram!
– Esse Alberto é um filho da pu… Peraí, por que eu tô aqui na rua desabafando com um desconhecido? Quem é você, afinal de contas?
– Desculpe não ter me apresentado. É que eu já te conhecia. Te carreguei no colo quando você era pequenininha, Janaína. Eu sou o Rusevel– disse querendo carregá–la no colo, deitá-la no solo, fazê–la mulher num motelzinho barato ouvindo o Wando.
– Rusevel, o jogador?
– Ele mesmo. Quer dizer, eu mesmo… Morava pertinho de você quando você…
– Rusevel, me desculpa mas eu não tô pra ficar de conversinha. Eu vou pra casa. Minha cabeça tá estourando.
– As minhas também… – Ato falho.
– O quê?
– Nada. Entra no carro que eu te dou uma carona.
– Olha, eu vou aceitar porque não tô em condições de ir a pé. Mas não pense que eu sou dessas que não pode ver carro de jogador de futebol…
– Isso aqui nem é carro de jogador. É um quebra-galho alugado. Meu carro tá na garagem do hotel em Doha.
– Onde fica isso?
– Depois te explico. Agora é você quem tem que me explicar como chego na sua casa. As coisas mudaram um pouco aqui no bairro. Tô meio perdido.
– Perdida tô eu! Como aquele cachorro foi fazer uma safadeza dessas comigo? Botar a baranga da filha no meu lugar! Ele sabia que esse era o meu último ano na escola. Custava me deixar desfilar?
– E justo no meu samba…
– Teu samba?
– É. Eu e o Magriça tamos concorrendo…
– Como assim? Você também compõe?
– É… Eu mandava umas dicas pelo MSN, ele pegava na lan house, a gente fez uma parceria digital…
– Nossa, o Magriça! Não sabia que ele era tão moderno.
– Pois é. Eles chegaram em frente ao pequeno prédio onde Janaína morava com a mãe.
– É aqui. Obrigada.
– Peraí – ele segurou sua mão. – Só queria saber uma coisa. O que é Gaia?
– Gaia é uma divindade grega, a Mãe Terra. Você viu minha tatuagem?
– Sim, mas, caraca, por que você tatuou esse bagulho na perna?
– É uma longa história. Um dia, quando tiver tempo, te conto. Hoje não.
– Por favor… Eu não vou dormir de tanta curiosidade.
– Tá bom. Rapidinho. Na verdade eu tinha tatuado Caio. Meu ex-namorado. Mas aí a gente se separou.
– E você fez um remendo…
– Não fui eu. Foi o… O… Vamos deixar isso pra lá.
– Fala!
– Foi o Alberto. É, isso mesmo.
A gente começou a ter um caso, ele mandou um tatuador da confiança dele lá em casa fazer esse serviço. Eu me apaixonei por ele, faria qualquer coisa que ele pedisse. Até que eu vi que ele não ia largar a mulher dele. Aí a gente abriu.
– Faz muito tempo isso?
– Foi ontem.
– Então tá explicado, né? Ele quis se vingar de você. Esse cara não merece. Você é muita areia pro carrinho de mão daquele…
Rusevel não completou a frase. Puxou Janaína e tascou-lhe um beijo. Ela se assustou, resistiu um pouco, mas pensou que poderia ser uma boa vingança para aquele babaca. Permitiu o beijo, a mão nos peitos siliconados, e apalpou o volume que se formava na calça dele. Não era um pacote de Halls. A coisa tava esquentando quando ouviram uma batida na janela.
– Que porra é essa? – vociferou o sujeito enorme.
– Caralho! – desesperou–se Rusevel.
– Eu sei, tô vendo. Janaína soltou um grito.
– Calma! É um assalto. Vamos deixar ele levar tudo.
– Assalto nada. Esse é o Marreta, capanga do Alberto.
– Pe-peraí, não é nada disso que você tá pensando, meu chapa.
– Primeiro: eu não penso. Segundo: não sou teu chapa. E terceiro: o patrão não vai gostar nada de saber disso.
– E o que que o Alberto tem a ver com a minha vida? A gente não tá mais junto – Janaína peitou.
– Isso a senhora desenrola com ele. Mas esse daí a gente mesmo resolve. Vamos capar esse escroto.
– O meu escroto? Tá doido!

QUATRO
Rusevel conseguiu escapar da faca. Negociou a sobrevivência do pissulim por 20 000 dólares e o embarque no dia seguinte para o Catar.
Nunca mais viu Janaína, que reatou com o miliciano e recuperou o posto de rainha da bateria.
E a gordinha Luciene? Deprimida, trancou-se no quarto por seis meses, onde só fazia chorar e se encher de Cheesitos. Vinte e cinco quilos mais tarde casou-se com Marreta.