Com Nelson Rodrigues, é assim: você tem de prender o fôlego logo ao abrir das cortinas. Duvida? Numa de suas primeiras peças, Álbum de Família (1945), os filhos são apaixonados fisicamente pela mãe, a qual retribui a paixão. Um deles consuma o ato e enlouquece. Outro fica impotente. A filha também é apaixonada fisicamente pelo pai, mas este, contra a vontade, se segura e tem casos com meninas como ela. Um dos irmãos deseja a irmã e… Bem, você entendeu. Em Senhora dos Afogados (1946), a mãe se torna amante do noivo da filha. Em Anjo Negro (1946), a deusa loura e deslumbrante, casada com um negro imenso e heroico, mata os filhos que tem com ele, não porque não queira ter filhos de um negro, mas porque não quer reparti-lo com ninguém.

Em Dorotéia (1948), a mulher linda, airosa e dissoluta vai morar com suas primas velhas, feias, sem ancas e que “não dormem para não sonhar”. Dorotéia quer ficar como elas, feíssima, para apagar da memória o tempo em que desejava e era desejada por todos os homens. Mas, para isso, seu rosto terá de ser destruído pelas chagas. Em A Falecida (1954), a mulher pobre e suburbana sonha para si um enterro de luxo e obriga o marido a extorquir o amante dela para satisfazer seu desejo. Em Perdoa-me por Me Traíres (1957), o homem que se apaixonou pela cunhada, e, por isso, a levou à morte obrigando-a a envenenar-se, tenta fazer o mesmo com a filha dela, sua sobrinha de 16 anos, que se prostitui em um bordel de normalistas.

Em Os Sete Gatinhos (1958), seis irmãs se prostituem para que a caçula possa se casar virgem. Em Beijo no Asfalto (1961), um homem que acaba de ser atropelado pede a um transeunte que o beije antes que ele morra. A cena é presenciada por um repórter que a transforma num caso de amor entre dois homens. No fim, toda a cidade, incluindo a família dele, acredita que aquilo seja verdade. Em Bonitinha, Mas Ordinária (1963), um milionário tenta arranjar um casamento para sua filha, que acaba de ser currada. E, em Toda Nudez Será Castigada (1965), uma prostituta casa-se com um viúvo e tem um caso com o filho deste.

No folhetim Asfalto Selvagem (1959), Engraçadinha apaixona-se por seu primo Silvio e só depois descobre que ele é seu irmão. No romance O Casamento (1966), outra ninfeta, Glorinha, revela-se irresistível para todos os homens que a cercam, inclusive seu pai e um padre. Num dos contos de A Vida Como Ela É…, da década de 1950, a mulher casada e fria com o marido toma um lotação todas as tardes para fazer amor com qualquer um – é a “dama do lotação”. E, até nas suas crônicas diárias, dos anos 1970, Nelson inventou um personagem – Palhares, o canalha – que, ao passar pela cunhada no corredor, tascou-lhe um beijo no pescoço.

Diante de tudo isso, o poeta Manuel Bandeira, amigo de Nelson, um dia lhe perguntou: “Nelson, por que você não escreve sobre gente normal, como eu ou você?” E Nelson respondeu: “Mas, meu querido Manuel, eu só escrevo sobre gente normal, como eu ou você…” Não sei se Bandeira entendeu, mas nessa resposta de Nelson está o segredo das “taras” do anjo pornográfico — nenhuma que seja estranha ao ser humano.

Matéria publicada na Revista PLAYBOY de agosto de 2012.