Alexia Bomtempo interpreta canções de Caetano em inglês

Nascida em 1984 nos Estados Unidos, filha de mãe americana e pai brasileiro, Alexia Bomtempo veio ao Brasil pela primeira vez aos sete anos. Entre idas e vindas, se estabeleceu por aqui em 2005, aos 21 anos. Lançou seu primeiro disco, Astrolábio, em 2008, e este ano fez seu sucessor, “I Just Happen to Be Here (Biscoito Fino, ****)”. O disco reúne dez das canções escritas em inglês por Caetano Veloso, todas feitas entre 1969 e 1972, época da prisão e do exílio em Londres. Alexia habilmente juntou canções que, além de qualidade artística, têm coesão entre si e dão um belo panorama da obra de Caetano. Conversamos com ela sobre o disco:

1. Você comentou sobre elementos que davam união àquelas canções do Caetano que você regravou, especialmente o exílio e a época que foram feitas. Para além de outros fatores, você enxerga alguma unidade musical (melódica, harmônica, rítmica) nesse conjunto de canções? Enxergo, sim. Acho que é possível notar influências naturais da época em que foram feitas, caminhos melódicos que lembram os Beatles, um gosto do rock inglês que rompia naquele tempo… Algumas das músicas experimentam coisas diferentes, unindo a simplicidade harmônica a melodias sofisticadas… Mas o que mais me chama a atenção é que existe uma verdadeira delicadeza (melódica, harmônica e rítmica) na essência dessas canções.

2. Saiu um comentário na coluna do Joaquim Ferreira de Andrade, em O Globo, que o Caetano teria dito “Você ressuscitou essas canções” ao ouvir seu disco. Ele soube do projeto antes? Que outras reações teve depois de ouvir? Fez alguma recomendação ou gostou mais de algo em particular?  Sim, o Caetano sabia que estávamos fazendo o disco desde o início. Durante a pesquisa de repertório, ainda perguntamos para ele se não tinha nenhuma canção inédita em inglês que tivesse ficado na gaveta, mas não tinha. A obra toda é essa que a gente conhece. Ainda na mixagem do disco, mandamos algumas músicas para ele por e-mail e foi aí que ele fez o tal comentário. Adorou, gostou da minha voz e do meu jeito de cantar e disse que conseguimos ressuscitar aquelas músicas. Ele gosta dos sons da “batucada espacial” de “Shoot Me Dead”.

Alexia Bomtempo interpreta canções de Caetano em inglês

3. Há no release do álbum a citação sobre “mexer em coisas consideradas sagradas”. Em algum momento você teve receio de mexer demais na estrutura das canções e nas letras, a ponto de deixá-las mais irreconhecíveis à primeira audição?  A ideia sempre foi de trazer essas canções para um novo contexto e aproximá-las da minha história pessoal. Mostrar que elas estão vivas e transcendem barreiras históricas, políticas, culturais e até mesmo de gênero. Elas podem ser revisitadas, reinterpretadas e mexidas de inúmeras maneiras… Eu fiz a opção de não cantar as citações (que o Caetano faz a outras canções brasileiras em algumas das gravações originais, como em “You Don’t Know Me” e “It’s a Lomg Way”), numa tentativa de descobrir a essência da canção por debaixo daquelas colagens tropicalistas – que são maravilhosas! Mas eu busquei despir a canção, encontrar a sua pureza.

4. Considerando que o Caetano tem, ao todo, quinze canções em inglês, como foi o seu processo de escolher o que ficou de fora? Eu resolvi gravar 10 canções e escolhi aquelas que mais tinham a ver comigo. Não dá para cantar algo só por cantar. Preciso trazer a letra e melodia para o meu mundo particular. Tem que ser de verdade. Ainda mais se a gente pensar que as gravações fivam para sempre. Acabei focando nas músicas que foram feitas e gravadas originalmente num período específico (1969 – 1972) e acho que isso tem a ver com a ideia de trazê-las para perto da minha história pessoal, que carrega esse sentimento de estranheza e não pertencimento.

5. Você cita no vídeo-release a relação afetiva que tem com “London, London”, que inclusive dá nome ao seu disco por meio de um de seus versos. Ela é, e longe, a canção mais conhecida do conjunto de canções em inglês do Caetano. Você consegue ver ou definir o que a torna diferente desse conjunto? Eu acho que “London, London” é um retrato da vida no estrangeiro – no sentido de uma vida longe da sua casa, que pode ser em qualquer lugar, um lugar que seja estranho a você. Qualquer pessoa que já morou fora da sua terra consegue se identificar com aqueles versos… Além de ser um símbolo desse momento na vida do Caetano, o que a torna ainda mais especial. A letra conta uma história, é repleta de imagens riquíssimas e a melodia é linda e delicada. Costumo dizer que “London, London” é quase uma canção em português, de tão entranhada que ela está na alma musical brasileira.