Poucos homens marcaram tanto 2011, para o bem e para o mal, quanto Julian Assange, 40 anos, um australiano de vida nômade e endereço errático desde a infância. Foram poucos os dias em que Assange não esteve nas primeiras páginas da mídia mundial, ora em situações de glória, ora em circunstâncias miseráveis. Seu Wikileaks, o site que revolucionou o jornalismo ao atrair vazamentos em geral ligados a governos e a grandes empresas, virou uma das marcas mais influentes, repercutidas, admiradas e temidas no universo da mídia. “O Wikileaks fez em seus quatro anos de vida mais que o New York Times e o Washington Post, juntos, nos últimos 30”, disse um respeitado jornalista americano.

Ao mesmo tempo, Assange se meteu em encrencas extraordinárias – uma das quais o fará passar o Réveillon num regime de liberdade controlada na Inglaterra e com perspectivas definitivamente turvas para 2012. Assange foi acusado por duas mulheres suecas de estupro, que ele nega. A Justiça da Suécia  luta para extraditá-lo a fim de investigar adequadamente as acusações. Assange pediu formalmente à Justiça britânica que vetasse a extradição. No final de outubro veio a resposta a seu pedido: não. Ele vai apelar – mas dificilmente escapará de viajar contra a vontade para a Suécia.

Seu temor é que dali o remetam para os Estados Unidos – onde ele poderia ser enquadrado como espião, o que faria de seu futuro um longo e incerto pesadelo vivido atrás das grades. O governo americano simplesmente abomina Assange depois que o Wikileaks divulgou um vídeo em que civis inocentes eram mortos por engano por soldados americanos no Iraque. Como se não fosse suficiente, o Wikileaks posteriormente vazou telegramas confidenciais de embaixadas americanas mundo afora. Os diplomatas dos Estados Unidos expuseram, nos telegramas, suas opiniões nada lisonjeiras sobre líderes internacionais, como a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Nicolas Sarcozy.

Assange está em apuros – e quebrado, ao que parece. Recentemente o Wikileaks anunciou uma campanha para arrecadar fundos que lhe permitam permanecer no ar. As doações feitas por simpatizantes – essa a fonte de receita principal do site – reduziram-se brutalmente depois que empresas financeiras por intermédio das quais as pessoas endereçavam suas contribuições para o Wikileaks, como o Pay Pal, decidiram fechar as torneiras por pressão do governo americano.

A última encrenca de Assange foi com a editora inglesa com a qual ele fizera um contrato para publicar suas memórias com um adiantamento estimado em cerca de 300 000 reais. A editora contratou um ghost writer, e ele gravou 50 horas de conversa com Assange. O manuscrito foi levado a Assange para que ele examinasse o texto. Segundo relatos confiáveis, ele ficou com os papéis para fazer modificações num prazo combinado de 40 dias. Vencido o período,  Assange não fizera as alterações que dissera serem necessárias. Mais que isso: decidiu romper o contrato. O problema, ainda de acordo com versões respeitáveis, é que ele não devolveu o dinheiro, aparentemente gasto em sua luta judicial (Assange diz que não recebeu dinheiro nenhum). O resultado é que em setembro o livro acabou sendo lançado, não mais como biografia autorizada, naturalmente.  As primeiras avaliações de venda sugerem um flop – um naufrágio comercial.

O livro traz muitas informações até então inéditas sobre Assange. Nele se conta, por exemplo, a origem das constantes mudanças de cidade em sua infância e no começo da adolescência na Austrália. Sua mãe estava fugindo de um namorado que a procurava obsessivamente após o rompimento, um lunático que pertencia a uma seita que acreditava que a vida humana ia acabar exceto numa pequena área que protegeria os fiéis. A situação chegou a tal ponto, conta Assange, que a mãe teve de trocar de nome para dificultar a busca do namorado indesejado.

O drama sexual está também no livro. Assange diz que uma das duas mulheres suecas que o acusam de estupro ficou com raiva dele porque, depois de uma noite de amor no apartamento dela, a cerca de 1 hora de Zurique, ele não atendeu no trem em que voltava a um telefonema dela. Sobre a outra mulher, ela teria ficado com ciúme ao saber que ele não estava lhe dando exclusividade. É lembrado que, dias antes de ser anunciado o processo, ela publicara em seu Twitter que estava com “o homem mais interessante do mundo”. (Em um site de relacionamentos, Assange se autodefiniu, antes de virar celebridade, como um “homem 87% depravado”.)

O que é indiscutível, no caso da Suécia, é que a legislação sexual do país é extremamente severa com os homens. As pessoas costumam dizer lá que, se você for dormir com uma mulher, é melhor antes apanhar uma autorização dela por escrito. Suponha o seguinte: você fica excitado na madrugada e parte para uma segunda vez com a mulher que se abandonou a você na cama. Se ela não consentir expressamente, isso pode ser considerado estupro. Sexo sem proteção também pode ser enquadrado como estupro.
O número de mulheres suecas que vão à Justiça para acusar homens de agressão sexual é proporcionalmente muito maior do que se observa em outros países da Europa.

A história de que a sueca é sexualmente libertária é uma lenda urbana. Assange, conforme alguns depoimentos de gente próxima dele, parece ter acreditado nessa lenda urbana. Ele teria sido avisado de que fazer sexo com uma mulher na Suécia é um risco jurídico elevado, mas parece que não levou em consideração a advertência. É sábio o provérbio que diz que, em Roma, você deve agir como os romanos. Na Suécia, Assange agiu como Assange – um mulherengo incontrolável da linhagem de homens como Bill Clinton, Silvio Berlusconi e Dominique Strauss-Kahn. As máximas que ele segue são de outra natureza, muito mais ligadas às grandes questões do que às trivialidades do cotidiano. Recentemente, um tuíte do Wikileaks citava Goethe: “O mundo não vai ser destruído pelos que fazem mal, mas pelos que não fazem nada para detê-los”.

“Ele é um homem que não sabe ouvir não”, definiu uma das acusadoras. Assange é alto (cerca de 1,90 metro) e magro. Ele surgiu para o mundo com cabelos brancos como um iceberg, mas depois se viu que aquilo era produto de tintura. A tonalidade real é um castanho absurdamente banal. Ele é um gênio da computação, ciência em que se iniciou na juventude como hacker. Seu passado de invasor de computadores ainda hoje é lembrado com admiração e solidariedade por hackers modernos. Quando algumas empresas financeiras cortaram por pressão da Casa Branca os canais pelos quais eram feitas doações ao Wikileaks, o grupo de hackers Anonymous partiu para a retaliação e promoveu caos eletrônico nelas.

Assange, pelos seus escritos dos tempos em que mantinha um blog, parece acreditar que suas chances de salvar a humanidade são consideráveis. Ele é messiânico, e uma de suas maiores proezas é não ficar ridículo dentro de suas pretensões monumentais. Há dois inimigos a ser combatidos implacavelmente: os governos – notadamente o dos Estados Unidos – e as grandes corporações. Os vazamentos do Wikileaks se centram aí. Você deve expor as pessoas e as corporações ruins para que as boas acabem tomando seu lugar. Se você fosse resumir em uma linha a crença de Assange, seria essa.

Solidariedade não tem faltado a Assange. Muita gente vê no Wikileaks uma resistência a um mundo dominado por poderosos mal-intencionados, gananciosos, corruptos e corruptores. Uma aura de idealismo combativo acabou se associando a Assange, e nem as acusações sexuais foram, pelo menos até aqui, capazes de dissolvê-la. O casarão em que ele está morando na Inglaterra é de um simpatizante da causa do Wikileaks. As demonstrações práticas de apoio começam já no próprio sistema de funcionamento do site. Basicamente o Wikileaks é um canal para quem possui informações relevantes e não tem como vazá-las. Para que você faça um bom serviço, é necessário que haja uma filtragem poderosa no material que acaba chegando ao site. Esse trabalho é feito quase que inteiramente por voluntários não remunerados. Assange é uma das raríssimas pessoas que recebem salário no Wikileaks. O dinheiro provém de doações.

É certo que a solidariedade seria ainda maior não fosse o espírito briguento de Assange. No que foi talvez a maior façanha do Wikileaks até aqui – o vazamento dos telegramas diplomáticos americanos –, ele teve a companhia de alguns dos maiores nomes da mídia no mundo, como os jornais The New York TimesThe Guardian. Ambos publicaram os telegramas simultaneamente com o Wikileaks, num acordo feito com Assange. A repercussão foi extraordinária em todo o mundo. Mesmo assim, em pouco tempo Assange acabou brigando primeiro com os editores do New York Times, e depois com os do Guardian.

Entretanto, goste-se ou não dele, é inegável o impacto contundente do Wikileaks na mídia e na sociedade moderna. O Wikileaks é o maior símbolo da mídia digital. Se existiam até pouco tempo atrás dúvidas sobre a capacidade de influência do jornalismo feito na internet, o Wikileaks tratou de pulverizá-las rapidamente. Julian Assange saiu do anonimato para o estrelato internacional em pouco tempo. Como sempre acontece com quem milita no ramo das informações jornalísticas, ele acabou amealhando um número considerável de inimigos poderosos. Mas, pelo que já se conhece de Assange, não está descartada a hipótese de que seu maior inimigo seja ele mesmo.