N a viagem ao presídio de Pesqueiras, numa ensolarada estrada do agreste pernambucano, pensei de repente: a história dos canibais de Garanhuns não tem pé nem cabeça. Não se trata do que eles comiam ou deixavam de comer. Mas da lógica. O homem que matou, esquartejou e comeu três mulheres não apenas sonhava com o momento como também o planejava com rigor.

No entanto, ele escreveu um livro chamado Revelações de um Esquizofrênico, não para negar seus crimes, mas para atribuí-los a vozes e fantasmas.
Ele é Jorge Negromonte da Silveira, 51 anos, professor de educação física, faixa-preta de caratê. Vivia com duas mulheres, Bel e Bruna, no Jardim Petrópolis, na periferia de Garanhuns. Bel tem o dobro da idade de Bruna, uma morena de 25 anos, sensual e com belos traços. No princípio, Jorge e Bruna transavam várias vezes ao dia. Bel aceitou um papel maternal e vendia empadinhas para complementar a renda.

Além de escrever um livro para quebrar a cabeça de intérpretes, Jorge desenhava e tentava realizar pequenos curtas com sua câmera. Em um deles, uma viúva sonha com o marido e tem a impressão de vê-lo nos cantos escuros da casa. Ela é morta por um amigo da família, representado por Jorge. Depois de matá-la e esquartejá-la, o personagem come diante das câmeras um bolo que parece ter sido feito do corpo da morta.

O vídeo demonstra que a ideia de matar e comer fascinava Jorge. Seu incrível poder o levou não só a constituir um triângulo estável como a convencer Bel e Bruna a atrair as vítimas, ajudar a matá-las e partilhar da carne. Jorge Montenegro matou a primeira vítima em Olinda, as outras duas de Garanhuns, e planejava matar e comer no segundo semestre de 2012 uma jovem de Lagoa do Ouro, cidade próxima a Garanhuns.

Os métodos adotados eram sempre os mesmos. Bel procurava mulheres, oferecia-lhes emprego por 2 salários mínimos, algo atraente para a região, e, quando elas iam até sua casa, Jorge as atacava com um facão. A primeira vítima, Jéssica Camila, foi atraída em Olinda e compareceu ao imóvel com uma criança. Jorge a matou com a ajuda de Bel e resolveu adotar a criança. A partir desse momento, a história ganhou um detalhe aterrador: a criança, adotada pelo trio, viu os crimes posteriores e disse à polícia que as mulheres mortas eram do mal.

Jorge criou uma imensa cortina de fumaça destinada a despistar os que se aproximam da série de crimes com a cândida esperança de entendê-los. Mas foi ajudado também pelos que acham que já têm a explicação pronta: uma seita religiosa com rituais de canibalismo. Ele, que escreveu o livro para culpar seus fantasmas, foi obrigado a negociar e incluir termos religiosos em seu relato.

Garanhuns é uma cidade de pouco mais de 100 mil habitantes que não conhecera antes um caso como o dos canibais. A cidade sentiu muito que o tema tenha sido apresentado como o caso dos canibais de Garanhuns.

– Foi aqui que os prendemos. Mas não são daqui – disse um policial.

A crônica policial de Pernambuco registra apenas um caso parecido: o de Severino Picadinho, um homossexual que matava garotos e lhes decepava o pênis. Segundo os que se lembram da história, ele esquartejava para melhor se desfazer dos corpos. Mas não comia.

A história oferece um caso no Brasil colonial, a do Bispo Sardinha, comido pelos índios caetés próximo dali, após um naufrágio na costa de Alagoas.
Três semanas depois da descoberta dos crimes na periferia de Garanhuns, os motoristas de táxi que trabalham na rodoviária da cidade ainda se lembram, horrorizados, da caixa de plástico em que Bel trazia as empadas:

– Comprem, por favor. Com o dinheiro, ajudo meu marido a estudar direito – dizia, estendendo o guardanapo.

De fato, Jorge Montenegro tinha abandonado a educação física e o caratê. Nessa atividade conheceu Bruna, que foi aprender com ele. Um furtivo beijo na boca dado por ela iniciou um romance que terminou apenas quando Jorge foi levado para o presídio de Pesqueira e ela, para o de Buíque, 70 quilômetros distantes um do outro.

Ele queria estudar direito porque sabia que isso talvez o ajudasse um dia. Nas fantasias de punição, Jorge excluía a alternativa cadeia. Seu plano era fugir ou ser internado em um manicômio judiciário.


À esquerda, Jorge Negromonte da Silveira na delegacia de Garanhuns, logo após ser detido. À direita, sua mulher, Bel, e sua amante, Bruna

Bel vendia empadas de carne humana sem nenhum medo. Os motoristas da estação rodoviária quase não compravam porque ela chegava depois do almoço. Antes de passar ali, sempre as vendia nos hospitais Perpétuo Socorro e Dom Moura, que ficam próximos à rodoviária. Um dos momentos mais curiosos do depoimento de Bel na prisão foi quando se virou para um dos policiais que a interrogavam e disse:
– Vendi empadas pra você.

Ela também costumava vender empadas na própria delegacia onde então era interrogada. Tanto Bel quanto Bruna pareciam apenas seguir a orientação de Jorge. A jovem lutadora de caratê chegou a escrever em seu diário que acabara de cumprir a missão, após um dos crimes, e se preparava para outra. A primeira afirmação de Jorge Negromonte em sua entrevista para a TV foi esta: “Não tenho religião”. Ele resistiu ao enfoque dos repórteres que viam no triângulo amoroso uma seita de fanáticos.

Com o tempo, ajustou suas declarações ao que esperavam dele. As primeiras reportagens diziam que Jorge e as duas mulheres eram de uma seita chamada Cartel, em luta contra outra seita, chamada M. O delegado Wesley Fernandes, um jovem advogado, chegou a acreditar na versão da seita. Os repórteres de TV perguntaram a Jorge como localizava as pessoas da seita M. Ele respondeu de duas formas, em duas circunstâncias diferentes.

Na primeira, afirmou que vozes interiores indicavam que a pessoa era da seita M. Na entrevista feita na delegacia de Garanhuns, afirmou, entretanto, que distinguia os inimigos pelos números de seus documentos. Tinham de ser 666. Um repórter achou improvável, e ele completou: “Mas isso pode ser uma espécie de média de todos os documentos”.

Nessa história da seita Cartel, Jorge mentiu sem muita segurança porque não contava com a prisão. Seu relato previamente elaborado é o do livro, uma espécie de press release que preparou contando com a hipótese de ir para um manicômio.

No primeiro texto do livro, ele introduz um de seus álibis. Conta que tinha dois amigos quando garoto: um negro, outro branco. E que brincavam correndo de fantasmas e monstros. Ao longo do livro, os dois amigos reaparecem algumas vezes. Jorge lembra que não envelhecem: surgem sempre com a idade que tinham quando se conheceram.

Quando os repórteres o pressionaram a explicar quem eram esses diabos que o incitavam a matar, Jorge, que sempre se referiu a eles como amigos de infância, apresentou-os como anjos vingadores:
– É [sic] um querubim e um serafim.


A casa em que viviam Jorge, Bel e Bruna: revoltada, a população incendiou e pichou o imóvel

O livro de Jorge foi dedicado a todos os profissionais de saúde que trataram dele. Ele registrou o texto em cartório. Dois movimentos que revelam seu plano de antecipar a linha de defesa e evitar a cadeia comum. Ele próprio repete o diagnóstico de sua doença em termos técnicos: CID 10 F20.0. E explica que isso quer dizer “esquizofrenia paranoide”:

“Nós, os esquizofrênicos, temos uma tendência a formar um sistema delirante, mais ou menos estruturado, misto de grandeza e perseguição”.
Embora ao longo do livro apareçam muitos delírios, Jorge, que foi preso usando o cartão de crédito de uma das vítimas, não parece ter as precauções de um perseguido. Seus delírios envolvem mulheres anãs tocando bandolim, homens sem cabeça e outras imagens de histórias infantis. Ele mesmo duvida se é louco. Afirma que sempre vive entre o real e o irreal. E conclui que, perguntando à sua sombra, acredita que não é louco. Muda de ideia quando consulta o reflexo do espelho:
“Sim, você é louco – diz o reflexo”.


Alexandra Falcão e Gisele Helena da Silva: elas foram mortas após ser seduzidas com uma proposta de emprego

Todas as imitações da loucura parecem inventadas por Jorge para convencer um futuro juiz. Tanto que ele não se preocupa em esconder detalhes dos crimes que cometeu. A descrição no livro da morte de uma adolescente coincide com os desenhos em que representa o crime. É como se sentisse a vontade para descrever os detalhes blindado pela loucura:

“A chuva não parava, os clarões do relâmpago iluminava [sic] tudo. As árvores pareciam que estavam dançando no quintal. O vento forte murmurava: era como muitas viúvas chorando e se lamentando em voz baixa a falta dos seus companheiros. Uma noite assombrada, cada trovão que se ouvia assemelhava-se a um vulcão entrando em erupção. E ela estava lá, a adolescente do mal estava em um dos quartos de nossa casa. Um quarto sombrio, úmido e maldito, um quarto que combinava com ela. Tal quarto tinha uma entrada para o porão. Eu, Bel e, principalmente, Jéssica mal entrava [sic] nele, pois ele era muito sinistro, um quarto que dava arrepios.

Chegando à porta do quarto, que está encostada, chego a ver pela brecha a maldita, linda, porém exótica. [...] Jéssica entra no quarto para me ajudar, enquanto Bel corre para a cozinha, voltando depois com uma faca. Os gritos da adolescente do mal são ocultados pelos trovões. Pego a faca e lhe dou um golpe forte e preciso atingindo a jugular. Nessa mesma hora, sinto um líquido quente escorrendo por entre suas pernas, molhando meus pés. Percebo então que ela urinou. Ela pouco a pouco vai esmaecendo nos meus braços, nessa hora eu deixo seu corpo frágil e esbelto cair, fazendo um som grave quando atinge o solo”.

Dificilmente um esquizofrênico cometeria um crime calculado e o descreveria com tantas minúcias. No capítulo 26, ele prossegue a descrição. O título do capítulo é A Dividida:
“Vejo aquele corpo com vida. Jéssica desconfia que ainda se encontra com vida, pego uma corda, faço uma forca e coloco no pescoço do corpo, puxo para o banheiro e ligo o chuveiro para todo o resto do sangue escorrer pelo ralo. Eu, Bel e Jéssica nos alimentamos da carne do mal, como se fosse um ritual de purificação, e o resto eu enterro no nosso quintal, cada parte em um lugar diferente”.

Nesses dois capítulos decisivos do livro, ele não escreve Bruna, mas sim Jéssica. É que Bruna assumiu a identidade da primeira vítima de Jorge, Jéssica, assassinada em Olinda. Aliás, Bruna levou mais a sério toda a história de Jorge do que a própria mulher. Bel, que vendia as empadas, confessou que comeu o fígado de uma das vítimas, o de Gisele Helena da Silva.

A adolescente que Jorge descreve na história coincide com Alexandra Falcão, que tinha 18 anos quando assassinada na casa do Jardim Petrópolis, em Garanhuns. Na penitenciária de mulheres em Buíque, as detentas contam a história da chegada de Bel e Bruna. Ofereceram o primeiro almoço para elas,
e Bruna recusou:
– Sou vegetariana. Não como carne, exceto humana.

A resposta causou alvoroço. Bruna e Bel foram isoladas para evitar um assassinato preventivo. As presas diziam claramente: “Antes que nos comam, é melhor matá-las”. Visitei os dois presídios. Passei mais tempo em Pesqueira, onde está Jorge. Lugar superlotado, com mais de mil presos onde caberiam 250. Ainda assim, Jorge foi isolado.

Enviei uma mensagem para ele, querendo conversar. Ele respondeu que estava ouvindo vozes de novo e que não se responsabilizava muito pelo que podia fazer. Não havia perigo, mesmo se Jorge perdesse o controle. Ou falaria atrás das grades ou seria algemado. Dessa vez sua nova resposta foi: “Só falo ao lado de um psiquiatra”.

Como não havia psiquiatra disponível, ele indicou uma alternativa: só falaria ao lado de Bel, que nesse momento é para ele a figura materna. Não houve chance de chegar até o isolamento. O governo de Pernambuco deu ordens expressas para que eu não entrasse na cadeia. Temia denúncias sobre o estado da prisão, principalmente fotos dos presos amontoados no pátio, como em um campo de concentração improvisado.

Mas eu queria apenas checar alguns pontos. Jorge escreveu um livro, e conheço os argumentos de autores quando se pergunta alguma coisa: “Leia o livro. Está tudo lá”. Muitos repórteres perguntaram a ele por que matava e comia apenas mulheres. Interpretações delirantes indicavam que a seita queria reduzir a população planetária. Nem o próprio autor acredita nessa versão. Jorge e suas mulheres levaram meses para matar alguém, enquanto centenas de milhares de pessoas nascem a cada hora.

Em um momento de emoção, Jorge chegou a declarar:
– As mulheres são o segundo ser mais perfeito que Deus fez. Elas são frágeis, e é preciso protegê-las do mal.

Nem todas as suas vítimas eram jovens. Gisele Helena da Silva tinha 31 anos. Tanto ela como Alexandra já eram mães e não tinham intenções de gerar mais crianças.No curta que Jorge idealizou, escreveu e encenou com Bel, a mulher que matou e comeu era madura, viúva. A mensagem do filme continha uma punição para uma viúva que se aventurava a transar com um amigo do ex-marido.

Ele conseguiu equilibrar um triângulo amoroso, matar mulheres e ainda sobreviver com certa folga, consideradas as condições regionais.Foi preso porque usou o cartão de crédito de Gisele. Tanto ele como Bruna se vestiram de uma forma especial para as compras e foram filmados pelas câmeras das lojas.
Ainda assim, Jorge mandou um recado avisando que precisava de advogado e que tinha 10 000 reais guardados. Um guarda penitenciário chegou, piedosamente, a ligar para um advogado criminalista de Garanhuns. Proposta recusada.

Jorge Negromonte da Silveira já fez sua defesa e a publicou em livro.  Grande parte do júri vai ser dedicada ao debate sobre esquizofrenia.

Será que ele é? Ou se escolheu esquizofrênico?

Matéria publicada na Revista PLAYBOY de junho de 2012.