Alguém em algum lugar – um brasileiro de volta do exílio, talvez? – andou tomando decisões mal à beça. Não dou o nome por uma questão de respeito ao anonimato, já que essa omissão faz parte das minhas resoluções para o ano que ora adentra o gramado sob o comando, a batuta e o apito da Ilustríssima Senhora Dona Presidente e, bobeando, Presidenta também Dilma Rousseff.

A missiva em letras muito redondas e parrudinhas, como se tivessem passado um bom tempo fazendo musculação, esteira, essas modalidades hedonistas as quais, juntamente com o churrasco, a batidinha e a informática, somos bambambãs, termo que prometi nunca mais usar em minhas resoluções para 1976. Assim é a vida, assim caminha, se não a humanidade, ao menos capenga e manquitola, eu. Ao moço, pois assim o creio, em questão e sua listagem.

• Prometo que em 2011 não pedirei mais de sacanagem no armazém da esquina “250 gramas de manteiga pré-sal” só para buleversar o português dono do estabelecimento. “Buleversar” era verbo que em minha estada em Paris (2001-2009) cunhei como resolução para 2006.

• Continuarei tentando de todos os modos possíveis comer a Ava Gardner. Acho que já estamos os dois suficientemente maduros para seguir em frente nas caprichosas artes de Cupido, esse moleque teimoso.

• Adotarei a propalada moda do celular. A radiação e o câncer cerebral que se danem. Tiro de letra, de texto e de torpedo. O importante é estar em moda com tudo e todos.

• Entrarei para o tal do Facebook, que muitos, depois de destruírem uns birinaites comigo, já disseram muito seriões: “Sabe que é a tua cara?”

• Twitter também é exagero. Caráter é algo por que sempre tive de lutar. Não quero de um ano para o outro limitar minhas observações, sejam quais forem, a 140 caracteres – 1 080, alta definição e três dimensões ni minimis, ni minimis. Não faço por menos. Levei 32 anos para dominar nossa língua, a mais bela do mundo, e não há de ser um estrangeirismo metido a besta que vai me impedir de expor, com todos os F e os R, o que eu acho das coisas da vida, da vida das coisas e de malandro querendo me calar a boca. Tentaram entre 1954 e 1985. Eu também fui preso e torturado, e rábula nenhum me ajudou a levantar uma nota pesada como indenização.

• Se me oferecerem (sim, é com você mesmo que estou falando, Genivaldo!) uma boquinha, senadoria, deputância ou vereância, uma assessoria que seja, topo de estalo e estamos conversados, tão sabendo?

• Amarei a Deus sobre todas as coisas. Isso não me impede, no entanto, de continuar recusando o convite do padre Carlinhos para ir com ele até seu quarto para juntos folhearmos umas revistas dinamarquesas (“originalíssimas”, como ele as chama) que ele guarda dentro de uns velhos catecismos trancados em um baú. É duro, mas continuarei resistindo.

• Em 2011 não deverei invadir nem a Polônia nem a Tchecoslováquia. Nada prometo em relação à Bélgica. Vamos ver como os belgas se comportam depois que de lá me expulsaram em 2002.

• A conversão para o islamismo é uma questão de muito debate. Continuo aberto a discussões como sempre.

• As camisinhas eu as continuarei usando. Para encher de água e jogar do terceiro andar da sede da representação da ONU em países obscuros (ou pelo menos moreninhos de bom cabelo) do chamado Continente Negro. Cada um se diverte como pode, e eu também sou filho de Deus e do caboclo Papacu, meu guia e mestre.

• Mesmo que me convidem não abrilhantarei a todos ofuscando com a safira azul de minha presença as bodas do príncipe inglês com a “plebéia” Kate Middleton.

• “Plebéia” com acento mesmo. Re- forma ortográfica brasileira é o “cacête”. Eike Batista concorda comigo, e isso é o que importará no ano entrante e botante, botante e entrante – e assim por diante até aquela horinha de a gente pedir: “Para, para agora um pouquinho, por favor!” O que com todo o respeito não é válido para o senhor, padre Carlinhos.

• Eike Batista. Esse teuto-brazuca será meu em 2011. Ou eu dele. Uma coisa assim. Sou um homem que aprendeu a ter paciência. Estando vivo, deixo até para 2012. Mas eu quero as regalias juntamente com as mordomias.

Eike Batista. Corte brazilian lá embaixo, piercing nos lugares mais inesperados, mais originais. Onde até mesmo a onça bebe água que passarinho etc.

“Viver é perigoso”, como escreveu Hemingway 30 anos antes de Guimarães Rosa no conto Os Assassinos. Afasto-me de meus saudáveis propósitos resolucionais, e mais uma vez eis minha cabeça a rodar e rodar enquanto ouço em câmera de eco, como em um filme noir, o nome: “Eike Batista, Eike Batista, Eike Batista…” Ocasionalmente sai um “Baptista”, assim mesmo, com P, e pronunciado além de ortograficamente reformado.

De resto é como no malicioso dito popular, “afobado come cru”, não é mesmo, minha adorada Ava? Comerei eu tão pacientemente necrófilo? Pretendo levar um dia de cada vez improvisando minhas resoluções de segunda a domingo, como o fazia o magnífico Pelé.

As anotações teminam em uma nota a que poderíamos chamar – e por que não chamar logo? – de resolutamente obscura. Diz lá ele, o resolucionável em questão: “O resto a gente improvisa”.