Uma cidade cinzenta, fria e chuvosa. Uma jovem de 17 anos brutalmente assassinada. Uma trama política de fundo. Mentiras por todos os lados e uma dedicada policial determinada a responder uma única questão: Quem matou Rosie Larson?

Não há como negar. A trama, originalmente produzida pela TV dinamarquesa e adaptada pelo canal a cabo norte-americano AMC (o mesmo de Walking Dead e Mad Men), remete diretamente àquela que é considerada a “mãe” de todos os seriados modernos: Twin Peaks, dirigida em 1990 pelo cineasta David Lynch. Naquela época, a pergunta “Quem matou Laura Palmer?” tirou o sono dos telespectadores por semanas. Capítulo a capítulo, personagens bizarros iam surgindo e se cruzando à medida que verdades terríveis eram reveladas e expondo o nada católico passado de Laura. À frente da investigação, o agente especial do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan no melhor papel de sua vida), um obstinado comedor de rosquinhas. O clima na fronteiriça cidade de Twin Peaks era igualmente cinzento, frio e chuvoso. Quando finalmente revelou-se o assassino de Laura Palmer, a televisão já havia mudado para sempre.

Com uma premissa semelhante, The Killing estreou bem na última segunda-feira no canal a cabo A&E, a despeito da versão ser dublada e marcada por um excesso de repetitivos e chatérrimos intervalos comerciais. Conduzida pela produtora Veena Sud, de Cold Case, com a colaboração dos produtores dinamarqueses, a série esforça-se para manter o clima carregado e propositalmente sinistro pontuado por uma trilha sonora igualmente sombria – outra lição extraída de Twin Peaks, cuja música de Angelo Badalamenti foi fundamental na criação da enevoada atmosfera da trama.

Nos dois primeiros episódios – e serão 13 nesta temporada, cada um abordando um dia da investigação -, nos deparamos com a detetive da Divisão de Homícidios de Seattle Sarah Linden (Mireille Enos, que em muitas sequências lembra a agente Dana Scully, de Arquivo X) em seu último dia de trabalho. Demissionária, ela só espera o relógio bater seis horas para pegar seu filho e voar para uma nova vida nos braços do noivo em Sonoma, Califórnia. Tudo vai bem, até que o caso Rosie Larson cai no seu colo. Ao lado do policial que irá substituí-la, o detetive Stephen Holder (Joel Kinnaman), depara-se com o brutal assassinato de uma garota aparentemente exemplar, sem vícios ou inimigos. Experiente e dedicada, Sarah não sente firmeza no afobado e impulsivo parceiro. Transferido da Divisão Anti-Drogas, Stephen é um sujeito esquisitão, que não hesita em fumar um baseado com duas alunas da escola durante sua busca por pistas sobre o paradeiro de Rosie. Nada ortodoxo.

Paralelamente à investigação da dupla, o roteiro aborda o imenso sofrimento da família da jovem – pai, mãe e dois irmãos pequenos – e a acirrada disputa eleitoral pela prefeitura da cidade, envolvendo um vereador-candidato de passado ainda obscuro. A partir daí somos apresentados a uma sucessão de suspeitos habituais, como o ex-namorado rico e mimado, o dissimulado professor de Inglês, o afetado assessor de campanha, a instável e perturbada melhor-amiga. Claro que as apostas podem ser feitas – e este é o jogo -, mas recomenda-se cautela. Nesta primeira temporada, já encerrada nos EUA, não foi revelado o assassino da jovem. Assim podemos esperar o surgimento de novos personagens e tramas, além dos segredos do passado de Rosie, que irão emergir do fundo do lago onde seu corpo foi encontrado e do ensanguentado porão descoberto na escola secundária. A julgar por esse início eletrizante, tenho certeza de que a pergunta “Quem matou Rosie Larson?” irá nos atormentar por um bom tempo. Assim como Laura Palmer, Rosie não terá descanso.

* No site da série (em inglês) é possível fazer sua lista de suspeitos e compartilhar no Facebook e até vasculhar o quarto da vítima, em busca de maiores pistas. Não se preocupe com os spoilers nos vídeos de episódios que ainda não passaram por aqui, eles não rodam para quem está no Brasil.