Quando a moça inicialmente contratada para distribuir brindes aos convidados do Terceiro Tempo começou a substituir esporadicamente o experiente Milton Neves no comando do programa, a reação geral foi de desconfiança. A presença da loira gaúcha de 1,79 metro de altura na “panelinha” da imprensa esportiva, normalmente restrita a homens pouco preocupados com a aparência, provocou comentários cruéis de jornalistas como Jorge Kajuru, que questionou publicamente os conhecimentos dela sobre futebol. As críticas, no entanto, não pareceram abalá-la. “Falar sobre futebol é questão de competência, e não de sexo masculino ou feminino”, diz, enfática.

Filha de um advogado e de uma professora, Renata Bomfiglio Fan nasceu há 34 anos em Santo Ângelo, no interior do Rio Grande do Sul. Teve uma infância “de molecona” que já apontava sua carreira profissional no futuro. “Enquanto minhas amigas se reuniam pra ouvir música, eu sentava ao lado do pai delas pra ouvir o jogo no rádio”, lembra. Com porte de modelo, foi Miss Brasil em 1999 e, no mesmo ano, ficou na 12ª colocação no Miss Universo, entre 99 participantes.

Renata deixou o Rio Grande do Sul aos 22 anos, quando se formou em direito e foi estudar jornalismo em Divinópolis (MG). Chegou a São Paulo em 2003 para continuar a faculdade e logo foi contratada pela TV Record como assistente de Milton Neves no programa Terceiro Tempo e, pouco depois, no Debate Bola, na mesma emissora. Conquistou a confiança de jornalistas e jogadores e, em 2007, foi escalada pela Band para comandar o programa Jogo Aberto, diariamente, e o Apito Final, um resumo semanal da rodada, que foi ao ar até outubro de 2011. Entre uma emissora e outra, ficou apenas oito dias fora do ar.

A gaúcha está há oito anos na televisão e declara assistir a 15 jogos de futebol por semana. Ela também cobriu a Copa do Mundo da África do Sul e foi a primeira mulher a comandar uma mesa-redonda na TV brasileira.

Renata é jovem, mas seus hábitos lembram os de uma mulher mais velha. Caseira, ela não fuma, não bebe e tem de fazer esforço para se lembrar quando foi a última vez que caiu na balada. Em seu site oficial, diz que admira “pessoas disciplinas e organizadas” e cita Frank Sinatra como seu cantor favorito.
Ainda mais bonita pessoalmente do que no vídeo, Renata Fan recebeu a repórter Camila Gomes para as duas sessões desta entrevista no Octávio Café, famosa cafeteria de São Paulo. Nos dois encontros, pediu chocolate quente, que esfriou ao longo da conversa sem que ela fizesse uma pausa para tomá-lo. Por coincidência, o time pelo qual é fanática – o Internacional de Porto Alegre – estava jogando contra o São Paulo no mesmo horário da primeira conversa, em outubro do ano passado. Enquanto respondia às perguntas, ela alternava o olhar entre a repórter e a televisão no canto do salão, sem perder o foco do que dizia. Na segunda sessão da entrevista, em janeiro, apareceu com a pele bronzeada: havia acabado de voltar de uma viagem às Ilhas Maldivas com o namorado, o piloto de stock car Átila Abreu.

Renata fala muito e dá respostas longas. Talvez herança de seu passado, fala com a eloquência de uma miss e pontua o fim de cada resposta com um sorriso. Também usa frases pouco coloquiais, como “Creio que eu teria êxito”, e gesticula muito com as mãos. Só fica acanhada e lacônica quando a questão é sobre sua vida sexual, mas não perde a simpatia mesmo constrangida.

Por que toda mulher que fala de esporte na TV é bonita e gostosa, enquanto os homens costumam ser feios e malvestidos?

Porque o requisito para os homens, na maioria das vezes, é a experiência. O cara foi um atleta, foi um jogador… Em relação às mulheres, a estética é uma exigência da TV como um todo. Isso é um padrão nacional e internacional, a estética é valorizada no mundo capitalista globalizado. Há, sim, uma preferência pelo rosto bonito, mas  nenhuma mulher bonita se mantém no ar se não tiver talento e não souber do que está falando.

Por ser mulher, há coisas dentro do futebol a que você não tem acesso?

O que acontece é que às vezes fico pensando duas vezes antes de ligar para um jogador, um dirigente ou alguém desse meio e pedir uma informação. Porque eu tenho medo de que as pessoas desvirtuem isso, que elas considerem que a minha aproximação não é pura e simplesmente profissional, o que seria totalmente inverídico.
Já aconteceu de confundirem as coisas?

Nunca, mas desde o meu primeiro dia de trabalho eu tenho esse receio.

Você acha que seu destaque incomoda colegas da ala masculina que podem pensar: “Poderia ser um homem ocupando esse espaço”?

Evidentemente.

Isso já chegou diretamente a você?

Pode-se chamar de intuição feminina [risos].

Hoje em dia já é quase unanimidade que você sabe do que está falando, que não é só um rosto bonito para enfeitar os programas, mas…

[Interrompendo.] É, depois de oito anos fica difícil enganar [risos].

Mas, quando você começou e rolava uma enxurrada de críticas a esse respeito, você nunca se deixou abalar, nunca duvidou de que talvez estivesse mesmo no lugar errado?

Quando eu ainda era assistente de palco do Milton Neves, comecei aos poucos a dar uma opinião ou outra. Alguém esquecia o nome de um jogador ou de um árbitro, e eu estava sempre atualizada. E as pessoas olhavam e falavam: “Puxa, ela também opina, ela tem argumento, ela vê futebol tanto quanto nós”. E isso ficou tão evidente que eu comecei a substituir o Milton Neves em feriados, nas férias ou quando ele ficava doente. Foi uma coisa tão gradual que ninguém contestou. Desde sempre eu tive vontade de debater, de movimentar minha opinião em relação ao futebol. Se eu tivesse ficado me lamentando: “Oh, eu sou mulher, eu sou loira, eu fui miss, tenho um passado que não tem nada a ver com futebol”, eu não estaria no lugar que ocupo hoje. Em vez de perder tempo com isso, eu resolvi trabalhar, ver o maior número de jogos possível e ser uma pessoa que tem opinião.

Você sempre se interessou por futebol?

Desde os 6 anos eu via os jogos do Inter com meu irmão e meu pai em casa. E naquela época não tinha facilidade, não tinha pay-per-view, internet. Então eu ouvia futebol pela rádio AM, o som sumia toda hora, era uma coisa bem rudimentar. Tinha de ficar segurando o fiozinho pra ouvir a narração [risos]. E foi assim que comecei a gostar, conversando com meu pai, com meu irmão. Interesse é uma coisa que não tem muita explicação, você gosta ou não gosta, é difícil se forçar a se apaixonar por algo.

Rolou um porre memorável de comemoração quando o Internacional foi campeão do Mundial de Clubes, em 2006?

Até hoje eu penso nesse título e fico sorrindo, mas as coisas boas eu quero lembrar sóbria. Eu lembro que vi o jogo da final do Mundial sozinha em casa. Era bem cedinho, e tenho certeza de que acordei o prédio inteiro porque fiquei sem voz de tanto gritar. Quando você se excede em bebida, não vai estar com suas faculdades mentais plenas e intactas, e eu gosto de viver qualquer coisa boa ou ruim da vida de forma completa. Só bebo no Ano-Novo, tomo uma taça simbólica. Eu não tenho nada contra bebida, mas não vejo muita graça. Eu não me drogo, não bebo, nunca fumei cigarro nem maconha. Cada um faz o que quer da sua vida, não sou puritana, mas escolhi esse jeito de viver.

Um dos vídeos mais populares seus na internet é um momento em que você chora diante das câmeras. O que aconteceu ali?

Olha, quando o Inter perdeu pro Mazembe [na semifinal do Mundial de Clubes de 2010], foi uma decepção descomunal. Foi aquele tipo de derrota que você não esquece tão cedo, das maiores decepções do futebol. Então, quando eu fui fazer o programa, é claro que eu continuava triste, dentro de mim eu estava em ebulição. E no momento em que surgiu a notícia, quando o Neto começou a falar e reviver a derrota, com uma música fúnebre, eu não pensei que estava ao vivo, que tinha uma câmera na minha frente, não pensei em nada além da derrota. Foi uma manifestação extremamente genuína porque ali não era a Renata apresentadora, era uma Renata humana, uma pessoa que tem a emotividade. Simplesmente não consegui conter as lágrimas. A sorte é que logo foi para o intervalo comercial, deu tempo de chorar um pouquinho mais, enxugar as lágrimas e retocar a maquiagem [risos].
Você sabia que existem comunidades na internet criadas com o único objetivo de convencê-la a posar para PLAYBOY?

Não! [Risos.] Totalmente novidade.

O que você tem a dizer sobre isso?

Eu não penso em posar nua. É uma decisão que eu tomei muito antes de trabalhar em televisão, é algo que não combina comigo. Trabalho com homens, e é claro que eles falam muito sobre esse tipo de coisa: “Fulana deveria sair na PLAYBOY, Sicrana estava linda no ensaio etc.” E eu acho engraçado quando os ouço avaliando as partes do corpo da moça do ensaio na minha frente. Fico imaginando se eu estivesse na revista, e eles comentando, o que eles falariam em relação a mim. Não quero passar por isso. Fico lisonjeada, claro, mas realmente não estou preparada.

Você já disse que pretende se aposentar em 2016. No futuro, você se vê apresentando um programa sobre sexo, como Amor & Sexo, que Fernanda Lima apresenta, por exemplo?

Talvez, antes de me aposentar da televisão, eu ainda faça alguma coisa para as mulheres, para outros públicos. Eu apresentar um programa como esse seria surpreendente. Não tem tanto a ver comigo, eu teria de interpretar um pouco, ser um misto de apresentadora e atriz. Eu gostaria de fazer um programa para mulheres com a participação de homens também, de repente levar um casal com problemas para o programa e ajudá-los a discutir a relação.

Você é do tipo que adora discutir a relação?

Eu adoro. Quer dizer, eu gosto de falar, mas não sou muito de escutar. Meu namorado costuma dizer que as nossas conversas sempre terminam com ele pedindo desculpas mesmo quando sou eu quem está errada [risos]. Acho que é minha veia de advogada que ainda está em mim.

Você já ficou com jogador de futebol?

Nunca. Primeiro porque eu não gosto dessa história de ficar. Eu prefiro namorar alguém a imaginar que um cara vá me beijar e no outro dia não vai nem lembrar meu nome. Eu não admito isso. E acho que a minha postura inibe muito os jogadores, treinadores e dirigentes. Essas cantadas explícitas que todo mundo imagina, delira e sonha que tenha toda hora não existem.

Nunca existiram?

Já aconteceu de virem me dar recado tipo “O Fulano acha você tão linda” e tal, mas, diretamente, não. Eles sabem que eu tenho namorado, que eu estou numa condição profissional séria, e isso faz com que os jogadores se afastem um pouco. Muitos perguntam: “Você não tem uma prima bonita como você, uma irmã?” [Risos.]

E as cantadas do público, teve alguma memorável?

Acontece mais pela internet, porque daí as pessoas não estão cara a cara com você e ficam mais corajosas. Uma vez aconteceu uma história engraçada: pelo Twitter, uma pessoa me chamou de “gostoza”, com Z, ainda por cima! Quando fui ver, era um menino de 9 anos! Fiquei chocada [risos].

Você ainda costuma ir ao estádio?

Pouquíssimo. Adoraria ir todo fim de semana, mas o negócio é que, se eu estou em casa, consigo ver vários jogos ao mesmo tempo. Já no estádio, as pessoas se aproximam, querem fotos, autógrafos, conversam, então não consigo prestar atenção na partida. E depois isso faz falta, eu vou ter de ver o VT de novo, vou deixar de ver outro jogo para rever aquele. Então é mais uma questão de estratégia profissional mesmo.

Já teve torcedor saidinho que tentou passar a mão no estádio?

Não, mas, o contrário, já! [Risos.] Era final da Libertadores, Inter e Chivas, e eu estava no Beira-Rio, no camarote de um banco que me contratou. Fiz meu trabalho até a metade da partida e depois estava liberada. Sentei no camarote com meu namorado, e tinha várias pessoas ao meu lado. De repente saiu o primeiro gol do Inter e, quando me dei conta, eu estava abraçada a um senhor! Um cara que eu não sei quem era nem de onde surgiu, e eu grudada nele! [Risos.] Meu namorado olhava com uma cara de apavorado, não estava entendendo nada. Quando percebi, comecei a rir, e o cara numa felicidade só. Devia estar pensando: “Essa mulher é louca!”

Na entrevista que Milton Neves deu a PLAYBOY [março de 2006], ele disse: “Eu não pegaria a Renata Fan porque ela é muito magra”.

Ele falava: “Gaúcha, você não tem carne”. Ele sempre disse que o padrão de mulher do tipo modelo não é o que ele gosta. O Milton gosta de mulheres que tenham a comissão traseira bem avantajada, o braço mais roliço. Eu respeito e, se eu tivesse de olhar para um homem em termos de desejo, também não seria o Milton Neves [risos].

E os xavecos do Neto são só de brincadeira mesmo? Outro dia ele disse que seu decote não o estava deixando se concentrar.

[Risos.] O Neto é o típico homem que fala muito mais do que faz. Então eu dou risada, fico meio sem graça porque sei que é ao vivo e tem muita gente acompanhando o programa, mas sempre levo pelo lado da brincadeira, não me ofendo. Faz parte do personagem que ele construiu na televisão.

Você namora o piloto de stock car Átila Abreu há três anos. Tem muitas marias-gasolina em cima dele? Você é ciumenta?

Eu vou às corridas com ele, e tem muitas mulheres bonitas que trabalham nas empresas que patrocinam os pilotos, mas é o trabalho dele. E não interessa o que as outras mulheres vão fazer, e sim a reação dele. Se eu tivesse um namorado e soubesse de uma traição, eu jamais me focaria na mulher que foi a causadora da traição. As mulheres podem dar em cima, podem aparecer, se mostrar, mas é uma decisão do homem.

O tamanho do carro do piloto é importante?

[Risos.] Não! O que faz diferença é a potência do motor do carro.

Você torce para o Internacional; ele, para o São Paulo. Nunca rolou uma discussão mais acalorada por causa disso?

Não, porque ele não é um torcedor fanático. E é engraçado porque eu sempre pensei que namoraria um homem doente por futebol com quem eu teria discussões homéricas. Mas o Átila é muito tranquilo, nem vê os jogos comigo. Uma vez teve um São Paulo e Inter no Beira-Rio e nós estávamos ganhando de 2 a 0. O Átila me ligou e brincou que o São Paulo ia virar. O jogo acabou em 2 a 2, e eu fiquei indignada. Eu falei: “Se você me ligar de novo hoje, eu não falo mais com você”. E ele não ligou, foi dormir. Ele é esperto [risos].

Daniella Cicarelli, em entrevista a PLAYBOY [dezembro de 2005], disse que pé na bunda e chifre um dia chegam pra todo mundo. Para você já chegaram os dois?

Pé na bunda, já. Meu primeiro namoro terminou num pé na bunda.

Existe algum conforto em pensar que hoje esse cara deve se lamentar pensando: “Dispensei esse mulherão…”?

Eu nem me lembro mais dele direito, ficou no passado. Se um cara me trocar por outra, é porque ele não me quer. E eu não quero um homem que não me queira. Tem muita mulher neurótica nesse sentido, que fica pensando o tempo inteiro se vai ser trocada ou vai ser traída, que não tem segurança. Mas nesse time eu não jogo [risos].

Ser bonita e gostosa já chegou a incomodá-la ou só traz alegrias?

Eu não me acho gostosa, eu me acho bonita. [Risos.] Acho que tenho uma beleza clássica. Acho difícil entender por que as pessoas me acham gostosa.

Ah, vá! Qual é a dificuldade?

Eu acho que mulheres gostosas são aquelas que têm sex appeal, que têm a sensualidade mais desenvolvida, mulheres que valorizam as curvas. Não me considero uma mulher voluptuosa. Quando a revista VIP faz uma eleição e me coloca entre as 100 mulheres mais gostosas do mundo, eu não consigo me ver ali, parece que aquele papel não me serve. Você vai dizer que estou sendo humilde, mas acho que tem muito essa fantasia da televisão. Eu não me acho gostosa.

Você gosta quando as pessoas elogiam seus dotes físicos, como seu bumbum?

Não gosto. Não sou tímida, mas, se alguém me fizer um elogio à queima-roupa, eu desconverso, não sei ter outra reação. Há pouco tempo uma amiga contou que estava no aeroporto e começou a trocar olhares com um cara. Quando eles foram para a fila do embarque, ele se aproximou dela e disse: “Eu acho que você vai ser minha”. Ela respondeu: “Eu tenho certeza”. Gente! Eu nunca poderia fazer uma coisa dessas! Eu não consigo!
Você já foi assediada por mulheres?

Eu faço muito eventos como mestre de cerimônias e às vezes percebo que tem mulheres do estilo das que gostam de mulheres também que ficam olhando com aquele olhar, sabe? Mas eu me incomodo quando uma mulher fica olhando pra mim insistentemente, e não no sentido de admirar a beleza, de ser um modelo para ela, mas aquele olhar de gana, de desejo. Não gosto disso.

Quando colocou silicone, você mostrou seus peitos novos a todas as amigas?

Não, porque foi uma coisa muito sutil, mas, quando voltei ao trabalho, fiquei esperando para ver se meus colegas iam reparar. Como ninguém falava nada, eu mesma dizia: “Gente,  vocês não estão vendo que eu coloquei silicone?” E contava pra todo mundo. Todos os homens perguntavam: “E aí, não vai mostrar?” Mas eu não mostrei. Nem vou mostrar [risos].

Você disse que não curte essa história de ficar, que prefere namorar. Posso deduzir dessa afirmação que você não é o tipo de mulher que transa com um cara na primeira noite?

[Risos, constrangida.] Eu acho que o sexo tem de ser uma coisa batalhada. Poderia até acontecer uma coisa dessas, mas eu prefiro ser conquistada e saber que o cara teve muita dificuldade.

Seu namorado teve de ser paciente nesse sentido, então.

Quatro meses! [Risos.]
Uau! E não foi difícil pra você?

Não. Quando eu fui pro Miss Universo, vi mulheres desesperadas porque estavam havia um mês sem sexo, mas isso pra mim é questão de disciplina, é a maneira como você trabalha o seu lado psicológico.

Sexo sem amor não dá?

De jeito nenhum.

Sua lista de fantasias sexuais inclui fazer amor em um campo de futebol?

Sem chance! Futebol é só para o lado profissional, não dá pra misturar.

Uma final de campeonato com o Internacional campeão se compara ao prazer de um orgasmo?

Posso dizer que são coisas bem similares [risos].

Quando transou pela primeira vez, você contou para a sua mãe ou para as melhores amigas?

Não contei para ninguém. [Apontando para a própria cabeça.] Ficou aqui.

Como foi a sua primeira vez?

[Risos, constrangida.] Tem certas coisas que são só suas, e segredos como esses são as melhores coisas da vida, mas são só meus.

Falar de sexo a tira do sério?

Me deixa sem graça. Eu acho que sexo não é uma coisa pra ser muito falada. Eu fico um pouco reticente, por exemplo, com pessoas que só falam de sexo, sabe? Conheço muita gente assim, e são pessoas que me dão a impressão de que falam muito e que não têm nada a oferecer. E quem fala muito geralmente pouco realiza, não só pra sexo, mas pra tudo na vida.

Mas sexo é importante pra você?

Ai, meu Deus, o que eu posso responder pra você?!? Sexo talvez seja a coisa mais íntima na vida de uma pessoa, e é por isso que não me sinto tão à vontade falando sobre isso.

Então vamos mudar de assunto. Qual foi o momento mais constrangedor nesses anos de televisão?

Foram alguns, como quando você se equivoca numa informação ao vivo, não tem como retroceder e logo está no YouTube. Quando acontece isso, eu sei que o peso é grande porque muita gente vai dizer “Está vendo? Não sabe nada de futebol”, mesmo depois de oito anos ao vivo todos os dias. Já aconteceu de um treinador dizer que eu deveria me informar melhor sobre o futebol, que eu deveria ser uma pessoa mais atualizada. Não vou dizer quem é porque já faz tempo. Mas eu me senti mal porque achei que não precisava ter falado isso ao vivo. Mas pouco depois ele foi demitido do clube, enquanto eu estou no meu emprego até hoje. Ele já circulou por vários clubes depois disso, e nunca mais por um clube de expressão. É feio falar isso? [Risos.] [Em julho de 2010, Emerson Leão, então técnico do Goiás, disse em uma coletiva que Renata não entendia nada de futebol. Ele foi demitido do time um mês depois. Doze dias após a primeira sessão desta entrevista, em outubro de 2011, ele foi contratado como técnico do São Paulo.]

Achei que você fosse citar o dia em que teve de dançar ao vivo – aliás, outro grande hit seu no YouTube – como um dos momentos mais constrangedores de sua carreira.

Essa campanha “Dança, Renata” começou quando o [ex-jogador] Denílson entrou no programa, que é um cara leve e muito espontâneo. Ele sempre brincava, dançava, e todo dia ele falava: “Dança, Renata!” E eu dizia: “Não”. De repente começaram a fazer vídeos na internet pedindo para eu dançar, as pessoas iam para o estádio com cartazes. Virou charge, virou uma pauta do programa que durou seis meses! E chegou um momento em que o meu diretor me perguntou: “E aí, você vai ou não vai dançar?” E eu fiquei remoendo aquilo uma semana, pensando que eu sou jornalista, que tenho minha credibilidade, sou mulher no futebol etc. Foi uma decisão difícil. Eu não sou uma pessoa tímida, mas imaginar dançar na televisão ao vivo para o Brasil inteiro me apavorava. Então, no dia em que eu decidi, procurei um professor e fiz aulas por 17 dias. No dia da apresentação eu suava frio. Porque eu sou muito grande, alta, desengonçada, achava que nada tinha sincronia. Bem, dancei, não me arrependo nem um segundo e acho que foi a coisa mais radical que eu fiz na televisão [risos].

Depois disso seu namorado não pediu para você repetir a dança só para ele entre quatro paredes?

Não. Você acredita que, na primeira vez em que fui mostrar a dança a ele, antes do programa, ele riu e disse: “Você vai dançar ISSO na televisão?!?”, acredita? [Risos.]

Como jogadora, você é o caso clássico do “quem não sabe fazer vira crítico”?

Como jogadora eu sou um zero à esquerda, não tenho esse dom. Talvez o grande trunfo da minha carreira tenha sido descobrir desde cedo que eu não tinha talento para jogar e resolver me concentrar na comunicação do futebol [risos].

Quem é o melhor técnico do Brasil hoje?

Muricy Ramalho [técnico do Santos]. É o atual campeão paulista, é o atual campeão da Libertadores, pegou um time que não vivia uma boa fase e reverteu toda essa situação. É um treinador que fala pouco, mas trabalha muito. Muricy é uma pessoa que não faz muito marketing, não é de muito papo com a imprensa, mas é um cara muito sério, que atua com firmeza, que é acreditado pelos jogadores e, principalmente, é um cara que trabalha pelo resultado.

Com base na sua experiência na Copa na África do Sul, como você vê o cenário da Copa no Brasil em 2014?

Por ter ficado 48 dias na África do Sul, eu tive a oportunidade de observar bem toda a estrutura deles. E a realidade brasileira é preocupante. Eu não tenho medo de que nós não tenhamos estádios, de que as coisas não fiquem prontas. O meu medo é qual será o custo de tudo isso. A gente sabe que, quando as coisas são feitas de forma apressada, quando são feitas sem muito planejamento, o contribuinte é que vai ter de arcar com os custos. Mas eu me preocupo até com o legado da Copa. O que isso vai representar para o Brasil, para a população, e o que nós vamos deixar para os Jogos Olímpicos de 2016.

O que você acha de Ricardo Teixeira estar há 23 anos no cargo de presidente da CBF?

Acho que o povo brasileiro é que tem de questionar esse tipo de coisa. O Ricardo Teixeira é o gestor do principal órgão de futebol do país há tanto tempo porque as torcidas, os clubes, os dirigentes concordam com essa situação. Eu já vi no Brasil um impeachment e eu fui lá, pintei o rosto e participei. Se a população não está satisfeita com a CBF, vai ter de fazer o mínimo para poder mudar a realidade.

Você está satisfeita com essa situação?

Eu não gosto de falar de política no futebol. A minha função é falar do que acontece dentro do campo, de como os clubes jogam. Eu faço análise tática e técnica, falar de política não é minha diretriz. Como jornalista e contratada da Band, prefiro não me manifestar. E não é covardia. É como o voto, que é secreto.

O Vampeta disse certa vez que a imprensa esportiva é careta, que não perdoa ver jogador no bar. Você concorda?

Não concordo. Caretice, pra mim, é beber. Uma pessoa que não consegue assumir suas funções como atleta, como um profissional bem remunerado, ídolo de uma torcida, alguém que não tem consciência da importância e da seriedade disso, tem mesmo de ir pro bar e largar o futebol.

É comum os jogadores se irritarem com o que você diz?

Mas isso é ótimo! Imagina se eu falasse mil coisas e ninguém reagisse, ninguém desse atenção ao que eu digo! Eu me sinto de certa forma lisonjeada quando as pessoas contra-argumentam, quando querem aumentar o assunto. Senão elas não se importariam.

Mas você fica chateada quando, por exemplo, Emerson Leão diz que o programa de vocês é muito marketing e pouco conteúdo?

É só a opinião dele. E eu sei que não é a da maioria, senão eu não estaria onde estou.

Outro que adora dar alfinetadas em você é Jorge Kajuru. Você costuma responder às críticas dele?

[Levemente irritada.] Não, porque dele eu só tenho pena.