Enquanto o sonoplasta Tico anunciava ao microfone: “Oral, anal e o escambau!”, dava-se início a mais um show exclusivo da boate Kilt, a lendária casa de garotas de programa no centro de São Paulo. Naquela época, o auge dos anos 1970, os frequentadores abastados do lugar, gente de família quatrocentona, políticos, industriais e playboys perdulários, assistiam à apresentação de sexo explícito com a mesma curiosidade com que as crianças observam um mágico no circo. No palquinho de cerca de 6 metros quadrados, homens e mulheres de todas as orientações exibiam com admirável sem-cerimônia, como vieram ao mundo, um inesgotável repertório de posições sexuais. Do papai-e-mamãe ao carrinho de mão, do 69 ao trenzinho do amor. “As pessoas ficavam vidradas, o Kilt lotava de gente. Tinha que ver!”, lembra a empresária Tânia Maciel, então dona da casa, com orgulho. Tânia esteve no comando do Kilt por 33 anos, até 2004, e permanece proprietária do ponto.

Convenhamos, era preciso ser muito destemida para bancar um show daqueles em plena ditadura militar, debaixo da mais acirrada censura e, além de tudo, em um feudo de machos-espada. Mesmo contando com a influência dos amigos “coronéis”, como ela mesma diz, com a generosidade de seus amantes poderosos, chefes de Estado ou medalhões de altas patentes no Exército, Tânia precisou se impor. Talvez a palavra destemida seja até, digamos, reducionista para defini-la. Suas qualidades para aquele negócio iam muito além da mera coragem. Tânia possuía tino para a coisa. “Não tem o Pelé no futebol?”, compara didaticamente Leonardo Teiji, 53 anos, gerente da boate desde 1982. “Ela era desejada pelos clientes, respeitada pelas garotas e temida pelos funcionários. Nesse ramo, uma mulher precisa ter o dobro da vontade de um homem para vencer.”

Tânia trouxe a ideia do show de sexo explícito de Amsterdã, onde esteve em 1975, a convite de uma marca de whisky, integrando o time de comerciantes que mais vendiam o rótulo no Brasil. De volta, precisou de ajuda para que a censura liberasse o show. “Falei com o coronel Erasmo Dias, que era um amigo muito próximo, e ele me orientou a ir ao Departamento de Censura, na Avenida Rio Branco. Lá, consegui uma licença provisória. O coronel era muito temido, sabe?” Todo mundo sabia. Erasmo Dias foi secretário de Segurança Pública de São Paulo entre 1974 e 1978 e ficou conhecido por comandar ações repressivas durante a ditadura.

Quando inaugurou o Kilt, em maio de 1971, aos 26 anos, Tânia pensava apenas em abrir uma lanchonete e conquistar a independência financeira. Entretanto, o talento para levar os homens às súplicas mais agônicas por sexo, e, na sequência, a uma considerável descapitalização, falou mais alto. Seria um desperdício trabalhar em um balcão servindo baurus e milkshakes. Na ocasião, dizia-se que Tânia era “a michê mais cara de São Paulo”. Ela nega: “Conversa fiada! Michê ganha o dinheiro na hora; transa e cobra. Eu, não. Levava duas semanas para transar”. Nessa longa preliminar, a “Pelé da noite” negaceava até sentir que o homem estava a seus pés. Então, pouco antes de entregar-se, ela conseguia trocar o carro, pagar as prestações da casa própria, ganhar presentes caros. “Só de pulseiras escravas, eu tinha umas 30.”

Aos 18 anos, Tânia já havia adquirido seu “primeiro apartamentinho”. Uma quitinete na Rua Santo Antônio, no Bixiga, bairro que na época era frequentado por artistas e intelectuais boêmios. Hoje ela é praticamente uma latifundiária urbana, dona de prédios, casas de aluguel, conjuntos e pontos comerciais, lojas e terrenos. Vive sozinha em um apartamento de cerca de 250 metros quadrados em Higienópolis, bairro na região central de São Paulo que ficou conhecido nacionalmente quando um grupo de moradores ricos usou a expressão “gente diferenciada” para se referir a quem não era dali. “Sou conservadora. Gosto de investir em imóveis”, explica ela.

Mary Stewart
Do começo. Tânia nasceu em Fernandópolis, cidade de 64 mil habitantes a 550 quilômetros de São Paulo, filha única de Antônio Batista, “um jogador de futebol lindíssimo”, e de Aparecida, uma dona de casa. Batizada como Geracy, aos 5 anos ela perdeu o pai para uma apendicite.
A mãe, muito pobre, mudou-se para São Paulo atrás de trabalho. Começou como ajudante de cozinha, depois passou a auxiliar de produção em uma fábrica de tecidos. As duas moravam no porão de um cortiço comandado por uma família grande de italianos, em Vila Bela, perto de Vila Prudente, na Zona Leste da cidade. Foi ali que, aos 9 anos, Geracy teve sua primeira experiência sexual. “Aconteceu comigo algo que hoje em dia chamam de pedofilia e tratam como se fosse doença. Mas eu confesso que gostava daquela história. O rapaz era um vizinho de uns 35 anos que passava o dia em casa. Dizia que estava procurando emprego, enquanto a mulher trabalhava. Ele me tocava, mas nunca chegou à penetração. Na volta da escola, eu já ia para o quarto e abaixava a calcinha.”
Um dia, os dois foram flagrados por um parente do pedófilo e a “história” virou escândalo. A mãe de Geracy prestou queixa na delegacia, a menina foi submetida a um exame de corpo de delito e, em seguida, encaminhada a um orfanato de freiras. Lá, Geracy passou a tocar o terror. Acabou expulsa de três dessas instituições. Ela diz que, apesar do mau comportamento, era excelente aluna de português e geografia. Adorava livros. Por volta dos 14 anos, leu algumas obras do Marquês de Sade, o francês libertino que deu origem ao termo “sadismo”. Dedicou-se também à leitura da história de Mary Stuart, a famigerada rainha da Escócia, o que influenciou a escolha do nome da boate. “Kilt” é uma alusão à tradicional “saia” xadrez que compõe o vestuário masculino escocês. “Mary Stuart é a rainha aprisionada. Ela é emoção, como eu. E Elizabeth, que mandou enclausurar a irmã por 20 anos, é razão.”
Há controvérsias. Para muitos, Tânia está mais para Elizabeth (nessa versão racional da rainha inglesa). “Dinheirista” por vocação, ela administrou o Kilt com rédea curta. “A Tânia nos orientava a servir um pouco menos que a medida da dose de whisky. Se nos pegava dando um chorinho, avisava baixinho que aquele a mais iria para a nossa conta”, lembra Biro, 47 anos, outro gerente da casa.

Por mais estimulante que o dinheiro fosse, Tânia preferia que ele estivesse associado a sexo e poder. “Eu gostava de ser disputada pelos homens”, conta. Aos 22 anos, numa dessas “disputas”, levou três tiros. Seu namorado na época, um traficante que envergava o emblemático apelido de “Nelsinho da 45”, alusão ao calibre da arma, a acertou no dedinho, no braço e no ombro direitos, atravessando-a até a omoplata. Nelsinho pegou cinco anos e um dia de prisão e, pouco tempo depois de sair da cadeia, foi morto por policiais. Geracy tinha acabado de tornar-se Tânia, graças à criatividade de uma colega de trabalho, que por sua vez se autobatizara como Beth.

Peixes graúdos
Hoje, quando conversamos com a empresária bem-sucedida, de voz suave, incapaz de dizer um palavrão, custa-nos acreditar que, quando as coisas davam errado no Kilt, Tânia exclamava impropriedades cabeludíssimas. “Nem queira saber”, diz ela, baixinho.

Atendendo a uma sugestão da própria Tânia, a conversa com a PLAYBOY foi em um bar chamado Jacaré, que nas tardes de sábado é frequentado por motoqueiros cinquentões e gatinhas de meia-idade. Fica na Vila Madalena, bairro da Zona Oeste de São Paulo conhecido por abrigar centenas de bares e produzir noites fervilhantes. Geralmente o público na Vila é composto por jovens de classe média, mas, no Jacaré, bem, ali a praia é mais a de Tânia.
“Essa mulher beija bem pra cacete”, comenta, de passagem para o toalete, o empresário Wallace Roberto Lemos, 55 anos, orgulhoso proprietário de uma Kawasaki Ninja 900. Enquanto solta o galanteio, Wallace olha para o repórter com um ar de macho experiente. Tânia sorri com falso desdém, fechando e abrindo os olhos lentamente, um cacoete que aparece sempre que a elogiam. Ela diz não se lembrar de Wallace – nem muito menos do beijo. Minuciosamente preparada para a ocasião, veste uma saia curta e muito justa num tom escuro, tomara que caia vermelho e bufante, sapatos altíssimos de verniz e bolsa no mesmo tom da blusa com um lenço amarrado na alça.

Na mesa do Jacaré, Tânia conta que, aos 16 anos, fazia striptease para “ganhar uns trocos” entre um programa e outro, mas suas ambições eram muito maiores. Àquela fase dos parceiros que rendiam mais tiros do que dividendos se seguiu um upgrade profissional. Passou a atender peixes mais graúdos, como o ex-presidente João Goulart e o empresário Alberto Alves Filho, controlador do Mappin. Teve também um caso duradouro com o apresentador de TV Jacinto Figueira Júnior, mais conhecido como “O Homem do Sapato Branco”, que também era o nome de seu programa. Espécie de Ratinho dos anos 1960, Figueira Júnior se orgulhava de ter criado a expressão “mundo cão”, e seu jornalístico de tom policial, que foi ao ar pela TV Globo entre 1966 e 1968, dava picos de audiência de até 80 pontos. Valendo-se da imensa popularidade, candidatou-se a deputado federal pelo MDB de São Paulo e ganhou com votação recorde em 1967. Empolgadíssima, Tânia já pensava no amante como presidente da República e passou a preparar-se para ser primeira-dama. Matriculou-se no curso madureza para concluir o colegial e na Cultura Inglesa; ingressou também no Movimento Lareira, entidade cristã que preparava moças virgens para o casamento e fazia acompanhamento de casais.

O delírio durou pouco. Figueira Júnior foi cassado pelo AI-5 em 1968, sua carreira na TV começou a declinar, e o interesse de Tânia pelo Homem do Sapato Branco se volatilizou. Até porque, então, ela já tinha dinheiro para abrir a “lanchonete”. O que precisava era de mão de obra. Que apareceu na figura do estudante de direito Eden Hiura, praticante de judô e caratê e exímio “quebrador de caras” de quem o desafiasse na rua. Em determinada noite, “Shiró”, como era conhecido, defendeu Tânia em uma briga na boate, e ela mandou chamá-lo para um encontro. “Fui eu que achei o ponto do Kilt. Era uma garagem de 50 metros quadrados, que a gente reformou. Cavei parede ali com as minhas próprias mãos”, lembra Shiró, hoje com 69 anos. Descendente de japoneses e italianos, ele conta que “não tinha dinheiro nenhum, não entendia nada de noite, era ingênuo, só gostava de brigar”. Tânia, por sua vez, trabalhava muito, e não lhe sobrava tempo para ficar na boate. “Então ela me colocou para tomar conta. Eu era bonitão, atraía as moças.” Com o tempo, os dois passaram a viver juntos e – surpresa! – Tânia engravidou.

Quando o repórter pergunta por quê, àquela altura de seus 30 anos, depois de passar pela cama de gente tão mais poderosa, Tânia resolveu ficar grávida de seu segurança e caixa (como ela o define), a resposta vem no tom mais leviano imaginável: “Ele era útil para mim”.

Quatro dias depois de nascer,  Cristina foi entregue à avó, dona Aparecida. Testemunha de Jeová e muito zelosa, ela cuidou de Cristina, hoje com 38 anos, como um bibelô, preservando-a de tudo – inclusive do convívio com o pai. Separada de Shiró, Tânia conseguiu impedi-lo judicialmente de se aproximar da menina depois que ele “a sequestrou”, com 1 ano de idade. “Eu apenas a levei para a casa de minha irmã. Queria ficar com ela uns dias”, conta ele, que em 1982 se casou com outra mulher.

Apesar dos mimos da avó, Cristina tornou-se punk na adolescência e deu muito trabalho na escola. Um belo dia, os coleguinhas descobriram a profissão de sua mãe, e isso teria sido devastador se a garota fosse uma patricinha. Como, ao contrário, era rebelde, a nova informação só serviu para afugentar ainda mais os malvadinhos. No meio do colegial, feito a duras penas, Tânia enviou a filha para concluir o curso em Nova York. Cristina estudou cinema na escola Parsons ao mesmo tempo que trabalhava como hostess de clubes noturnos e DJ. Era vizinha do roqueiro Supla, que dedicou a ela a música Japa Girl.

Sem sacrifícios
O Jacaré está lotado, e Tânia pede ao garçom que arrume um lugar do lado de fora para que possa fumar um cigarro, seu único vício. Diz que experimentou “de tudo” na adolescência, especialmente quando namorava Nelsinho da 45. “O pior é que gostei de tudo; por isso mesmo me mantive muito afastada das drogas.” Instalada em uma mesa na calçada, ela seduz os motociclistas com a linguagem corporal que tem dado certo há mais de 40 anos: inclina a cabeça, entreabre ligeiramente os lábios, aperta os olhos. Ela não se conforma com a falta de modos das frequentadoras do Jacaré. “Essas moças não são prostitutas, eu sei identificar. No entanto, saem daqui e transam com um homem que nem conhecem direito.”

Em um momento revelação, ela afirma que, apesar da expertise em sedução, nunca foi “boa de cama”. Pelo que se depreende de seus relatos, aliás, o sucesso de uma garota de programa depende de sua capacidade de não transar. “Os homens imaginam que eu faço de tudo na cama, mas não vou muito além do papai e mamãe. Não sou de sacrifícios.”

O problema de audição, adquirido em anos de som alto na boate, não a impede de escutar o comentário de outro motociclista que se aproxima da mesa. “Beijei muito essa mão [a dele] depois de bater punheta pensando na Tânia. Eu já transei com várias garotas do Kilt, mas sempre quis ela. E ainda não desisti”, diz o engenheiro Edgard Bala, de 55 anos. Não deixa de ser lisonjeiro para uma mulher de 68 anos ouvir que serviu de inspiração para as fantasias sexuais de um garoto de 55.

Em 2004, depois da morte de dona Aparecida, Tânia sentiu pela primeira vez que não fazia mais sentido arrumar-se toda para passar a noite entre clientes e garotas de programa. Em seis meses, vendeu a boate aos irmãos Fernando e Rafael Singer, de São Bernardo do Campo (SP). Agora tudo se aproxima do fim: o Kilt foi desapropriado (os novos donos não querem comentar). “Eles vão derrubar o prédio e fazer uma praça com jardim bem na saída do Teatro Cultura Artística. Ou seja, favorecer uma fundação particular com o dinheiro público”, queixa-se Tânia. Em 2008, um incêndio destruiu o teatro, que é vizinho de porta e desde então passa por reforma. Um ano depois, a prefeitura iniciou obras de revitalização do Centro de São Paulo. A assessoria da prefeitura afirma que o projeto Polo Roosevelt prevê um “rearranjo da geometria” na região do terreno do Kilt, o que possibilitará o acesso a um estacionamento pela Rua Augusta. “Isso favorece não só os usuários do Cultura Artística, mas também os do centro gastronômico da Rua Avanhandava e de todo aquele entorno”, afirma a assessoria.

Aos 50 metros quadrados do início, Tânia agregou ao Kilt quase 500. A boate ela vendeu, mas o terreno ainda é seu. Tânia não diz em quanto a prefeitura a indenizará. A Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp) afirma que, ali, o preço do metro quadrado gira em torno dos 4 000 reais (terreno mais imóvel). Segundo o diretor da entidade, Luiz Paulo Pompeia, a conta deve incluir também o preço de um nome que virou referência em São Paulo. “A boate é uma instituição na cidade. Se o prédio for para outro lugar, vai carregar a marca. Mesmo quando o derrubarem, ainda vai se dizer: ‘Ali, onde era o Kilt’.” Parece justo. Até fazer da boate uma referência, Tânia enfrentou todo tipo de estresse. Sobreviveu aos tempos difíceis da aids, quando os clientes, apavorados, debandaram, e foi presa e indiciada quatro vezes por facilitação de lenocínio. Um delegado chamado Sebastião Lopes, que lavrava boletins de ocorrência em latim, a perseguia ferozmente. “Quando ele chegava na porta, dizia: ‘Eu quero a Geracy, a Tânia!’ Eu saía pelos fundos. Não tinha descanso. E trabalhava de saltos altíssimos. Depois de tantos anos, tive de operar os dois pés.”

Aposentada do Kilt, mas não da vida, Tânia acaba de se submeter a uma cirurgia plástica que levou 6 horas e “arrumou” seu rosto, seu pescoço, os braços, a cintura, os culotes e o bumbum. Vaidosíssima, curte sair sozinha, adora dançar e costuma ir aos bailes de clubes populares, como o Juventus, na Mooca, e o Atlético, no Ipiranga. Em um deles, recentemente, dançando com um taxista cuja camisa aberta deixava à mostra um correntão de metal, ela ouviu um segredo: “Você sabia que algumas dessas mulheres mais velhas pagam para a gente transar com elas?” “É mesmo?”, perguntou Tânia. “Não diga!” E saiu discretamente do salão.

Matéria publicada na Revista PLAYBOY de agosto de 2012.