Gênesis O Projeto Emoções já vai completar oito anos. Todos os verões o Rei Roberto Carlos lota um transatlântico de fãs e sai por aí navegando. No meio do passeio, é claro, tem um show exclusivo do RC para os navegantes. Mas dessa vez Roberto foi longe demais! Enjoado de singrar os mares a bordo de transatlânticos em cruzeiros mundanos numa sequência de jantares, boates, jogatinas e outras diversões profanas, Roberto reuniu uma horda de fiéis seguidores brasileiros e embicou na direção da Terra Santa. É isso aí, bicho! Roberto Carlos resolveu transformar o seu Projeto Emoções numa peregrinação a Jerusalém, uma experiência mística em plena Semana da Pátria, com direito a show apoteótico no 7 de Setembro. E eu fui junto.

Êxodo É óbvio que ninguém foi de navio dessa vez. Afinal, do Brasil até Israel de barco seriam dias e dias de viagem. Roberto Carlos e seus peregrinos tiveram de enfrentar mais de 15 horas no voo direto da companhia israelense El Al ou, como foi o meu caso, mais de 24 horas com conexão de 6 horas em Madri até chegar ao destino. O aeroporto Ben Gurion, em Telaviv, é enorme e moderníssimo e, mesmo sem ter nenhum jogo previsto na Copa de 2014, já está pronto e funciona que é uma beleza! O único problema foi explicar para as autoridades que eu estava lá para assistir a um show do Roberto Carlos. Em Israel ninguém sabia quem era Roberto Carlos… E foi assim que, tal e qual os cruzados da Idade Média, um bando de brasileiros invadiu a Terra Santa com uma fúria jamais vista. Nem o pessoal do Hamas, do Al Fatah ou da Al Qaeda ousou tanto.

Na incontrolável onda comprista dos brazucas, não sobrou pedra sobre pedra das Muralhas de Jericó nem dos shoppings israelenses. Enquanto isso, o Rei Roberto Carlos era recebido pelo primeiro-ministro Shimon Perez em pessoa, quando, para espanto do estadista, cantou Emoções à capela – aliás, coisa muito apropriada quando se está na Terra Santa. Em seguida convidaram o astro para uma caminhada pelas águas do Mar da Galileia, mas Roberto disse que não podia pois havia esquecido de trazer o calção. Até ali os israelenses, que não estavam entendendo nada, passaram a entender menos ainda. Por que o Rei não queria se banhar no mar? Mais um mistério para a misteriosa Jerusalém.

Números Para começar, vamos logo esclarecer que não fui convidado. Nada de boca livre ou zero-oitocentos. Como um pacato cidadão qualquer, liguei para a agência de viagens e comprei o meu pacote “Roberto Carlos em Jerusalém” pela módica quantia de 5 200 dólares, pagos em 12 vezes sem juros no cartão. Havia cinco tipos de pacote à disposição dos fíéis: Classic, Premium, Emoções, Emoções Gold e Emoções Platinum. Os preços variavam de 3 400 dólares por pessoa, o mais barato, a 14 200 dólares, o mais caro. Por incrível que pareça, o pacote mais caro foi o que se esgotou primeiro. Mas o que me interessava de verdade era entender como e por que mais de 1 500 brasileiros se abalaram até o Oriente Médio para escutar seu ídolo cantar. Quem são? O que pensam? O que fazem? Onde moram? Será que são essas as pessoas que realmente sabem qual é o verdadeiro sentido da vida?

Levítico Na excursão as mulheres são a grande maioria, quase todas na faixa de idade do Rei Roberto Carlos, ou seja, ali pelos 70 do segundo tempo. Algumas separadas, outras casadas com aquele tipo de marido que gosta de praticar o esporte olímpico de Arremesso de Esposa a Distância. Ou seja, quanto mais longe a patroa for, melhor – desde que ele, o marido, não tenha de ir junto. Quase todas já fizeram (além de algumas plásticas) pelo menos um cruzeiro marítimo do Projeto Emoções e não perdem nenhuma apresentação do Rei, seja onde for. São fanáticas pelo Roberto. São pessoas com dinheiro. E pelo visto gastam fortunas com perfumes, joias e maquiagem. Na sua maioria elas vêm do interior do Brasil e adoram viajar no esquema de excursão do tipo CVC, na qual quem for discreto acaba aparecendo mais do que todo mundo. Sem preconceito, por favor.

Além do forte cheiro de vários perfumes misturados, o colorido dos vestidos de grife e o brilho das joias ofuscam tanto a vista que eu colocava óculos escuros até na hora do jantar. Jantar em que seios murchos escapavam dos decotes profundos para boiar no prato de sopa morna. O tempo é cruel, sobretudo com as mulheres.

Pelo meu pacote eu deveria ficar no Hotel Citadel, no King David, no Mamila ou similar. Como estava tudo lotado, me colocaram no Similar. O hotel enorme, centenas de quartos, estava cheio até a tampa. Cedo pela manhã eu entrava no restaurante cantarolando “Amanhã de manhã, vou pedir um café para nós 1 500…”, enquanto usava meus conhecimentos rudimentares de caratê e capoeira para conseguir chegar até o bufê. O hotel tinha tudo: sauna, massagem, piscina… Mas, na tentativa de chegar a algum lugar, eu acabava sempre me perdendo. E, perdido no meio daqueles corredores só de sunga, chinelo e toalha, ficava apavorado com a possibilidade de ser sequestrado por uma fã carente do Roberto Carlos.

O grupo é alegre e animado, e, claro, sempre tem a gordinha mais descontraída de Jundiaí que se autoproclama líder do grupo. No ônibus da excursão a gordinha senta no banco da frente, ao lado do guia, e tem opinião sobre tudo e, sobretudo, sobre todos. Seu esporte preferido é comandar a macacada no entra e sai do ônibus durante as visitas aos lugares santos. Todos os dias percorremos um monte de igrejas, santuários, abadias, mosteiros e outros pontos de interesse religioso.

Acordávamos cedo para aquela maratona de fé, e toca visitar o Monte das Oliveiras, o Santo Sepulcro, Cafarnaum, Mar Morto, Belém, Mar da Galileia e o que mais estiver no roteiro dos textos bíblicos. Os guias, judeus brasileiros que vivem em Israel, são de ótimo nível e dão explicações detalhadas e interessantes sobre cada lugar visitado. Mas o que irrita as senhorinhas que me acompanham é que nossos guias se recusam a parar nas lojinhas onde se podem comprar autênticos suvenires da Terra Santa – todos made in China: crucifixos, rosários de tudo que é tamanho, Santas Ceias, estátuas de santos e retratos do papa. Enfim, tudo para você equipar o seu sacrário particular. O mais incrível é que, naquela correria, sem parada para compras, as senhoras, não sei como, apareciam com um monte de sacolas se gabando dos descontos que haviam conseguido.

Eclesiastes Cômicas, para não dizer patéticas, são as visitas aos lugares sagrados da cristandade. Cada um é controlado com mão de ferro, seja por uma das vertentes das igrejas cristãs (ortodoxa grega, ortodoxa russa, copta etc.) ou por grandes ordens religiosas católicas responsáveis por sua guarda. Uma multidão de fiéis se acotovela para visitar o local do nascimento de Cristo ou o Gólgota, onde ele foi crucificado.

Em Belém, no lugar em que Cristo nasceu, alguns russos tentam furar a fila. O ambiente fica tenso e, por vezes, quase selvagem. Os padres tentam colocar alguma ordem no tumulto. Em vão. Quando o crente finalmente fica em frente ao lugar sagrado e se ajoelha para uma oração, imediatamente um monge se aproxima e enxota o peregrino, já que centenas de fiéis aguardam impacientes por aquele segundo de reflexão. Enfim, a fila anda. Esperando as minhas coleguinhas de excursão, sentei num banco da Igreja do Santo Sepulcro para meditar, e qual não foi a minha surpresa ao passar a mão debaixo do assento e encontrar, pregado, um prosaico chiclete usado.

Por último percorremos a Via Dolorosa, logradouro cujo nome (quanta maldade!) me remete direto a uma parte remota da anatomia humana. Não tem jeito, vou para o inferno mesmo…

A Via Dolorosa, na parte velha da cidade, atravessa o antigo mercado de Jerusalém, um dos mais velhos Ceasas do mundo. Tem lojinha de tudo que se pode imaginar. Logo no começo do logradouro tem um cara que aluga cruzes. Foi isso mesmo que vocês leram! Pode-se alugar uma cruz de madeira para fazer o mesmo percurso que Jesus fez 2 mil anos atrás. As cruzes não são tão pesadas quando a original, mas fazem uma presença. Acho que, por mais algum qualquer, no fim do trajeto o sujeito prega o turista no pau, mas não garante a ressurreição no terceiro dia.

Ao longo do caminho, o peregrino é assediado por comerciantes árabes que oferecem quibes, esfihas e doces apetitosos, enquanto as nossas narinas são invadidas pelos cheiros de diversos temperos do milenar Carrefour.

Crônicas A nossa visita à Terra Santa prossegue, faça sol ou faça sol. O clima é desértico e, apesar de a Terra ser Santa, o calor é infernal. Antes de partir mandei fazer um sudário azul cerúleo e levei também um cajado de pastor que comprei na Grécia numa viagem anterior. A Grécia está na maior crise, e por isso está tudo muito barato lá. Pelo preço que paguei pelo meu cajado três anos atrás hoje eu compro o Parthenon e ainda sobra para comer a Palas Atena.

Eu me vesti desse jeito para poder passar despercebido no meio daquele povo da Judeia. Fiquei lindo. Trajando aquela indumentária típica, aproveitei para repetir alguns milagres tão comuns nessa região.

Tentei caminhar no Mar da Galileia, tentei abrir as águas do Mar Vermelho, ressuscitar o Lázaro, transformar água em vinho, multiplicar os peixes, mas foi tudo em vão. Fracassei em todos. Milagres são coisas dos tempos bíblicos, tempos que não voltam mais.

Estive no Muro da Lamentações, o muro foi o que restou do Grande Templo que os romanos destruíram no ano 70 da Era Cristã. Como manda a tradição, tratei de enfiar numa fresta um bilhetinho com um pedido ao Criador. No meu papelzinho pedi ao Todo-Poderoso que acabasse com a corrupção no Brasil. Não houve jeito de encaixar o meu recado num cantinho do monumento milenar. O meu pedido não entrava de jeito nenhum. Interpretei o fato como uma recusa divina em virtude da incapacidade do Altíssimo de realizar milagre de tamanha envergadura.

Numa pausa para relaxamento, visitei o Mar Morto, que é uma espécie de Praia Grande de Santos. Só que a água do mar é tão insuportavelmente salgada que não se pode mergulhar. Vários turistas russos e alemães comiam galinha assada – todos enlameados do lodo que, dizem, tem o poder de curar várias moléstias. Como um bom turista, boiei besuntado de lama no Mar Morto. Enquanto boiava à deriva no mar defunto, fiquei pensando se o Mar Morto não teria sido vítima do conflito árabe-israelense. Nesse caso, quem teria sido o responsável pelo assassinato do mar que separa Israel da Jordânia?

Carta ao Corinthians Outro ponto de interesse na Terra Santa é o Rio Jordão, lugar onde Cristo foi batizado. O local parece uma dessas paradas de ônibus tão comuns nas estradas brasileiras. Ao lado da lanchonete, uma loja de suvenires onde só falta vender o famoso lápis de Itu. Mas, em compensação, se pode comprar 1 litro da água sagrada do Rio Jordão. É muito importante que a procedência do precioso líquido seja legítima, pois, se a água do Rio Jordão for falsificada no Paraguai, a ressaca no dia seguinte é garantida.

Ainda na parada do Jordão, o peregrino pode alugar uma bata branca e, com um calção por baixo, mergulhar nas águas e repetir o sacramento do batismo. O problema é que o Jordão é cheio de lontras (que mais parecem ratazanas) nadando para lá e para cá, o que torna o mergulho pouco convidativo. Foi o que constatei ao observar um enorme russo que, por força, resolveu batizar seu filho, de mais ou menos 5 anos, nas águas sagradas. O menino berrava e chorava, apavorado, mas não teve jeito. Debaixo de cascudos e cachações, levou um caldo naquelas águas turvas pelo pai casca-grossa, mas muito pio e religioso.

Cântico dos Cânticos Finalmente chegou o esperado dia do show do Roberto Carlos. Desde cedo uma horda de brasileiros fazia fila na porta de entrada, todos em trajes de gala. Um luxo! O clima era de expectativa eletrizante. Os ingressos se esgotaram num instante, e quem quisesse ir ao show teria de comprar um tíquete nas mãos dos cambistas fariseus que cobravam 30 dinheiros por um lugar na plateia. Um roubo! O local escolhido para o espetáculo foi a Piscina do Sultão, tradicional casa de shows a céu aberto com capacidade para 5 mil pessoas. Fazia um pôr do sol magnífico, sem a menor possibilidade de chuva, e a temperatura estava bem agradável. Deus conspirava para o sucesso do show.

A plateia estava lotada de celebridades deste e do outro mundo: profetas, patriarcas, anjos, arcanjos, serafins, querubins etc. Até o Matusalém se fez presente, pois o velho Matusa é fã do Roberto desde os tempos da Jovem Guarda. Também vi a Regina Casé, o Tom Cavalcante e o Zé Victor Oliva, que ocupavam um camarote animado. Só faltavam o Cid Moreira recitando “seus” Salmos e o papa Bento 16, que já tinha outro compromisso naquele dia.

No enorme telão, o prefeito de Jerusalém lê uma mensagem aos brasileiros gravada na qual pede para todos desligarem os celulares, explica onde ficam as saídas de emergência e pede para ninguém jogar papel no chão. As luzes se apagam, e Glória Maria entra para fazer a MC, abrindo alas para o Rei Roberto Carlos.

Poucos sacaram esse detalhe: o show começou com o canto do muezim, o religioso muçulmano que, do alto do minarete (aquela torre enorme que tem nas mesquitas), convoca os fiéis à oração. Feito isso, entra o Rei. A chapinha do Roberto estava melhor que a da Glória Maria.

Como sempre, o show é impecável, dessa vez dirigido por Jayme Monjardim das Oliveiras, o nome mais adequado para comandar um evento nestas paragens. O cenário é muito bem sacado, com uma reprodução da Jerusalém bíblica que se integra às verdadeiras muralhas históricas da cidade. A plateia vai ao delírio no desfile de sucessos do ídolo, que, naturalmente, abre o espetáculo com Emoções.

Cerca de 30 mil judeus brasileiros vivem em Israel, e a turma, saudosa, acompanhava em coro todos os hits do RC. Nunca se viu tanto brasileiro junto em Jerusalém. Nem Jerusalém escutou tantos judeus juntos cantando em êxtase o mantra “Jesus Cristo, eu estou aqui!”

RC dançou cheek to cheek com a Glória Maria, jogou rosas para as fãs e se mandou para o camarim. Fiquei de papo com meus novos amigos brazucas-israelenses e perguntei por que tinham resolvido sair do Brasil. A maioria disse que era por causa da violência. Quer dizer, os caras se sentem mais seguros em Israel, um país cercado de inimigos por todos os lados, à mercê de terroristas e homens-bomba, do que na esquina. É, pode ser…

Apocalipse Depois do show, um povo escolhido foi convidado a participar de um coquetel exclusivíssimo em que a presença de RC era esperada. Reconhecido pelos organizadores, fui convidado para o convescote, no qual pude conviver com a upper class brasileira que compareceu à efeméride. Centenas de milionários do interior do Brasil e várias subcelebridades (eu, inclusive) aguardavam ansiosos, entre um quibe e uma caipirinha, a chegada triunfal do Rei. Uma turma de ricaços maranhenses se aproximou da minha pessoa pedindo para tirar retrato. Todos usavam o bigode à la Sarney, inclusive as mulheres. Acho que deve ser obrigatório no Maranhão. Um deles se apresentou como deputado federal, mas se “esqueceu” de me dizer o nome quando se deu conta de que era quarta-feira e estávamos a 12 mil quilômetros do Congresso Nacional.

Vestidos de baile, tuxedos elegantes, joias e sorrisos desfilavam pelo salão. Infelizmente, e como era de esperar, lá pelas 2 da madrugada avisaram que o Rei faria forfait, rebarbando o coquetel. Decepcionado, embarquei na van na direção da minha cama. Voltei para o hotel e imaginei qual será a próxima parada do Projeto Emoções. Fátima, em Portugal? Lourdes, na França? Ou, mais barato, Aparecida do Norte? Conclusão: foi legal? Foi. Foi divertido? Foi. E, afinal de contas, teve uma coisa muito boa: pelo menos dessa vez o Luciano Huck não foi.