Pergunte a um sapateiro o que ele pensa sobre calçados produzidos em grande escala e a resposta será uma desdenhosa careta, seguida de uma observação irônica. “Hoje a maioria das pessoas preza mais a marca do que a qualidade.” Isso é o que diz Renzo Nalon, 75 anos, dono da Calçados Pelegrini, um dos últimos sapateiros em atividade no Brasil. Como ele, Mario da Costa Carneiro, 82 anos, da Busso Sapatos, fia-se nos padrões de qualidade aprendidos com os ancestrais para resistir à concorrência feroz das máquinas. “Um bom sapato é resultado de um trabalho minucioso e da combinação de material nobre e acabamento primoroso”, diz Mário.

Com remanescentes de uma família de italianos que veio para o Brasil no início do século 20, a Busso Sapatos produz cerca de 100 pares por mês. Todos feitos a mão. Nos ateliês da Pelegrini e da Busso, em São Paulo, os modelos são feitos de acordo com o desejo e a necessidade do cliente. O couro é importado da Alemanha e da França, regiões que produzem os melhores cromos do mundo para a fabricação de sapatos. Segundo eles, são os mesmos utilizados por grifes como Ermenegildo Zegna e Louis Vuitton. A marca francesa, aliás, acaba de inaugurar um serviço de personalização de sapatos. Cada cromo, como são chamadas as peças de couro importadas, custa até 2 000 reais e rende quatro pares de sapatos. Daí os altos valores que os modelos feitos por encomenda podem alcançar. Os preços, que variam entre 1 500 e 4 000 reais, são semelhantes aos praticados pelas etiquetas internacionais de luxo. Com a diferença, porém, de que sapatos encontrados em lojas, mesmo que prestigiadas, são fabricados em série, e não sob medida.

Nos ateliês especializados, cada par é feito exatamente de acordo com a largura, a espessura e a altura dos pés. É possível ajustar a ponteira, alargar o frontão (que é a parte do calcanhar), acomodar melhor joanetes e até disfarçar baixa estatura com a ajuda de plataformas embutidas.

Design exclusivo
Também existe a opção de criar modelos com um design só seu. O estilista e ex-deputado federal Clodovil Hernandes, morto em 2009, costumava desenhar os próprios sapatos. Era dono de uma coleção de 54 pares feitos pela Busso exclusivamente para ele – um desses pares foi arrematado por 300 reais no leilão de seus bens, realizado em abril. Os moldes dos mocassins de que mais gostava decoram um balcão do ateliê.

Já na Pelegrini, as preferências dos clientes são anotadas em cadernos numerados feitos por Renzo e guardados como tesouro desde que ele chegou à fábrica, em 1952. Na página 15 do livro 28, por exemplo, está registrado o primeiro pedido feito pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. “Foi um monk, um tipo de sapato com fivela, que é fácil de vestir. É o modelo preferido dele”, conta. FHC esteve no ateliê da Pelegrini apenas uma vez. “A rua parou”, diz Renzo. Desde então é o sapateiro quem vai até a casa do ilustre cliente. Nesse tipo de negócio, o atendimento em domicílio é corriqueiro. “Quem procura por um serviço exclusivo e paga alto por ele precisa gozar de certos privilégios.” Uma vez tiradas as medidas, também não se torna necessário um novo encontro. Basta um telefonema ou um e-mail com os detalhes do modelo desejado para que o sapato seja confeccionado com perfeição. Os prazos para entrega variam entre três e quatro semanas, dependendo do tipo de calçado.

Viagem ao passado
Visitas a uma clássica oficina de criação são como uma viagem ao passado. Fotos, cartazes, cartões de encomendas e sapatos antigos organizados em prateleiras e paredes contam a história do lugar.

A Pelegrini foi fundada em 1902 pelo italiano Vicenzo Pelegrini. Logo na entrada, um lambe-lambe P&B chama atenção. Trata-se da foto do Pacarde, oxford com solado de borracha criado em 1930 por Alberto Pelegrini, filho de Vicenzo. Premiado como Design do Ano em 1979, o Pacarde não é mais fabricado, mas enche Renzo de orgulho. Ele ainda guarda uma versão de couro branco que foi usada por toda a família, um hábito da época. Tito Nalon, pai de Renzo, tornou-se sócio da Pelegrini em 1938, depois de se casar com a irmã de Vicenzo.

Tito era um sapateiro-mestre, aquele profissional que sabe confeccionar um sapato por inteiro (ofício raro no Brasil atualmente). Entre os anos 1960 e 1970, a Pelegrini chegou a ter três lojas em São Paulo, mais de 100 funcionários e produção média diária de 90 exemplares. Hoje são produzidos em média oito pares por semana, e a equipe é de apenas cinco pessoas. Cada um dos sapateiros é responsável por uma etapa do feitio: molde, montagem, costura, pesponto e acabamento. Renzo é o encarregado pelo corte do couro, além do atendimento aos clientes e do gerenciamento do negócio.
Na Busso, não é diferente. Mario também desenha os moldes, corta o couro e dá o aval sobre o produto final. “Reconheço de longe quando há algum problema na montagem. Sola mal costurada e pespontos desalinhados acabam com o sapato”, diz. Nascido em Portugal, ele veio para o Brasil aos 21 anos a mando do pai, também sapateiro. “Papai achava que aqui eu teria uma vida com mais oportunidades”, conta. Acabou abrindo a sapataria Carneiro, no Centro de São Paulo. Até que recebeu um convite de Gino Busso, fundador da Busso, fechou as portas e assumiu a gerência das lojas da marca. A Busso começou como uma fábrica de sapatos femininos, em 1915. As versões masculinas vieram na década de 1950, pouco antes de Mario assumir a direção. Na época, a produção chegava a 400 pares por mês – atualmente o número gira em torno de 50. O presidente Jânio Quadros e o senador Antonio Carlos Magalhães eram clientes. Fabrizio Fasano, patriarca da família que virou sinônimo de alta gastronomia em São Paulo, também está na lista.

O negócio dos sapatos feitos sob medida começou a desacelerar a partir da década de 1960, com a criação do polo calçadista de Franca, no interior de São Paulo. A popularização dos tênis também ajudou a enfraquecer a procura, já que o visual de terno e gravata deixou de ser a única fórmula considerada elegante. As roupas casuais – jeans, camisa e tênis – passaram a ser aceitas e bem-vistas. Sapateiros fecharam as portas, e a Pelegrini chegou a pedir concordata. “Graças a um terreno que papai tinha no interior, conseguimos salvar a fábrica”, conta Renzo.

Apesar da estrutura menor, as duas casas permanecem produzindo sapatos como manda a tradição. Atraem apaixonados, pessoas que apreciam o que é especial e que não se importam em desembolsar alta quantia por um único par. Pelo contrário: sabem que a possibilidade de pagar por um modelo exclusivo e sob medida é um luxo. Para poucos.

Calçados Pelegrini Rua Anhanguera, 447, Barra Funda, São Paulo, tel. (11) 3666-9563.
Busso Calçados  Rua Major Sertório, 452, Consolação, São Paulo, tel. (11) 3256-9435.

Matéria publicada na Revista PLAYBOY de agosto de 2012.