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Ascensão e ascensão de Los Hermanos
Como a banda carioca conseguiu se livrar do hit Anna Júlia, brigou com a gravadora e desapareceu para ressurgir ainda maior |
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Da esquerda para a direita: Bruno Medina, Rodrigo Barba, Rodrigo Amarante e Marcelo Camelo |
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Por Thales de Menezes
Já passava da 0h45 de um domingo de março quando 3 mil jovens roucos e esbaforidos deixaram o DirecTV Music Hall e começaram a se refrescar na chuva fina da madrugada paulistana. Haviam passado as duas horas anteriores em catarse coletiva cantando juntos, uma a uma, todas as músicas tocadas pelo quarteto carioca Los Hermanos. Só quem assistiu a pelo menos uma apresentação da banda nos últimos meses tem idéia do que eles representam hoje. Em qualquer show, seja de dupla sertaneja, seja dos Rolling Stones, há momentos de resposta mais intensa da platéia, músicas que realmente levantam a galera. No caso de Los Hermanos, é como ver os Stones tocando Satisfaction por duas horas seguidas. As músicas, todas mesmo, são cantadas pela moçada, que dança, pula e berra com os rostos transfigurados de felicidade. Nenhuma delas é Anna Júlia, o hit chiclete que tornou a banda conhecida em todo o Brasil há cinco anos. Na galera que procura o rumo de casa, há gente da rua vizinha à casa de shows, do bairro do Tatuapé, no outro lado da cidade, de Ribeirão Preto, no interior do estado, e até de Palmas, no Tocantins. O fenômeno Los Hermanos é nacional.
Na cena musical brasileira, não há banda que desperte devoção semelhante (e que se dê ao luxo de fazer shows sem sua música mais famosa). O surpreendente é que, no mundo pop, que quase nunca permite outra chance a quem sai de moda, é a segunda vez que o Los Hermanos chega ao topo. O grupo estourou com o primeiro CD, despencou, sumiu e ressurge como grande nome do rock brasileiro em 2004. O tempo deles está tomado por shows que parecem a turnê consagradora de uma banda veterana. E, cá para nós, de veteranos os Hermanos não têm nada. O mais velho deles é o cantor e guitarrista Marcelo Camelo, que tem 25 anos. Ele e Rodrigo Amarante (voz e guitarra), Rodrigo Barba (bateria) e Bruno Medina (teclados) escondem as caras de moleque atrás das barbas, que, sem querer, viraram marca registrada da banda e modelo seguido por uma legião de fãs.
A primeira história de sucesso começou em 1999. Contratada pela Abril Music depois de dois anos tocando em bares no Rio, a banda estourou com Anna Júlia, balada acelerada sobre o cara que não se recupera após perder a garota. O CD chegou a 300 mil cópias vendidas e o refrão pegajoso passou a ser entoado no rádio, na TV, nos clubes de forró, nos trios elétricos (foi a música mais tocada na Bahia no Carnaval de 2000) e até num estúdio londrino. O cantor Jim Capaldi, que morou no Rio, incluiu uma versão da música em seu CD mais recente e a gravação contou com o Beatle George Harrison, em sua última incursão aos estúdios antes de morrer. Do primeiro show, em 1997, num lugar pequeno em Ipanema, até chegar a um dos Beatles, foi tudo rápido.
BRUNO Teve um dia que a gente tocou no pior horário possível: às 5 horas da manhã, no Teleton [maratona televisiva para ajudar crianças deficientes]. Apenas duas semanas depois a gente estava na Xuxa. Foi muito rápido, do momento de querer qualquer espaço na televisão, que acontece com banda iniciante, à hora de estar na Xuxa pro país todo ver. E veio Faustão, Raul Gil... A gente não teve tempo de se preparar para isso. MARCELO Tudo era novidade pra gente. O cara dizia "Olha, se vocês rejeitarem convite do Raul Gil, a carreira vai pro brejo". A gente, muito novo, se deixava levar.
A superexposição deixou o Los Hermanos conhecido no país inteiro, mas foi responsável pelo afastamento de um público fiel do início da carreira. Era como se a banda tivesse traído seu público original. Apesar do sucesso de Anna Júlia, eles não ficaram satisfeitos com o disco de estréia.
MARCELO O produtor foi um cara indicado pela gravadora. RODRIGO Quando você assina o primeiro contrato, tem uma série de circunstâncias perigosas. A pior delas é você ter 19 anos, sem dinheiro no bolso. A gente não usou os nossos instrumentos, não serviam. Hoje a gente ouve o CD e o som não agrada. MARCELO O momento de ruptura veio quando a gente ia lançar o Bloco e resolveu fazer do jeito que a gente queria.
O "bloco" de que Marcelo fala é O Bloco do Eu Sozinho, segundo CD da banda. Desgostosos com o resultado do primeiro disco, eles tomaram uma decisão radical. Alugaram um sítio na serra fluminense e lá ficaram dois meses. Depois, de volta ao Rio, trabalharam mais dois meses no estúdio do produtor Chico Neves. Cientes de que seria uma surpresa para quem esperava outra Anna Júlia, eles esconderam o material. Só depois do CD pronto é que a cópia foi enviada aos executivos da gravadora. O reação foi terrível.
MARCELO A gente mandou o disco e os caras disseram, textualmente, que os arranjos eram entrecortados, caóticos... RODRIGO E de fato são. MARCELO É. Disseram que a gente não sabia fazer roteiro de música, que não sabíamos onde o refrão tinha de entrar... RODRIGO Concordo com eles. BARBA Eles estavam certos! [risos] RODRIGO É, no fim, tudo é ponto de vista. Tem muita gente que acha o nosso som uma bosta mesmo. Essa pessoa não está errada, é a opinião dela. MARCELO Eles disseram que a gente tinha de gravar outro repertório, com outro produtor e outros arranjos. RODRIGO Eles queriam outra banda. MARCELO Foi um momento de muito medo, porque a gente estava mal no mercado. Éramos uma banda que tinha um êxito espremido por eles até o bagaço, estávamos com a imagem totalmente desgastada...
O medo era concreto. É prática no mercado fonográfico colocar na geladeira os trabalhos em que a gravadora não enxergue potencial comercial. Se isso acontecesse, seria o fim. O Los Hermanos tinha contrato para três CDs e não fazia shows há seis meses. O dinheiro parara de entrar. As discussões com a gravadora eram estéreis. Segundo eles, só faltou mesmo um atracamento físico. Pela sobrevivência, o quarteto teve de dar um passo atrás. Aceitaram remixar o disco com outro produtor, uma espécie de interventor da gravadora que acompanharia todo o trabalho no estúdio.
Por incrível que pareça, nessa hora a sorte começou a virar. O novo produtor gostou do disco e mudou de lado. A nova mixagem ficou muito próxima à do disco original. O Bloco do Eu Sozinho foi lançado sem divulgação. A banda foi tocar pelo Brasil em lugares pequenos, porque a onda de Anna Júlia já tinha ficado para trás.
MARCELO Eu lembro do primeiro show do Bloco, numa lona de circo em Campo Grande, com umas bandas de hardcore abrindo. A gente tocava e se olhava no palco, dizendo "Caralho, cara, é possível! As pessoas gostam dessa música!" MARCELO Tem quem goste!
Começou então a segunda ascensão do Los Hermanos. Aos poucos a banda tirou Anna Júlia do set list dos shows e um novo público foi se formando. A recepção da crítica ajudou. O Bloco do Eu Sozinho figurou em todas as listas de melhores do ano, o que lhes deu confiança para o terceiro disco, Ventura, lançado no ano passado pela gravadora BMG. Pouco a pouco, a platéia dos shows foi crescendo.
RODRIGO Na turnê do Bloco, foram dois anos sem ganhar dinheiro, vendendo disco debaixo do braço. Agora, com o Ventura, a gente volta aos lugares e vê o público crescendo. MARCELO As pessoas trazem as outras. Tem gente que diz "Sou o maior divulgador de vocês", gente que traz dez amigos ao show. Um exemplo bom é Porto Alegre. Tocamos lá com o primeiro disco, depois ficamos anos sem ir. Aí, com o Bloco, fomos e tocamos num clube para 450 pessoas. Voltamos quatro meses depois e tocamos para 800 pessoas. Voltamos mais duas vezes e o público só aumentava. Na última foram 2 mil pessoas. Agora vamos voltar e tocar num ginásio, para 6 mil pessoas. BRUNO Veja como são as coisas. Março foi o mês em que o Ventura mais vendeu, e ele foi lançado há dez meses! Sem música na novela ou música de trabalho bombando na rádio.
Boa parte da explicação para a segunda chance conquistada pelo Los Hermanos está nas letras. As músicas falam de relações amorosas, com a diferença de tratar o objeto de seu amor com carinho e respeito, bem distante da média das letras do rock brasileiro. "Eles falam de amor, entendem que isso é uma coisa muito complexa", diz uma fã na entrada do DirecTV Music Hall, em São Paulo. "Os versos dos Hermanos são os únicos no cenário musical que eu gostaria de ter escrito", grita o namorado de outra fã.
MARCELO Ninguém vai ao nosso show como quem vai até ali tomar um chope e ver o que está acontecendo. Na época de Anna Júlia, tinha muito curioso. Hoje as pessoas sabem o que vão encontrar. É uma relação afetiva, elas se sentem afetadas pelo texto. Você percebe essa identificação, isso de as pessoas tomarem a letra para si. São mais sentimentais do que eu, que escrevi aquilo.
A banda sabe bem como mexer com a platéia. O clipe mais recente, O Vencedor, foi gravado numa apresentação no Rio, mas o quarteto mal aparece na tela. Dezessete câmeras captaram imagens dos fãs cantando, numa colagem empolgante de moçada berrando com força, de sorrisos de felicidade. Uma fã revela que, antes do Los Hermanos, só encontrava canções de amor que mexessem com ela nos discos antigos de Chico Buarque. Outro seguidor da banda, quarentão, tem idade suficiente para compará-los a Ivan Lins no início da carreira, quando fazia ginásios inteiros cantarem seus refrões. Chico Buarque, Ivan Lins... Afinal, Los Hermanos é rock ou MPB? O público parece nem ligar para essas definições. A banda, muito menos.
MARCELO A gente não formou uma banda porque todos tinham o mesmo gosto musical, que é o mais comum, né? A gente tem relações diferentes com a música. O Barba gostava de rock pesado. Escutei muito samba, já o Ruivo [Rodrigo Amarante] gostava muito de rock inglês. A banda se formou mais pelas afinidades pessoais. RODRIGO O Marcelo juntou todos e só depois é que ele foi perguntando "O que é que tu ouve?" BARBA O Bruno nem entendeu essa pergunta. MARCELO Acho que ele tinha uns cinco CDs. [Risos]
No fim de uma longa conversa de bar numa tarde carioca abafada, a última tentativa de extrair uma explicação para o sucesso do Los Hermanos resulta numa frase de efeito, mas que no caso deles parece caber muito bem.
MARCELO A única coisa a fazer era seguir nosso coração.
Esse é o tipo da frase que, em outra boca, soaria piegas. Mas, enfim, os garotos do Los Hermanos podem. 2
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