Vanderlei Luxemburgo está de regime. Diz que engordou porque o azeite espanhol é "coisa de maluco". Num dos melhores restaurantes bascos de Madri, um "asador", versão mais próxima de uma churrascaria brasileira, o Luxe (apelido europeu) é recebido com as mesuras e reverências destinadas a celebridades. Além de perder uns poucos quilos, Vanderlei precisa ganhar algum título para o Real Madrid, time que passou por cinco técnicos em dois anos. "Quero fincar meu nome na Europa e provar aqui fora que o Brasil é bom de técnico", diz. Foi uma volta por cima espetacular, mesmo que o Barcelona tenha ganho o Campeonato Espanhol que Luxemburgo pegou pelo meio. Há apenas quatro anos, Vanderlei estava atolado em denúncias de todo tipo: sonegação, negociação de jogadores, assédio sexual, falsidade ideológica. Mesmo com esse currículo, foi parar, no início do ano, no topo de um dos maiores clubes do mundo, dirigindo craques que podem intimidar, pelo talento, qualquer treinador mais frouxo. A explicação é simples: sua folha corrida profissional, como treinador, impressionava muito mais. Tinha cinco títulos nacionais, o maior índice de vitórias de um técnico brasileiro (52%) e fama de durão. Processos continuam rolando, mas, diz Luxemburgo em seu melhor papel: "Eu paro com o futebol se provarem alguma coisa contra mim". O que rola de verdade, no atual momento desse fluminense que se diz carioca, é a vontade de ser reconhecido como o maior de todos. E, um dia, disputar e vencer uma Copa do Mundo com a seleção brasileira, para exorcizar a saída abrupta após o vexame na Olimpíada de Sydney. Mais tarde, quando pendurar as luvas de técnico, sonha ser presidente do Flamengo, "o time do meu coração".
Comer com jornalistas não é o programa favorito de Luxemburgo. É como dormir com o inimigo, que ele chama de "primeiro poder". PLAYBOY insistiu durante três meses e conseguiu falar com ele quase na prorrogação do segundo tempo. Cara a cara com o ex-engraxate, ex-feirante, ex-vendedor ("de mico, goiaba, carro usado, apartamento"), a impressão é que se está diante de um treinador que quer, no mínimo, empatar. Luxemburgo começa na retranca: "Não falo, isso dá eco e não gosto de eco". Aos 10 minutos do primeiro tempo, vai soltando as mãos e os palavrões: "Quando cheguei ao Real Madrid, estava tudo descaralhado". Ao suspeitar de má-fé, contra-ataca com velocidade: "Por que você quer saber quanto estou ganhando? Eu não te pergunto quanto você ganha...". Tem hora que faz firula: "Se eu fosse técnico da seleção, convocava o Rivaldo até para não jogar". Provoca o adversário: "Você viria me entrevistar de biquíni no restaurante? Não, né? Pois eu não deixo jogador meu usar chinelo de dedo em hotel cinco estrelas". É isso. Se o técnico é Vanderlei, pode ser até no Real Madrid, o jogador passa a ser dele, para o bem e para o mal. Talvez por ter tido três filhas, só mulheres, banca o pai para jogador, "meu garoto" pra lá e pra cá. "Dou porrada, exijo respeito, bato profissionalmente para mostrar o caminho, quero o melhor para eles".
Ouvindo e cantarolando um sambão em seu Audi, Luxemburgo admite que ganha muito menos do que seus colegas já consagrados e poliglotas. "Vim pra botar a cara a tapa e sei que é um investimento. Quando eu entrar de verdade no mercado europeu, vai ser diferente." Para quem se dispôs, depois de um ano e meio sem trabalho, a voltar para o Corinthians por um terço do que já tinha ganhado no mesmo clube, não é nada. Mas agora, na próxima temporada, ele tem que provar a que veio. E quer contar com o gênio do Robinho no campo. Já. O que enche a barriga do Luxemburgo hoje em dia não é euro nem churrasco: é título, faixa de campeão. Assim ele cala ou irrita quem não gosta de seu estilo.
Nas três primeiras vezes que o celular tocou durante a entrevista, e ele atendeu, era a mulher. O casamento dura 32 anos. "É minha esposa, a sergipana que conheci no Mato Grosso quando fui jogar lá." Como ela agüenta você tanto tempo, Vanderlei? "Já tentei cambiar, mas não consigo", brincou, numa de suas derrapadas para o espanhol. Ao fim das cinco horas de entrevista a Ruth de Aquino, o ex-atleta de 53 anos parecia menos na defensiva. No dia seguinte, de terno do Real Madrid, após lanche e preleção com a equipe, despediu-se com um lembrete, que poderia ser tomado, não fosse o tom gentil, por uma ameaça velada de cartão amarelo: "Olha o que você vai escrever, hein?"