No dia 24 de junho, uma terça-feira, o economista R. decidiu pegar um cinema depois do almoço. Foi até o Cine Palácio, no Centro do Rio de Janeiro, e comprou um ingresso para O Incrível Hulk, com Edward Norton no papel principal. Escolheu uma fileira com três poltronas vazias e sentou-se na do meio. Como estava sozinho, aceitou quando um casal pediu para que avançasse uma cadeira e deixasse os assentos seqüenciais para eles. Alice sentou-se colada a R. Seu marido, Guilherme, permaneceu na outra extremidade. Poucos minutos tinham se passado desde o começo do filme quando o economista sentiu uma mão repousar em sua coxa direita.

Alice começou a mexer os dedos na proximidade do joelho de R. Quando chegou à altura da virilha, R. agarrou a mão da moça. Assustada, ela recuou. Trocou duas palavras com o marido e, mais calma, voltou a apalpar R. Ele abriu o zíper da calça e pôs a mão de Alice em seu pênis. Ela começou a masturbá-lo. R. acariciou a coxa de Alice, que usava um vestido cinza de verão. Ela abriu suavemente as pernas e puxou a calcinha para o lado. R. passou a tocá-la e sussurrou: “Como você é gostosa”. Então ele ejaculou. Alice pediu ao marido que pegasse alguns guardanapos na bolsa e limpou as mãos.

Nos minutos que restaram até o fim da sessão, Alice e R. trocaram números de telefone. Quando o filme acabou, ela foi ao banheiro. O economista a seguiu. “E aquele cara?”, ele quis saber. “É meu marido”, ela disse. “Deixa ele aí e vamos para o motel”, R. sugeriu. “Não dá”, ela respondeu.

Do Cine Palácio, Alice e Guilherme foram tomar sorvete e, de lá, seguiram para casa, na Barra da Tijuca, Zona Oeste da cidade. Guilherme disse à esposa que a sessão de cinema o havia deixado excitado. Naquela tarde, enquanto um transtornado R. dava expediente no escritório, o casal transava pensando nele. A aventura no cinema fora um presente de Alice para Guilherme, que fazia meses insistia para que a esposa masturbasse um estranho no cinema. Finalmente, ele realizara sua fantasia sexual.

Nos dias seguintes à aventura no Cine Palácio, o casal espalhou entre os amigos a história da sessão do Hulk. Nas narrativas, Alice e Guilherme apelidaram R. de “Lanterninha”. “Depois que o Lanterninha gozou, achei que a brincadeira fosse continuar, mas perdi o tesão”, contaria Alice.

R. continuaria fascinado com a experiência no cinema. Ligaria para Alice mais algumas vezes. Numa das tentativas, ela atendeu. “Vou te contar uma coisa”, ela disse. “Sou promoter de uma festa liberal. Se você quiser aparecer por lá, está convidado.” Passou para o economista o endereço do Club 18A, local onde ocorre a festa – Rua do Mercado, 25, Centro do Rio, em frente à Bolsa de Valores. Numa quinta-feira, quando chegou à boate para trabalhar, Alice deparou com uma dúzia de rosas vermelhas que haviam sido enviadas por R. “Pela melhor sessão de cinema que eu tive na vida”, ele escreveu no bilhete. Alice deu uma gargalhada e foi correndo mostrar o presente aos amigos.

“Quero fazê-la gozar”

R. tem 33 anos, é casado com uma colega de profissão e tem dois filhos que usam fraldas. Recebe cerca de 9 mil reais por mês e esse salário, somado ao que ganha a esposa, permite ao casal morar num condomínio de alto padrão na Barra da Tijuca. Por causa do emprego com horários convencionais, não é fácil para ele dar escapadas noturnas. No dia 14 de agosto, data em que Alice faria uma festa na boate para comemorar seu aniversário, R. disse à mulher que precisava viajar a São Paulo. Pediu para passar a noite no apartamento de um amigo solteiro, na Zona Sul. Planejava dormir lá com Alice.

Na portaria da boate, vestido com a roupa formal que usara no trabalho, R. reencontrou Alice. Sentiu-se nervoso. Era a primeira vez que via com detalhes o corpo da sua companheira de cinema. Alice tem 25 anos, cabelos loiros e olhos verdes, 1,72 metro, 58 quilos, pernas roliças e cintura fina. Naquela noite, usava uma calcinha preta transparente, que deixava antever os poucos pêlos que sobraram de uma rigorosa depilação e, atrás, uma bunda redonda e dura entrecortada por um minúsculo fio. Também compunham o vestuário uma meia cinta-liga, corpete preto e sandálias altas.

Alice tratou R. com a mesma simpatia que dispensou aos demais clientes. Recomendou que aproveitasse a festa. R. armou-se com um copo de Coca-Cola e, visivelmente constrangido, percorreu o interior da boate. Ao deixar a recepção, ainda no primeiro piso, conheceu o bar. Viu casais namorando comportadamente e, ao fundo, a cama- altar, a postos para quem se interessasse em fazer sexo ali. Subiu com cuidado os degraus sem iluminação que o levaram ao segundo piso. Lá em cima, conheceu os quartos – escuros e sem porta, apenas com uma enorme cama redonda em cada um – em que pessoas faziam sexo. Num deles, uma moça gorda e ruidosa era penetrada, de quatro, por um homem magro. Mais de dez homens disputavam espaço para assistir à cena. Ao lado, uma morena fazia sexo oral em um jovem e atraía menor quantidade de espectadores.

R. não se empolgou com o que viu. “A única mulher bonita deste lugar é Alice”, resmungou. Permaneceu em um canto e só voltou a se animar quando Alice deixou a recepção para comandar a distribuição de camisinhas. Nessas ocasiões, a promoter deposita preservativos na calcinha, na meia e no sutiã e sobe a um palco. Começa a dançar e determina que os homens peguem os preservativos com a boca. R. observou, ao longe, Alice rebolar e ter cada centímetro do corpo disputado por lábios, dentes e línguas masculinas.

Depois da dança, os amigos de Alice puxaram um “Parabéns a Você” e ela distribuiu fatias de bolo de chocolate aos clientes. R. ganhou um. Comeu encostado na parede. Estava ansioso para tirar a moça dali, mas via as chances de um encontro íntimo diminuírem a cada instante. “Quero fazê-la gozar”, repetia. “Preciso de 30 minutos para fazê-la gozar.”

Nua na estrada
Raramente Alice chega ao orgasmo nas festas. O usual é que ela se excite ali para, em casa, gozar pensando no que aconteceu. Alice é exibicionista. Gosta de dirigir sem calcinha, parar ao lado de um ônibus e levantar a saia para ser vista pelos passageiros. O marido, Guilherme, incentiva a prática. Em abril, numa viagem de carro do Rio de Janeiro a Brasília, ela tirou a roupa, saiu do carro e posou para fotos no meio da estrada. Depois, nua, abordou vendedores ambulantes de acostamento. Também tirou fotos da experiência e as pôs no seu site (www.fantasiasdecasados.com.br).

A primeira vez que Alice praticou o exibicionismo foi com Guilherme. Os dois estavam em casa, fazendo sexo perto da janela, quando perceberam que um garoto de 14 anos os espiava, do outro apartamento. Guilherme convidou o menino para ver a cena de perto. Ele aceitou o combinado de não tocar em Alice, mas foi liberado para se masturbar. Na estréia, ela ficou nervosa. Mas, quando aceitou desfilar de calcinha para a janela do 712, onde mora um dentista, já estava à vontade. Ela e o vizinho costumam transar na escada do prédio.

Na festa, depois dos parabéns, Alice topou posar para as fotos da PLAYBOY fazendo sexo com diferentes pessoas. Convocou os amigos – dentre eles, “Seu Jorge”, um negro cujo pênis de 22 centímetros faz dele um freqüentador cobiçado. “Vamos transar”, ela conclamava. R. viu ali a chance de chegar perto da moça que havia noites tirava seu sono.

O quarto escolhido para a orgia tinha luz vermelha, cabide para roupas e bancos altos para quem quisesse assistir ao evento. Sete pessoas instalaram-se na cama. Alice chupou os seios de uma morena e beijou a boca de um garotão. R. ficou com vergonha de tirar a calça. Até que, num ímpeto, pôs-se nu e subiu à cama, já de pênis ereto. Foi imediatamente abocanhado por uma mulher de cabelos pretos.

Enquanto penetrava a moça, R. tentava, em vão, aproximar- se de Alice. Passava a mão em sua bunda. Acariciava-lhe os cabelos. Em dado momento, ela deixou a cama. Estava chateada porque o garotão não tinha ereção, embora ela tivesse feito um dedicado sexo oral nele. R. não tirava os olhos dela. Quando voltou, foi novamente abordada pelo garotão, que acomodou a cabeça entre suas pernas. “Olha lá, o cara tá chupando ela”, vibrou Guilherme.

R. foi o único homem da orgia a conseguir penetrar uma mulher, embora tenha permanecido frustrado por não chegar perto da sua favorita. “Seu Jorge” tentou, em vão, mas seu pênis de 22 centímetros não deu sinal de vida. O economista não demorou a ir embora. Foi dormir na casa do amigo, sozinho. Não podia voltar para casa. Para todos os efeitos, naquela noite ele estava em São Paulo. Logo depois, Guilherme comentaria o esforço de R. em transar com Alice, ao mesmo tempo em que, fascinado pela figura da moça, não conseguia efetivar a aproximação. “Ele não faz o tipo dela”, disse Guilherme. “É baixinho, fraco. Ela gosta de caras fortes. O preferido dela é assim.”

Suingue entre amigos
O preferido de Alice é o médico M., 30 anos, 1,93 metro de altura, 93 quilos, olhos verdes e cabelos castanhos. Os dois foram apresentados por Guilherme. Das 8h às 18h, Guilherme é funcionário público. Há 31 anos trabalha como analista de sistemas em um órgão do governo federal e tem salário de 6 mil reais por mês, fora gratificações. Alice é sua quarta mulher. Desde o primeiro casamento ele sonhava em praticar suingue. Ao fazer a proposta à primeira esposa, ouviu que teria o pênis decepado caso voltasse a tocar no assunto. Tentou com a segunda, novamente em vão. Com a terceira, a psicóloga A., contratada de uma consultoria de recursos humanos, teve mais sorte. Em 2002, ela topou ir a um sítio de troca de casais, na Barra.

O casal freqüentou o sítio todos os sábados, por três meses seguidos, até conseguir fazer sexo. Os clientes já se conheciam e transavam em grupos fechados, sem chances para os novatos. Certa noite, quando tentavam a sorte no quarto escuro – local de breu total, para que as pessoas se toquem sem ver nada –, foram abordados por um casal formado por um cinqüentão e uma loira de 35 anos. Ela tomou a iniciativa fazendo sexo oral em Guilherme, que logo viu A. fazendo o mesmo no cinqüentão.

Quando voltaram a se encontrar com o casal na mesma noite, tentaram engatar uma conversa, mas foram dispensados. Guilherme ficou indignado. Aproveitou, então, as horas de ociosidade na repartição para escrever um blog sobre suingue. Lá, reclamava da falta de descontração das casas liberais. Também escrevia sobre as aventuras que realizava com a esposa, como a vez em que, na estrada, a caminho de Fortaleza, parou numa borracharia e a convenceu a transar com o mecânico, enquanto assistia à cena. O blog começou a fazer sucesso. Moças escreviam para ele perguntando detalhes das aventuras sexuais. Guilherme teve, então, a idéia de promover um evento. Foi assim que nasceu o I Encontro de Mulheres Liberais do Rio de Janeiro, que ocorreu no dia 19 de agosto de 2003, num bar em Botafogo.

O encontro reuniu 22 mulheres e novas reuniões foram marcadas para as terças-feiras seguintes, sempre às 20h. Os temas dos encontros variavam – o suingue e a saúde, o suingue e os vizinhos. Para animar as discussões, Guilherme contratou um stripper que, ao fim das palestras, apresentava-se para as moças. Os maridos e namorados apareciam na seqüência, para pegar as mulheres. Como se encontravam toda semana, aquelas pessoas começaram a criar intimidade. E Guilherme teve a idéia que mudaria sua vida: sugerir aos presentes que, além de conversar, transassem. Mas de forma organizada: às terças, apenas entre os casais; às quintas, com a presença de solteiros. A festa cresceu e foi transferida para o Hotel Ibiza, no Centro do Rio de Janeiro.


Sexo com a defensora pública

Guilherme tem 50 anos e rosto com cicatrizes de acne. Na repartição e com os familiares que desconhecem sua vida liberal, ele é L. Certa vez, na festa, foi surpreendido pela chegada de uma defensora pública, subordinada a ele no serviço. “Você aqui?”, ela perguntou. “Eu organizo a festa”, ele disse. Os dois transaram.

Naquele período, Guilherme trabalhava num software e eram freqüentes suas reuniões com delegados e juízes. Impressionado com a visita da defensora, pensou que o melhor a fazer era passar um tempo atuando nos bastidores. Foi quando seu terceiro casamento entrou em crise e ele se separou.

Num passeio de moto, conheceu Alice, mãe de um garoto de 4 anos. Ela também havia acabado de se separar. Certa vez, viajaram juntos. Na volta, os dois se acidentaram. Guilherme levou-a para sua casa e assim começou um novo casamento. Para Alice, o marido era apenas um funcionário público com a libido à flor da pele. Um dia foram à Praia da Reserva, perto de Abricó, a famosa praia de nudismo do Rio. Ela nunca freqüentara ambiente liberal antes. Até aquele momento, só havia feito sexo com cinco homens. Ficou surpresa com a popularidade do marido no local. Estavam casados havia seis meses e ela perguntou a Guilherme se existia algo na vida dele que ela não soubesse.

“Sim”, ele disse. “Eu organizo uma festa de suingues. Se você não quiser mais ficar comigo, tudo bem. Eu vou entender.” Em vez de furiosa, Alice ficou excitada. Naquela semana, os dois foram à festa. Ela aceitou o convite para trabalhar na boate como promoter. Alice revelou-se uma promoter e tanto. Por causa daquela moça, que durante o dia estuda gastronomia e, para todos os efeitos, trabalha como representante comercial, o movimento da casa dobrou. O Ibiza tornou-se pequeno para as mais de 300 pessoas que, às quintas, freqüentam a festa. Foi transferida, então, para o prédio em frente à Bolsa.

O médico e a musa
Foi numa dessas festas que o médico M., o preferido de Alice, conheceu Guilherme. Era uma despedida de solteiros. Dois anos atrás, M. havia aceitado o convite de amigos para participar do I Desafio de Gang-Bang do Rio. Gang-Bang é uma prática em que uma mulher faz sexo com diferentes homens. Quando reencontrou Guilherme na recepção, os dois se reconheceram. Guilherme comentou que havia trocado a psicóloga por Alice. M. ficou chocado com a beleza da moça. Naquela noite, Alice e M. transaram. Guilherme observou.

M. atua como clínico geral e é de uma tradicional família de médicos. À exceção de amigos íntimos, ninguém do seu círculo social sabe de sua vida sexual liberal. Desde que conheceu Alice, tornou-se cliente assíduo da festa. Faz sexo com ela duas vezes por semana e reconhece que, ao vê-la com outros homens, já sentiu certo desconforto. Por saber que Alice é ciumenta, evita ficar com outras mulheres na festa. Fora dali, tem uma namorada, que não desconfia da vida dupla de M. “Não espero que a D. largue o L. para ficar comigo”, afirma M., numa terça-feira, enquanto come uma costela de porco no restaurante Outback, na Barra. Ele chama o casal pelos nomes verdadeiros. No ano passado, M. tentou ser um sujeito convencional. Telefonou para Alice. “Vou ficar só com a minha namorada.” “Não vai ter uma saideira?”, Alice perguntou. Ele disse não. Dois meses depois, voltou a encontrá-la.

Alice faz o tipo de M. Ele gosta de mulheres loiras e fartas. “Dessas que parecem saídas de um filme pornô”, diz. M. tem fetiche por peitudas. No dia 19 de agosto, Alice implantou 300 ml de silicone em cada seio.

A obsessão do economista

Depois do aniversário de Alice, R. nunca mais voltou ao Club. Do trabalho, continuou acessando o site da moça. No dia 15 de setembro, às vésperas de uma viagem para São Paulo – dessa vez, de verdade –, escreveu um e-mail para uma conhecida. “Em casa está tudo bem. O casamento é feito de altos e baixos”, relatou, conformado.

R. só não se conformou com a surpreendente coincidência que envolve sua história com Alice. Ou melhor, com D. Ela e a mãe de seus filhos têm o mesmo nome de batismo.