Meses atrás, Alfonso Legarra, gerente da boate Marrakesh, a mais tradicional casa de troca de casais de São Paulo, sentiu um imenso cansaço. Eram quase 6 da manhã de um domingo e ainda havia casais fazendo suingue nas cabines de sua boate. Ele não podia larger o batente. Resolveu, então, recostar-se no sofá do escritório para relaxar. Ligou a TV na Rede Globo, que transmitia ao vivo a Santa Missa, celebrada pelo padre Marcelo Rossi. Na plateia, vislumbrou três clientes habituais de sua casa, contritas. Não se conteve de excitação. Convocou os demais funcionários da Marrakesh para compartilhar a descoberta.

Praticantes de suingue não são necessariamente religiosos como as clientes da Marrakesh que rezavam junto com o padre Marcelo, mas a média dos casais é bastante tradicional nos costumes – em alguns, pelo menos. Traição, por exemplo, é assunto tabu. “Não tem essa de arrumar amante”, afirma Roberto, advogado, casado com Silvia, uma secretária que, no ultimo dia 26 de fevereiro, entrou em um ônibus no bairro de Moema, na Zona Sul de São Paulo. O que se sucedeu a esse ato aparentemente prosaico foi surpreendente. Silvia vestia uma saia curtíssima que deixava à mostra mais da metade do bumbum e top transparente, sem sutiã. Excitado com a visão daquela quase nudez, um homem se aproximou. Roçou nela. Silvia não resistiu. O desconhecido prosseguiu nos toques, cada vez mais íntimos. Então ali mesmo, usando os bancos do ônibus como cama, os dois transaram. Um pequeno amontoado de passageiros juntou-se em torno dos dois para ver a cena – e participar dela. Enquanto era penetrada pelo homem que nunca vira antes, Silvia sentia um amontoado de mãos percorrer seu corpo. Depois de satisfazer o primeiro, a mulher ainda estava disponível para fazer sexo com quem mais se dispusesse a tal. Ao todo foram seis homens. Silvia não embarcara sozinha naquele ônibus. Estava acompanhada de Roberto. De perto, ele viu todos os detalhes que seus óculos para miopia puderam testemunhar. Não tentou evitar o ocorrido. Quando os dois saltaram da condução, é possível que Roberto estivesse mais realizado sexualmente do que Silvia. “Se tiver de fazer, que seja na minha frente”, diz, explicando o raciocínio sobre traição.

O ônibus em que o casal embarcou não leva ninguém a lugar nenhum. Ele está estacionado dentro da boate Inner Club, casa noturna paulistana famosa por promover troca de casais. Chamado carinhosamente de “busão do amor”, o veículo foi colocado ali para permitir aos frequentadores que realizem a fantasia de transar dentro de um ônibus. A honraria de inaugurar o espaço foi dispensada a Silvia por ser ela a frequentadora mais célèbre da casa, uma espécie de referência para as novas gerações de suingueiras. Silvia tem 51 anos e esse não é seu nome verdadeiro, tampouco “Roberto” é o que consta na certidão de nascimento de seu marido, um ano mais jovem. Silvia guarda no carro as minúsculas peças que usa quando vai ao clube de suingue. “Ela entra aqui vestida como uma senhora recatada, vai ao banheiro e sai de lá montada, de um jeito que nem as garotinhas têm coragem de se vestir”, conta uma amiga. O casal frequenta casas liberais há cinco anos. Nesse período, Silvia transou com mais de 1 500 homens. Ele, com duas mulheres. “Só quero que ela se divirta”, explica Roberto.

Só uma coisa é capaz de abalar a excitação de Silvia e Roberto em suas noitadas na Inner Club, a casa que eles elegeram para suas aventuras sexuais, depois de visitar, por meses, um lugar diferente a cada fim de semana: o temor de que um dos três filhos, todos adultos, os flagre lá. “Eu mando embora. Aqui é meu lugar”, elucubra Roberto. “Eu me escondo”, imagina Silvia. O casal mantém um largo círculo de amizades na casa, mas prefere manter os filhos longe do universo da sacanagem. Nem todos, porém, são assim. Há quem, depois de uma troca de casais, combine uma ida ao parque com a criançada no dia seguinte.


QUANDO VEM O NENÊ?
Reza a cartilha dos suingues que os participantes não criem intimidade entre si. “O que acontece no suingue fica no suingue”, dizem os praticantes, na tentativa de explicar que, para evitar constrangimento, é bom que as relações entre eles sejam meramente sexuais. Na Marrakesh, a maioria das transas permanence na impessoalidade. “Raros são os que trocam números de telefone e e-mails”, diz Alfonso Legarra, o gerente. “Mas acontece de um ou outro se encontrarem fora daqui.”

O casal Jéssica e Apolo faz parte do grupo de suingueiros que estende as relações sexuais ao dia a dia. Em 19 de março, os dois subiram ao busão do amor com o casal Ricardo e Angelina para fazer uma troca. Jéssica e Angelina começaram os trabalhos com beijos na boca e carícias por baixo da roupa. Quando tiraram os vestidos, Jéssica exibiu uma calcinha fio-dental com motivos de zebra e Angelina, um fio vermelho com strass. Totalmente depilada, Angelina exibiu aos colegas um piercing na região genital. Ricardo e Apolo se posicionaram cada um atrás da mulher do outro, e dali a alguns minutos os quatro formavam um bolo em que era impossível dizer a quem pertenciam bocas, seios, pênis e bundas. Findas as tarefas, os quatro desceram do ônibus. No corredor, Jéssica, que minutos antes havia chamado atenção em sua performance no ônibus pela dedicação com que fez sexo oral em Ricardo, Apolo e Angelina, esbarrou em Paulo Jacomossi, proprietário do Inner. Ele engatou uma conversa.

– Jéssica, quando é que vem o nenê?

– Ah, não quero mais. Um já dá muito trabalho – respondeu ela.

Paulo e sua esposa, Fátima (os únicos nomes verdadeiros nesta reportagem), e Jéssica e Apolo se encontram com frequência for a do Inner. A amizade entre eles rendeu, inclusive, negócios. A empresa de Apolo presta serviços às casas noturnas de Paulo. Jéssica é administradora financeira.

CRUZEIRO SWINGER
Apolo tem 35 anos, mas seus cabelos brancos fazem com que pareça mais velho. Com pouco mais de 1,60 metro, veste-se de maneira formal e, por causa dos negócios, não larga do celular. Fala em português correto, embora sua voz nasalada lembre a dos humoristas quando imitam o presidente Lula. Jéssica, sua mulher, é uma loira de 30 anos e corpo impecável que passaria fácil como a gostosa do departamento de marketing de uma grande empresa. Os dois têm um filho de 11 anos. Nos três últimos anos, passaram o Réveillon com um casal de amigos que conheceram no suingue. Todos levaram os filhos – os amigos têm dois garotos de 11 e 15 anos. “É uma viagem-família, pois levamos as crianças”, explica Jéssica. “Mas também é apimentada, porque num momento ou outro rola uma transa.” Além de viagens, os suingueiros se encontram em churrascos, casamentos e festas de aniversário dos filhos. Em 2007, Jéssica e Apolo viajaram com outros 39 casais num cruzeiro de quatro dias, de Santos, no litoral paulista, a Búzios, no Rio de Janeiro. “Dessa vez deixamos os filhos em casa”, conta ela.

Para que a amizade entre os suingueiros ultrapasse a fronteira das cabines escuras das casas noturnas, algumas regras devem ser cumpridas. A primeira é evitar tocar no assunto diante das crianças. Parece uma recomendação óbvia, mas Jéssica e Apolo já enfrentaram algumas saias-justas ao sair com casais que não se importavam em tratar do tema na presença dos filhos. Outra norma, mais complicada de ser cumprida, é evitar que o relacionamento entre no campo das afetividades amorosas. Por isso, o melhor é que, após a troca, cada casal durma em sua casa. Acordar os quatro na mesma cama, por exemplo, não é de bom-tom.

Recentemente, o quase inevitável aconteceu com dois casais conhecidos da cena suingueira. O marido de uma apaixonou-se pela mulher de outro, e vice-versa. A situação foi resolvida de forma civilizada: os casais foram desfeitos e logo refeitos sob nova configuração. Outro temor que ronda os praticantes da modalidade é o fantasma da intimidade. Quando, por exemplo, casais ficam íntimos a ponto de sair para fazer compras em shoppings de decoração, é comum que a frequência do sexo diminua. “O que atrapalha quando você fica muito amigo é que acaba não rolando mais tanta transa. Não é que a gente perca o tesão; é que há outras coisas para fazer juntos”, diz Jéssica.

Ricardo e Angelina, o casal que fez a troca com Jéssica e Apolo no busão do amor, têm regras que, se escumpridas, provocam conflitos entre eles. A mais importante delas determina que nenhum dos dois pode gozar com outro. Aos 21 anos, Ricardo não tem problemas em cumprir a regra. Deslumbrado com o próprio corpo sarado, preocupa-se muito com a performance pública e, durante o sexo, evita ereções vigorosas para não ejacular. Angelina, 20 anos, nem sempre se segura. “Já gozei três vezes”, confessa. Drogas não são bem-vindas. Pessoas alcoolizadas costumam ser afastadas do grupo.

CÓCEGAS NA LÍNGUA
No corredor que liga o busão do amor à pista de dança, o proprietário Paulo Jacomossi conversa com uma conhecida sobre as normas da casa. Ali não é permitido rir alto – isso tira a concentração dos casais – tampouco agarrar pessoas sem que elas consintam. Repentinamente, o rosto de Paulo ganha uma coloração avermelhada. É Angelina quem, nua, passa correndo, convocando os presentes a interagir com o piercing que ostenta sob o clitóris. “Quem quer sentir cócegas na língua? Quem quer?”, conclamava em tom obsessivo. Diante do olhar inquieto de Paulo, ela se senta num enorme acolchoado, com as pernas afastadas cerca de 90 centímetros uma da outra. “Sabe, mesmo com 11 anos no ramo, há coisas com as quais não me acostumo”, diz Paulo, suspirando ao apreciar a nudez e o exibicionismo juvenis de Angelina. “Não me acostumo a ver as pessoas passando sem roupa na minha frente.”